Descubra como a inteligência artificial já impacta o futuro das nossas cidades

Londres, Copenhague e Nova York implementaram tecnologias avançadas para ajustar semáforos em tempo real e otimizar o transporte público; em Paris, a IA auxilia no planejamento de espaços verdes

FreepikCidade à noite com arquitetura e luzes vibrantesIA está transformando a maneira como nossas cidades são planejadas e gerenciadas

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Descubra como a inteligência artificial já impacta o futuro das nossas cidades

Londres, Copenhague e Nova York implementaram tecnologias avançadas para ajustar semáforos em tempo real e otimizar o transporte público; em Paris, a IA auxilia no planejamento de espaços verdes

  • Por Helena Degreas para a Jovem Pan News
  • 31/07/2024 11h37 – Atualizado em 31/07/2024 11h38

FreepikCidade à noite com arquitetura e luzes vibrantes

IA está transformando a maneira como nossas cidades são planejadas e gerenciadas

inteligência artificial (IA) já não é mais coisa de outro mundo ou de ficção científica. Se você observar, ela está presente em nossos smartphonescarros e até mesmo em nossos eletrodomésticos. Mas você sabia que a IA também está transformando a maneira como nossas cidades são planejadas e gerenciadas? Imagine cidades onde semáforos inteligentes ajustam o tempo de acordo com o fluxo de tráfego de pessoas e automóveis, reduzindo congestionamentos, facilitando a travessia de pedestres e melhorando a qualidade do ar em ruas e bairros onde os indicadores apontam para a necessidade de restrição da circulação de veículos. Ou prédios que otimizam o uso de energia, diminuindo o impacto ambiental e os custos para os moradores. Essa é a realidade que a IA está construindo em cidades que se destacam pelo relatório IESE Cities in Motion Index (CIMI) como inteligentes e encontram-se ranqueadas.

Recentemente, li uma coluna na newsletter Bloomberg intitulada “OpenAI Scale Ranks Progress Toward ‘Human-Level’ Problem Solving” (em tradução livre, “A Escala da OpenAI Avalia o Progresso em Direção à Solução de Problemas em Nível Humano”, que abordou o conceito de Inteligência Artificial Geral (AGI). A AGI refere-se a sistemas inteligentes com capacidade cognitiva equivalente ou superior à humana em diversas tarefas. Diferentemente da IA especializada, projetada para tarefas específicas, a AGI pode compreender, aprender e aplicar conhecimento de forma abrangente, adaptando-se a novos desafios e contextos sem necessidade de reprogramação. Imagine o impacto que a substituição de decisões humanas, muitas vezes baseadas em suposições ou dados incompletos, pode ter na qualidade de vida dos cidadãos.Playvolume

A AGI tem o potencial de transformar radicalmente o planejamento urbano e a gestão pública. Com sua capacidade de análise abrangente e em tempo real de dados complexos, a AGI pode melhorar significativamente a eficiência e eficácia das políticas públicas. Ela pode otimizar o tráfego, gerenciar a distribuição de recursos, prever e mitigar desastres naturais e aprimorar a prestação de serviços públicos. Além disso, a AGI pode analisar feedbacks da população para criar soluções mais inclusivas e democráticas, levando a cidades mais inteligentes, sustentáveis e equitativas.

Esses exemplos mostram como a inteligência pode transformar a gestão urbana a partir de cinco níveis de desenvolvimento previstos pela OpenAI. No nível básico, a automação simples realiza tarefas repetitivas, como a coleta de lixo ou o controle de tráfego. Assistentes virtuais podem ser utilizados em centros de atendimento ao cidadão, fornecendo informações e serviços de forma rápida e eficiente. Análises preditivas permitem aos gestores urbanos prever e mitigar problemas antes que eles ocorram, como congestionamentos ou falhas em infraestruturas. A autonomia parcial da IA pode ser utilizada para gerenciar sistemas complexos, como redes de transporte ou distribuição de energia, ajustando-se dinamicamente às mudanças nas condições. No nível mais avançado, sua autonomia completa pode permitir a operação de veículos autônomos e a gestão integrada de todas as infraestruturas urbanas, otimizando o uso de recursos e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos.

A gestão municipal hoje é baseada em dados. Esses dados são capazes de gerar um volume imenso de informações úteis, medidas em yottabytes, com o objetivo de levar conhecimento da realidade em todas as áreas relacionadas à prestação de serviços públicos. O relatório do IESE (CIMI) utiliza nove dimensões para avaliar o nível de inteligência de uma cidade e dados de mais de 100 indicadores para compor o ranking. A AGI tem o potencial de transformar radicalmente o planejamento urbano e a gestão pública. Com sua capacidade de análise abrangente e em tempo real de dados complexos, ela pode melhorar a eficiência e eficácia das políticas públicas, otimizando a resolução de problemas não previstos por agentes públicos.

Essas questões estão relacionadas a áreas como Capital Humano, Coesão Social, Economia, Governança, Meio Ambiente, Mobilidade e Transporte, Planejamento Urbano, Projeção Internacional e Tecnologia. Para quem se interessar pelo tema, o artigo “Artificial General Intelligence is Already Here”, de Aguera y Arcas e Norvig, publicado na Noema em outubro de 2023, oferece uma análise mais detalhada sobre o tema. Para implementar essas tecnologias, os gestores públicos precisam preparar e investir na infraestrutura urbana. Isso inclui a instalação de sensores e dispositivos de IoT (Internet das Coisas) para coletar dados em tempo real, além de garantir conectividade de alta velocidade e baixa latência, como redes 5G. É necessário também investir em servidores de alto desempenho e infraestrutura de nuvem para processar grandes volumes de dados. A segurança cibernética é outro aspecto a ser considerado, com a implementação de protocolos robustos para proteger os dados e sistemas contra ataques. Políticas públicas devem ser geradas com menos ideologia e mais precisão.

O IESE Cities in Motion Index (CIMI) destaca como cidades como LondresCopenhague e Nova York implementaram tecnologias avançadas para ajustar semáforos em tempo real, otimizar rotas de transporte público e planejar de forma mais eficiente. Em Paris, a IA auxilia no planejamento de espaços verdes e na otimização do uso de energia em edifícios, criando um ambiente urbano mais sustentável e agradável. Em Oslo, sensores inteligentes monitoram a qualidade do ar e da água, permitindo ações rápidas em caso de problemas ambientais. Em cidades como Estocolmo e Barcelona, a IA está sendo utilizada para facilitar a participação cidadã, onde plataformas digitais permitem que os moradores se envolvam ativamente no processo de tomada de decisão, contribuindo com ideias e feedbacks para o desenvolvimento urbano.

Ainda na mesma coluna, Elon Musk sugere que a IA poderia superar a inteligência dos seres humanos mais inteligentes até 2025 ou 2026, mencionando que a quantidade total de “computação senciente” superaria a de todos os humanos em cinco anos. Musk enfatizou a importância de desenvolvimento responsável de tecnologias artificiais que garantam que seu impacto seja benéfico para a sociedade como um todo. A computação senciente, ou a criação de sistemas capazes de percepção consciente (capacidade de perceber e responder ao ambiente), autoconsciência (reconhecer-se como uma entidade distinta de outras), sentimentos e emoções (reagir com profundidade emocional para além da programação) e tomada de decisões independentes (baseadas em um entendimento consciente das situações), ainda é uma perspectiva teórica, mas pode ter impactos profundos no planejamento urbano, pois poderia tomar decisões considerando não apenas dados objetivos, mas também o bem-estar emocional e social dos cidadãos. Isso poderia levar a um planejamento urbano mais justo e equitativo, onde as necessidades de todos os grupos sociais são atendidas de forma equilibrada.

Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas o planejamento das ações que visam rever rotinas e processos da gestão pública para a melhoria da qualidade das decisões de prefeitos, secretários, vereadores e demais agentes públicos depende do plano de gestão urbana. Cabe a nós, cidadãos, cobrar dos candidatos um planejamento eficaz voltado à melhoria da qualidade de vida de todos. O futuro se constrói agora.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Duas cidades, dois caminhos, um único planeta em jogo: qual futuro escolheremos?

Inspirados em romance de Charles Dickens, textos ‘Bleak House’ e ‘Great Expectations’ apresentam duas visões sobre o futuro a partir de escolhas pautadas na inclusão (ou não) do conceito de descarbonização

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, nada no rio Sena para demonstrar que o rio está limpo o suficiente para sediar eventos dos Jogos Olímpicos. Fonte: JOEL SAGET/EFE/EPA/POOL MAXPPP OUT

Ao ler os jornais da semana, deparo-me com a imagem da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, nadando no rio Sena e cumprindo sua promessa de despoluir as águas do rio antes dos Jogos Olímpicos de Paris-2024. Confesso que senti uma ponta de inveja da população francesa, que poderá desfrutar de suas margens e águas sem o odor pútrido que, aqui onde moro, é comum nos rios que atravessam não apenas a cidade, mas também o Estado de São Paulo. Gostaria de saber se o atual prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas teriam coragem de mergulhar nas águas dos Rios Tietê e Pinheiros, mostrando à população seus esforços para melhorar a qualidade de suas águas. Os esforços para despoluir o rio Sena começaram na década de 1990, com o “Plano Azul” de 1995 como marco importante, a partir da implementação de estações de tratamento de esgoto e regulamentações ambientais, melhorando significativamente a qualidade da água e permitindo, de certa forma, o cumprimento da promessa. Ações proativas vindas de governos são sempre bem-vindas. A existência de planos, por si só, é incapaz de garantir que os objetivos sejam alcançados sem a execução eficaz e o compromisso contínuo com a sustentabilidade. É a ação concreta e a monitorização constante que transformam as promessas em realidades tangíveis, como a melhoria visível do Sena e a possibilidade de eventos simbólicos como a natação da prefeita de Paris. A coluna de hoje apresenta dois contos que mostram como o futuro das cidades depende da qualidade das decisões governamentais a curto, longo e médio prazos.

Inspirados no romance “Um Conto de Duas Cidades” (1859), de Charles Dickens, os textos “Bleak House” e “Great Expectations“, extraídos da publicação “Cities, Towns & Renewable Energy: Yes In my front Yard” (2009), da Agência Internacional de Energia/Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (IEA/OECD), estabelecem uma analogia com a obra citada para evidenciar duas visões contrastantes sobre o futuro das cidades a partir de escolhas pautadas na inclusão (ou não) do conceito de descarbonização no processo de gestão urbana a longo prazo. Ao divergir sobre as políticas públicas adotadas por governos acerca da gestão da matriz energética vigente e seus impactos ambientais e econômicos sobre a vida do cidadão, os contos apontam cenários ficcionais sobre a importância das decisões políticas e tecnológicas na definição do futuro que se pretende alcançar. A escolha entre continuar com práticas de “business-as-usual” (mantem-se as rotinas) ou adotar uma abordagem inovadora e sustentável determinará a qualidade de vida, a prosperidade econômica e a resiliência das cidades nas próximas décadas.

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Os contos, adaptados para essa coluna, apresentam um breve resumo de cada cenário. Mobilidade sustentável, economia circular, infraestrutura verde, equidade espacial, resiliência e segurança, valorização das comunidades e grupos sociais, transparência em todos os setores da governança pública, acessibilidade universal são alguns dos temas centrais que definem as visões contrastantes apresentadas. Em “Bleak House,” o cenário é sombrio, refletindo uma realidade onde as cidades falham em adotar políticas inovadoras, resultando em ambientes degradados, desigualdade exacerbada e colapso econômico. Já em “Great Expectations,” a narrativa nos transporta para um futuro otimista, onde as cidades prosperam graças à implementação de tecnologias limpas, práticas de sustentabilidade e um forte compromisso com a justiça social.

Esses contos funcionam como um alerta e uma inspiração, destacando que o caminho que escolhermos hoje moldará profundamente as cidades de amanhã. Através de suas narrativas, eles nos convidam a refletir sobre a responsabilidade coletiva e a importância de decisões políticas e tecnológicas corajosas e bem informadas para construir um futuro urbano resiliente, justo e sustentável. O spoiler, desculpem leitores, pode ter antecipado parcialmente as narrativas. Tanto o documento técnico de 2009 quanto o romance valem a leitura.

Um conto de duas cidades

Em um futuro não tão distante, duas cidades se erguem como símbolos de destinos opostos. A primeira, Bleak House (Casa Sombria, ou talvez, numa tradução ‘ainda mais livre’, Cidade Desolada), sufocada pela fumaça dos combustíveis fósseis, agoniza sob um céu escurecido pela negligência climática. Seus habitantes, reféns de um passado que se recusa a morrer, enfrentam um futuro incerto e sombrio. Mas em outro canto do mundo, uma cidade radiante se destaca: Great Expectations (Grandes Esperanças, numa tradução livre), um farol de esperança alimentado por tecnologias limpas e mentes visionárias. Lá, o ar é puro, a energia abundante e o futuro, promissor. 

Cenário: Bleak House

No primeiro conto, a cidade de Bleak House é apresentada em diferentes épocas, destacando as implicações na qualidade de vida da população decorrentes das decisões políticas ao longo do tempo. Em 2012, decisões reacionárias às pesquisas sobre os impactos econômicos e climáticos futuros levaram à manutenção dos investimentos em fontes não renováveis como carvão, gás e petróleo. A visão imediatista proveniente de políticos eleitos pela população, associada à ganância de setores econômicos e empresariais, sobrepôs-se às questões ambientais e sociais de longo prazo.

Os impactos previstos pela ciência na década anterior, aconteceu. Em 2030, a cidade sofre sob um calor implacável. Jay, um engenheiro experiente, acostumou-se aos cortes de energia e ao calor sufocante em seu escritório. A energia insuficiente obriga a concessionária a desligar aparelhos periodicamente. O prédio moderno, outrora símbolo de progresso, tornou-se um forno no verão e um refrigerador no inverno, devido à falta de investimentos em eficiência energética. O trânsito caótico, agravado pela frota de carros movidos a combustíveis fósseis, dificulta a vida de todos. Enquanto isso, o governo mantém a política de “business as usual”, ignorando os alertas sobre mudanças climáticas e a necessidade de diversificar a matriz energética.

As consequências dessa inércia eram visíveis por toda parte. Temperaturas extremas e inundações frequentes forçavam a população a se adaptar. Impostos extras financiavam obras de contenção, enquanto áreas verdes desapareciam para dar lugar a diques e barreiras. As usinas termelétricas, principal fonte de energia da cidade, sofriam com a falta de água para resfriamento, agravando a crise energética. Em 2050, a cidade ainda carregava as marcas da negligência do passado. Edifícios antigos, como o de Jay, recebiam melhorias, como painéis solares, mas a um custo alto. As novas gerações, representadas pelos netos de Jay, cresciam em um ambiente marcado pela escassez e incerteza, mas também pela esperança de um futuro mais sustentável. A cidade lutava para se adaptar a um clima hostil e a um futuro incerto, resultado de décadas de decisões políticas equivocadas relacionadas à energia não renovável.

Cenário: Great Expectations

No segundo conto, a aprovação pelo Conselho Municipal do Plano Distrital em 2012 garantiu a transição energética futura. Todos os novos edifícios comerciais passaram a ser equipados com aquecedores solares de água, salvo exceções justificadas. Arquitetos integraram painéis solares nos telhados, seguindo diretrizes rigorosas para captar calor solar no inverno, proporcionar sombra no verão e beneficiar-se de ventilação e luz natural. Isso aumentou o custo inicial em cerca de 7%, mas os crescentes preços da energia rapidamente compensaram o investimento. Joy, recém-formada em energia sustentável e design de edifícios, explicava a outros proprietários os benefícios da eficiência energética, auditava edifícios para identificar economias potenciais e desenvolvia planos estratégicos. Os cidadãos utilizavam dispositivos que informavam os assentos disponíveis no próximo ônibus. Ao sair do trabalho, Joy acionava um botão de “dormir”, desligando todos os aparelhos do escritório, e observava as turbinas eólicas nas colinas a caminho de casa.

Em 2030, as ações que Joy possuía nas cooperativas eólicas locais pagavam dividendos suficientes para ela viajar ao exterior. Passagens aéreas haviam aumentado devido ao imposto internacional de carbono, mas eram parcialmente compensadas por biocombustíveis de segunda geração. Em 2050, sua sobrinha chegou dirigindo um carro elétrico com revestimento de coletores solares orgânicos, conectando-o ao sistema de energia da residência para uma recarga rápida. Joy sabia que o futuro da energia sustentável dependia de tecnologias avançadas e colaboração entre cidadãos e governos. Ela se orgulhava de fazer parte dessa transformação e estava otimista quanto ao futuro de sua família em um mundo mais limpo e eficiente.

Escolhendo entre dois futuros

Ao comparar os cenários Bleak House e Great Expectations, fica claro que as escolhas políticas que fazemos hoje, em especial no período de eleições, determinarão não apenas o futuro de nossas cidades e de nosso planeta, mas também nossas vidas em alguns anos. Os contos ressaltam a importância de decisões políticas e tecnológicas conscientes e inovadoras, destacando que um futuro sustentável e próspero é possível, mas exige ação imediata e colaboração entre todos os setores da sociedade. O documento técnico de 2009 é uma leitura valiosa que nos inspira a refletir e agir em prol do nosso futuro e de todos aqueles que virão depois de nos.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Walking through the city has turned our lives into an open stage, but this urban ‘Big Brother’ can be quite effective.

Helena Degreas* 04/05/2024 07h00 Jovem Pan News

The use of technologies such as IoT, Big Data, AI, GIS, and blockchain is fundamental for urban public policy planning, promoting safer cities, and improving quality of life.

Some capitals and cities already use technologies for information management and assistance in planning public policies focused on surveillance (anjianhua/Freepik)

The use of technologies such as IoT, Big Data, AI, GIS, and blockchain is crucial for urban public policy planning, promoting safer cities, and improving quality of life. Certainly, you must have come across cameras distributed across buildings, roads, poles, traffic lights, and patrol vehicles seamlessly blending into the urban landscape. These devices attentively observe us, capturing every step, gesture, expression, attitude, and behavior in search of patterns and information that can be utilized by those who installed them. Unlike the screens of a smartphone where we post what we want, our public life is scrutinized by silent witnesses who, keenly, observe our interactions with the city. Walking through the city has turned our lives into an open stage, whether or not we are aware of it. Despite discussions about the loss of control over our image and how it is used by companies and sectors of public administration that capture images, the fact is that currently, data generated daily on the internet exceeds 2.5 quintillion bytes produced by billions of users daily, numbers that point to significant growth in their production in any format.

“The real-time city is real!” With this phrase, the Senseable City Lab (MIT) has been working on contemporary urban management using the abundance of available images (Google Street View is one of the platforms used) to understand the different aspects of the city. Making sense of these sets of images that are then transformed into visual data can help us measure the legibility of space, quantify different aspects of urban life, and consequently design responsive environments. Cities are complex organisms that require approaches and the use of networks and digital information across their territory to understand the dynamics and interactions of the built environment. The Senseable City Lab (MIT) anticipates and studies urban changes through an omni-disciplinary approach, combining insights, methodologies, and techniques from various areas that integrate knowledge and skills from designers, urban planners, engineers, social scientists, biologists, physicists, and other disciplines involving diverse sectors and communities aimed at deepening mutual understanding between cities and inhabitants.

These technologies, when combined with sensor installation, allow for anticipating changes by capturing real-time information, providing a comprehensive and updated view of the situations that occur on city streets. By collecting real-time data on traffic, pedestrian and cyclist movement, environmental conditions related to noise production, thermal sensation, wind speed, and direction, urban maintenance (cleaning of public roads, repairs to sidewalks and squares, tree pruning, maintenance of public lighting, removal of debris, and inspection of green areas), for example, they can identify emerging trends, detect problems quickly, and inform urban planning decisions and public policies proactively. In Brazil, some capitals and cities have been standing out in the use of technologies for information management and assisting in the planning of public policies focused on surveillance and security, including IoT for real-time data collection, Big Data and Analytics to process information, AI to generate insights and extract meaningful insights from data, providing a complete understanding of problems, GIS for spatial data analysis, blockchain for security and transparency, and interconnected platforms promoting data sharing. When integrated, these technologies empower authorities to plan and implement effective policies tailored to the needs of urban communities.

Recently, the Municipality of São Caetano do Sul launched the São Caetano Mais Segura Program, investing over R$ 70 million in 2023. The program aims to deploy an urban infrastructure to support the over 400 already installed 360-degree cameras and the planned expansion of 1,335 that will cover the entire city. Additionally, it includes the installation of the Emergency Management Center (CGE), responsible for monitoring and managing urban emergency situations, using 360-degree cameras and sensors. Furthermore, integration of security forces with technology was carried out and personnel increased, through an agreement with the State government and the integration of GCM vehicle cameras with the Muralha Paulista and Córtex systems. These systems allow for the immediate identification of vehicles registered with CGE as stolen, as soon as they enter the city. A pop-up alerts both CGE and GCM vehicles about the irregularity, increasing efficiency in capturing criminals and ensuring daily security.

For those unfamiliar with the technology needed to ensure the efficiency and effectiveness of the security system, 360-degree cameras require the deployment of a robust network of optical cables to transmit real-time data with high speed and image quality, and the guarantee of stable energy systems for continuous operation. Effective control and monitoring require sophisticated management software, allowing real-time analysis and event detection. In addition to the installation of support infrastructures, such as poles and towers, that will allow for the strategic positioning of the cameras. Furthermore, cybersecurity measures to protect cameras and data against unauthorized access and attacks were taken for the program’s effectiveness. Data released by the São Paulo State Public Security Secretariat (SSP-SP) between March 2023 and 2024 show a decrease in various categories of crimes: reduction in cases of vehicle theft (45%), vehicle theft (37.50%), cargo theft (100%). These statistics are reinforced by quarterly comparisons, which also show a decrease in all major crime indices.

The use of technologies such as IoT, Big Data, AI, GIS, and blockchain is fundamental for urban public policy planning. These tools enable real-time data collection and analysis, making cities more responsive to citizens’ needs. However, their effectiveness depends not only on technological infrastructure but also on political commitment and the training of public agents for changing work culture. By integrating these technologies, authorities can create place-specific policies, promoting a more responsive city capable of meeting the demands of the population and improving their quality of life.

Do you have any questions or want to suggest a topic? Write to me on Twitter or Instagram: @helenadegreas.

*This column was written in partnership with geographer Luís Fernando Borsoi, an expert in spatial analysis and geoprocessing, environmental and urban planning for smart cities.

The English version employed features from ChatGPT and Gemini.

Andar pela cidade transformou nossas vidas em um palco aberto, mas esse ‘Big Brother’ urbano pode ser bem eficaz

Utilização de tecnologias como IoT, Big Data, IA, SIG e blockchain é fundamental para o planejamento de políticas públicas urbanas, promover cidades mais seguras e melhorar qualidade de vida

Por Helena Degreas* 04/05/2024 07h00 para a Jovem Pan News

Algumas capitais e cidades já usam tecnologias para a gestão de informações e auxílio no planejamento de políticas públicas voltadas à vigilância – anjianhua/Freepik

Certamente você já deve ter se deparado com câmeras distribuídas em edifícios, estradas, postes, semáforos e viaturas de policiamento integrando-se à paisagem urbana. Estes dispositivos nos observam atentamente, capturando cada passo, gesto, expressão, atitude e comportamentos em busca de padrões e informações que possam ser utilizadas por aqueles que as instalaram. Diferentemente das telas de um smartphone em que postamos o que queremos, nossa vida pública é vasculhada por testemunhas silenciosas que, atentas, observam nossas interações com a cidade. Andar pela cidade transformou nossas vidas em um palco aberto, com ou sem a nossa ciência. A despeito das discussões sobre a perda do controle sobre a nossa imagem e sobre como ela é utilizada por empresas e setores da administração pública que capturam imagens, o fato é que atualmente os dados gerados diariamente na internet ultrapassam os 2,5 quintilhões de bytes gerados por bilhões de usuários diariamente, números que apontam para um crescimento significativo na sua produção em qualquer formato. 

The real-time city is real!” (“O tempo real da cidade é real”). Com esta frase, o Senseable City Lab (MIT) vem trabalhando a gestão urbana contemporânea a partir do uso da abundância de imagens disponíveis (Google Street View é uma das plataformas utilizadas) para compreender os diferentes aspectos da cidade. Dar sentido a esses conjuntos de imagens que depois são transformados em dados visuais podem nos ajudar a medir a legibilidade do espaço, a quantificar diferentes aspectos da vida urbana e, como consequência, projetar ambientes responsivos. Cidades são organismos complexos que demandam abordagens e uso de redes e informações digitais em todo o seu território para a compreensão das dinâmicas e interações do ambiente construído. O Senseable City Lab (MIT) antecipa e estuda mudanças urbanas por meio de uma abordagem omni-disciplinar, combinando insights, metodologias e técnicas de várias áreas que integram conhecimentos e habilidades de designers, planejadores urbanos, engenheiros, cientistas sociais, biólogos, físicos e outras disciplinas envolvendo diversos setores e comunidades visando aprofundar o entendimento mútuo entre cidades e habitantes.

Essas tecnologias, quando associadas à instalação de sensores, permitem antecipar mudanças ao capturar informações em tempo real, fornecendo uma visão abrangente e atualizada das situações que ocorrem nas ruas da cidade. Ao coletar dados em tempo real sobre o tráfego, tempo semafórico dedicado à qualidade do movimento de pedestres e ciclistas em vias, condições ambientais relacionadas à produção de ruídos, sensação térmica, velocidade e direcionamento dos ventos, zeladoria urbana (limpeza de vias públicas, reparos em calçadas e praças, poda de árvores, manutenção de iluminação pública, remoção de entulhos e fiscalização de áreas verdes), por exemplo, podem identificar tendências emergentes, detectar problemas rapidamente e informar decisões de planejamento urbano e políticas públicas de forma proativa. 

No Brasil, algumas capitais e cidades vêm se destacando na utilização de tecnologias para a gestão de informações e auxílio no planejamento de políticas públicas voltadas à vigilância e segurança, incluindo Internet das Coisas (IoT) para a captação de dados em tempo real, Big Data e Analytics com o objetivo de processar as informações, Inteligência Artificial (IA) para gerar insights e extrair percepções significativas de dados, proporcionando compreensão completa de problemas, Sistemas de Informação Geográfica (SIG) para a análise de dados espaciais, blockchain para a segurança e transparência e plataformas interconectadas promovem compartilhamento de dados. Quando integradas, essas tecnologias capacitam autoridades a planejar e implementar políticas eficazes, adaptadas às necessidades das comunidades urbanas.

Recentemente, a Prefeitura de São Caetano do Sul lançou o Programa São Caetano Mais Segura, investindo mais de R$ 70 milhões em 2023. O programa visa implantar uma infraestrutura urbana para suportar as mais de 400 câmeras 360 graus já instaladas e a expansão de 1.335 planejadas que cobrirão toda a cidade. Além disso, inclui a instalação do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), responsável por monitorar e gerenciar situações urbanas de emergência, usando câmeras 360 graus e sensores. Além disso, foi realizada a integração das forças de segurança à tecnologia e ampliado o efetivo, por meio de convênio com o governo do Estado e a integração das câmeras das viaturas da GCM aos sistemas Muralha Paulista e Córtex. Estes sistemas permitem a identificação imediata de veículos cadastrados no CGE como roubados, assim que entram na cidade. Um pop-up alerta tanto o CGE quanto as viaturas da GCM sobre a irregularidade, aumentando a eficiência na captura de criminosos e garantindo segurança diária.

Para quem não conhece a tecnologia necessária para assegurar a eficiência e eficácia do sistema de segurança, as câmeras 360 graus requerem a implantação de uma rede robusta de cabos ópticos para transmitir dados em tempo real com alta velocidade e qualidade de imagem e a garantia de sistemas de energia estáveis para o funcionamento contínuo. O controle e monitoramento eficazes requerem software de gerenciamento sofisticado, permitindo análise e detecção de eventos em tempo real. Além da instalação de infraestruturas de suporte, como postes e torres, que permitirão o posicionamento estratégico das câmeras. Paralelamente, medidas de segurança cibernética para proteger câmeras e dados contra acesso não autorizado e ataques foram tomadas para a eficácia do programa. Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) entre os meses de mês de março de 2023 e 2024 mostram uma queda em diversas categorias de crimes: redução nos casos de roubo de veículos (45%,), furto de veículos (37,50%), roubo de cargas (100%). Essas estatísticas são reforçadas pela comparação trimestral, que também demonstra uma diminuição em todos os principais índices criminais.

A utilização de tecnologias como IoT, Big Data, IA, SIG e blockchain é fundamental para o planejamento de políticas públicas urbanas. Essas ferramentas possibilitam a coleta e análise de dados em tempo real, tornando as cidades mais responsivas às necessidades dos cidadãos. No entanto, sua eficácia depende não apenas da infraestrutura tecnológica, mas também do comprometimento político e da capacitação dos agentes públicos para a mudança da cultura de trabalho. Ao integrar essas tecnologias, as autoridades podem criar políticas adaptadas ao lugar, promovendo uma cidade mais responsiva, capaz de atender às demandas da população e melhorar sua qualidade de vida. 

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*Esta coluna foi escrita em parceria com o geógrafo Luís Fernando Borsoi, especialista em análises espaciais e geoprocessamento, planejamento ambiental e urbano de smart cities.

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Dia desses, observei a decepção de dois casais de fora ao não encontrarem a confeitaria que tanto amavam; episódio ilustra como a homogeneização da paisagem impacta não apenas os moradores

Por Helena Degreas 09/03/2024 08h00 – coluna originalmente publicada para a JovemPanNews

Turistas de Porto Alegre posam para foto em frente à Catedral da Sé, no centro de São Paulo – VALÉRIA GONÇALVEZ/ESTADÃO CONTEÚDO

Saio pouco de casa. No passado, nem tão distante, costumava ter quatro ou cinco compromissos ao longo do dia, em decorrência de uma rotina que me impus, seja pelos diversos empregos, seja pelas atividades triviais e cotidianas relacionadas à vida. Para me deslocar, usava o carro, privilégio de poucos, confesso. Ao longo dos anos, por prescrição médica, virei andarilha. Perfeita flâneur, desenterrei meu lado bisbilhoteiro e descobri-me enxerida nata. Ouvir a conversa dos outros é, para mim, abrir a caixa de Pandora: eu não consigo imaginar a surpresa que me aguarda nas conversas entre desconhecidos.

Dia desses, vejo dois casais parados em frente a uma longa fileira de tapumes. “Não tem nada aí para olhar”, pensei, “o que estarão fazendo?”. Cheguei mais perto. “Mor… cadê aquela confeitaria gostosinha? Não é aqui?”. “Ué” diz o moço, “não entendi. Acho que a gente errou o lugar”. O outro casal: “Não… tenho certeza, é aqui sim… é do lado daquela loja fechada que a gente comprou uns artesanatos, lembra? Parece que andaram cortando as árvores grandes também”. Suspirando, a outra moça reclama: “Não é mais o lugar que a gente vinha pra conversar. Vão construir prédio”.

“Claramente turistas”, pensei. Os dois casais se afastaram em busca de algum lugar que lhes proporcionasse a mesma sensação boa da tal confeitaria. Identidade do lugar e memória afetiva seriam as expressões que, numa sala de aula, utilizaria para explicar a situação de conforto, felicidade e prazer vivenciado em bons momentos e lembranças que acontecem em espaços públicos, na rua, na praça, no parque, na praia. As duas confeitarias destacavam-se pelo doces artesanais. Nada excepcional. Eu mesma parava, vez e outra por ali, para tomar um simples capuccino, que nem era tão bom assim, por um par de horas, simplesmente para ver pessoas, ouvir conversas alheias e colocar meus pensamentos em ordem. Respirar, enfim. O fato é que não eram franquias que vendem tudo igual em qualquer lugar e, também, não exibiam nenhum ranqueamento 5 estrelas nas paredes. O “chef”, basicamente, era o proprietário do estabelecimento que pensava assar bons bolos, doces e biscoitos. Por décadas, fez isso e vendeu muito com suas receitas. Deixou muita gente feliz. Eu era uma delas. Os dois casais também.

Concordo com as palavras da pesquisadora. Quando os espaços públicos perdem sua autenticidade, aquilo que os torna únicos, tornando-se genéricos e estandardizados, a atração para turistas em busca de vivências únicas é comprometida. Isso resulta em uma diminuição do potencial turístico dessas áreas, afetando negativamente toda a economia local que depende desse fluxo de visitantes em busca de autenticidade cultural. Não sei o nome das pessoas com as quais compartilho as experiências cotidianas durante minhas andanças por aí, mas conheço-os, entendo seus hábitos, reconheço suas roupas e, em alguns casos, compartilho rotinas e lugares onde faço compras, ajusto roupas, conserto sapatos, faço mercado, tomo sorvete, compro pão ou desembraço os pensamentos enquanto tomo um café. Agora não mais. Turistas e eu, moradora, estamos sofrendo a perda sistemática de nossas memórias afetivas vinculadas ao lugar em que estamos quer como moradores, quer como visitantes que desejam conosco compartilhar hábitos e costumes locais. Peculiaridades essas que enriquecem tanto a vivência quanto a experiência urbana.

Políticas públicas de alcance global e generalista, desvinculadas da realidade local, resultam frequentemente em ações locais desastrosas. Isso conduz a perdas irreversíveis de espaços tradicionais, descaracterizando trechos da cidade e bairros inteiros, prejudicando não apenas o que é visível, mas também o tecido social e sua cultura material e imaterial, elementos que definem cada comunidade. 

E, para definir uma comunidade, a colaboração, como mencionei na coluna passada, depende da atuação no processo de envolvimento para a criação e produção dos diversos stakeholders ou, ainda, associações de bairro, coletivos, comerciantes, organizações não governamentais junto com governos e empresas para criar políticas que identifiquem as qualidades locais e que podem contribuir para o desenvolvimento econômico. Trata-se de um processo trabalhoso que envolve a atuação constante, sistemática e permanente dos agentes públicos que ocorre por meio da realização de consultas públicas, workshops e reuniões de trabalho contínuas que só terminam com um consenso de todos os envolvidos. Estas ações são indispensáveis para definir de ações e estratégias que irão aprimorar a qualidade da vida dos que residem e, a partir daí, destacar as peculiaridades que fazem daquele lugar, daquela esquina ou daquela rua, únicos. Apenas desta forma a mitigação de problemas resultantes do processo e transformação podem ser acordadas por todos.

A recente experiência de um casal de turistas, buscando em vão uma confeitaria querida, ilustra como a homogeneização da paisagem e a descaracterização de espaços públicos que conferem vida à cidade afetam não apenas os moradores, mas também os visitantes em busca de autenticidade. A colaboração entre diversos stakeholders, incluindo moradores, comerciantes, organizações não governamentais e governos, torna-se essencial para criar políticas que valorizem as qualidades locais e contribuam para o desenvolvimento econômico, social e ambiental. Portanto, preservar a identidade local não é apenas uma questão meramente estética, mas um investimento na riqueza cultural e no bem-estar das comunidades, garantindo um futuro mais autêntico e sustentável para as cidades.

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Só com a participação comunitária é possível construir cidades mais justas, resilientes e prósperas

Presença pouco representativa da população é um fator, muitas vezes, causado pela falta de conhecimento de que se pode fazer a diferença

  • Por Helena Degreas
  • 27/02/2024 09h00
  • coluna publicada no site da Jovem Pan News

Divulgação/Neighborhood 360°Organização comunitária em Nova YorkPrograma Neighborhood 360° visa revitalizar áreas urbanas de Nova York por meio da colaboração com a comunidade

Os instrumentos de gestão democrática da cidade, regulamentados pelo Estatuto da Cidade (Brasil, 2001), buscaram ampliar a participação cidadã, aproximando o poder público da população na construção urbana. Contudo, essa efetiva participação exigiu a combinação de democracia representativa e direta, modelo brasileiro que apoia a participação pública, incluindo no planejamento urbano. Mesmo com o Estatuto da Cidade e os planos diretores, muitos documentos foram elaborados alheios à realidade, tecnocráticos e, em alguns casos, autoritários, menosprezando ou suprimindo a participação popular, suas vontades e desejos, portanto. Esses planos, em muitos casos, continuam sendo peças de ficção distantes da realidade urbana, vez que a complexidade dos materiais entregues à população para avaliação apresenta-se numa linguagem técnica, de difícil compreensão para aqueles que não compartilham a linguagem e os conhecimentos de burocratas públicos. Além disso, a presença pouco representativa da população é um fator, muitas vezes, causado pela falta de instrumentos e conhecimentos para participação nas discussões ou pela descrença de que sua participação possa desencadear mudanças. Limitações de recursos financeiros e de tempo também contribuem para esse cenário, conforme destacado por vários autores que pesquisam o tema em experiências pós-Estatuto da Cidade no Brasil.

A democracia participativa no urbanismo exige também o alinhamento com a vida cotidiana da gente para promover cidades justas, inclusivas, sustentáveis e democráticas, buscando eliminar as vergonhosas desigualdades no acesso aos direitos fundamentais previstos na Constituição e no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001). Audiências, plataformas digitais, fóruns de discussões, conselhos gestores, dentre outras ferramentas aplicadas pelo poder público municipal, objetivando alcançar uma cidadania plena, não têm sido suficiente para a percepção da eficácia no atendimento das demandas da população que vê suas necessidades não atendidas quer por secretarias de governo, quer por departamentos internos, técnicos ou guichês, por exemplo. Como membro de conselhos participativos municipais, coletivos e organizações não governamentais, venho observando a necessidade de reorganização das instituições públicas municipais para os diferentes níveis de envolvimento das pessoas.

Desde o direito à informação pública e atualizada de dados referentes à gestão, existência de protocolos e até a promoção da contratualização de soluções (processo de formalização e estabelecimento de acordos ou contratos entre diferentes partes interessadas, como a comunidade local, organizações não governamentais, setor privado e o governo), o processo de participação incorpora acordos que visam implementar e executar soluções específicas identificadas durante o processo participativo. Espécie de degraus de uma longa escada a subir, essas etapas são necessárias para que projetos e ações de âmbito local se legitimem publicamente por meio da codecisão (decisão compartilhada) entre os diversos atores urbanos envolvidos, incluindo, na compactuação, a definição de responsabilidades, prazos, orçamentos e outras condições para a implementação das propostas.

Cidades como Bogotá (Colômbia), Santander (Espanha), Estocolmo (Suécia) e Nova York (EUA) incluíram em suas políticas urbanas ações práticas de participação da população objetivando a cocriação, coprodução e placemaking em trechos urbanos específicos solicitados pelos cidadãos, visando a atualização espacial, retrofit, revitalização econômica de quadras e ruas. A estrutura institucional pública foi adaptada para que os diversos grupos sociais fossem incorporados nos processos de construção das cidades.

Para viabilizar a interação e integração, os governos criaram agentes institucionais para intermediar a coprodução em áreas urbanas, por meio da coordenação entre stakeholders urbanos (qualquer entidade ou grupo, como residentes, organizações, governos e empresas, que têm interesse ou são afetados pelas decisões e desenvolvimentos em contextos urbanos). Na lista de instituições criadas, encontram-se novos Departamentos de Planejamento Urbano para formular políticas, coordenar projetos e estratégias de coprodução de âmbito local; Agências de Desenvolvimento Urbano, responsáveis pela liderança em projetos de revitalização; Escritórios de Participação Cidadã para facilitar o envolvimento ativo da comunidade; e Comissões de Desenvolvimento Comunitário para representar os interesses das pessoas. Além disso, Agências de Habitação e Desenvolvimento Social concentram-se em habitação e desenvolvimento social; Escritórios de Parcerias Público-Privadas facilitam as colaborações entre os diversos setores envolvidos nos projetos; Agências de Sustentabilidade Urbana avaliam e têm por missão integrar, como tema transversal, a sustentabilidade dos projetos propostos. Há também Agências de Promoção do Turismo Urbano, que destacam a identidade local, promovendo o patrimônio histórico, ambiental e arquitetônico em parceria com a comunidade.

Existem diversos exemplos de programas e ações colaborativas entre entes federativos e cidadãos. Embora muitos gestores públicos brasileiros ainda os considerem novidade — e a maioria da população os veja como inovadores —, a aplicação dos três conceitos na produção do espaço urbano, ocorrem há décadas e resultam em melhorias significativas na qualidade de vida.  Em 2017, a cidade de Nova York incluiu em suas políticas urbanas o programa Neighborhood 360°, visando revitalizar áreas urbanas por meio da colaboração (trabalho conjunto, portanto) com a comunidade, onde fellows (profissionais qualificados selecionados por meio de concurso público são contratados por dez meses para atuar como intermediários entre a população e o poder público e pagos pelo NYC Department of Small Business Servic – SBS) desempenham um papel crucial, viabilizando acordos e desembaraçando, por assim dizer, entraves eventualmente criados pela burocracia. Eles participam ativamente da elaboração de planos estratégicos, incentivam a formação ou revitalização de associações de comerciantes e lideram a transformação de espaços públicos, tornando-os atrativos e alinhados com as características únicas da comunidade.

Paralelamente, organizações sociais cadastradas junto ao poder público e localizadas na região de intervenção (community-based organizations – CBO) têm um papel vital no desenvolvimento social, econômico e ambiental, mobilizando a comunidade para participar ativamente do placemaking ou, ainda, o processo participativo de transformar espaços urbanos, envolvendo a comunidade na criação de ambientes vibrantes, acolhedores e significativos que atendam às suas necessidades e aspirações — “mão na massa” que leva a ações tangíveis. Essas organizações capacitam os membros da comunidade para uma participação efetiva em projetos de placemaking, promovendo uma abordagem inclusiva e colaborativa para o desenvolvimento urbano. Os recursos financeiros para o programa Neighborhood 360° provêm de fontes diversas, como orçamentos municipais, fundações privadas e parcerias público-privadas, incluindo investimentos diretos das autoridades públicas locais, patrocínios empresariais, subsídios filantrópicos ou combinações variadas dessas fontes.

A implementação da cocriação, coprodução e placemaking exige reorganização das instituições públicascriação de novos agentes institucionais e mobilização da comunidade. Diversos programas e ações colaborativas já demonstram a efetividade dessas ferramentas na revitalização de áreas urbanas e na melhoria da qualidade de vida. Se a cidade é feita por pessoas e para pessoas, a melhoria dos canais de comunicação e interação entre o poder público para a solução dos problemas de âmbito local não passa apenas pelo planejamento em escala urbana e a regulamentação genérica distante da realidade das pessoas. Ouvi-las é obrigação dos entes federativos, criando os instrumentos necessários para que a participação se dê de maneira eficaz na solução de questões locais. Só com a participação comunitária, daqueles que não apenas habitam os mesmo locais geográficos, mas também têm interesses comuns na melhoria das ruas, das praças e tantos outros assuntos, será possível construir cidades mais justas, resilientes, sustentáveis e prósperas para todos.

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Calçada tem de ser vista como parte importante da vida urbana, e não como lugar de passagem rápida de pessoas

Cidades civilizadas são construídas, literalmente, a cada passo, e é na infraestrutura de mobilidade a pé que se mede o respeito dedicado à população pelas prefeituras

Por Helena Degreas 10/02/2024 08h00 – Atualizado em 10/02/2024 12h39

Gestão eficiente e reorganização de prioridades podem transformar muitos lugares inadequados em excelentes espaços públicos – Fonte: freepik

Lembrei-me do jornalista Gilberto Dimenstein e do seu hábito saudável de, literalmente “andar por aí” e descobrir coisas e detalhes que só o passo lento, o olhar livre de intenções e o prazer estético são capazes de proporcionar. Tento, em vão, manter o hábito das longas caminhadas, mas “tá difícil”, Gilberto. É sério. O descaso para com o andar das pessoas é histórico e remonta o tipo de colonização de nossas terras. Está entranhado na gestão da coisa pública. Uma visita às cidades colonizadas pelos espanhóis mostra padrões rigorosos na forma urbana impactando diretamente na qualidade da paisagem vivenciada e nas calçadas. As ruas organizadas em um padrão de grade ao redor de uma “plaza” central revelam uma estrutura planejada, onde a igreja e o governo ocupavam lugares proeminentes. Essa disposição não apenas determinava a paisagem urbana, mas também exercia influência direta na construção das calçadas públicas. Ruas largas e alinhadas continuam a oferecer espaços generosos para a circulação de pedestres, enquanto a “plaza” central, frequentemente dominada por uma igreja de estilo barroco, transformava as calçadas em locais centrais para atividades sociais e religiosas.

Separados por um oceano de distância entre os continentes, a autoridade portuguesa presenciou o surgimento de povoamentos espontaneamente originados de expansões territoriais decorrentes de atividades econômicas, como bandeiras e mineração, religiosas, militares e indígenas. As ruas, frequentemente sinuosas, e, por extensão, as calçadas, ainda hoje, se adaptaram às características dos terrenos acidentados, seguindo as inclinações e larguras possíveis impostas pela topografia natural.

Poucos são os projetos urbanos de bairros e cidades executados por prefeituras e demais entes federativos. O que vivenciamos hoje é resultado de uma abordagem mais abstrata e centralizada proveniente de um planejamento urbano por meio do uso de taxas, coeficientes, indicadores e regulações que permitem ao proprietário de lotes e glebas praticamente definir a forma final do lugar por onde andam as pessoas. Para os bairros periféricos, mais distantes das áreas centrais, a abordagem da forma urbana final é ainda mais complexa pois a ausência de regulamentações urbanas e políticas públicas de habitação secularmente frouxas no atendimento das populações, levou e ainda leva, à autoprodução de bairros em áreas urbanas que ainda hoje resultam em vielas e becos prejudiciais aos cidadãos além de caminhos de acesso informais, rotas improvisadas que conectam diferentes partes do assentamento, frequentemente sem planejamento formal, enquanto vielas e becos formam estreitas passagens entre edificações, ocasionalmente constituindo redes complexas de caminhos sinuosos.

Embora a demanda por moradia cresça exponencialmente, os projetos urbanos de bairros e cidades implementados por prefeituras e outros entes federativos desde o século XX são insuficientes. A abordagem predominante, baseada em taxas, coeficientes e indicadores numéricos, prioriza o planejamento abstrato e centralizado, relegando a segundo plano as necessidades das pessoas que vivem e circulam nas cidades. Essa lógica coloca nas mãos dos proprietários de terrenos a responsabilidade final pela forma do lugar, sem considerar o impacto social e ambiental das decisões tomadas.

A situação nos bairros periféricos apresenta uma complexidade ainda maior. A histórica negligência do Estado na regulamentação urbana e na implementação de políticas públicas de habitação levou à autoconstrução de grande parte desses assentamentos. Isso se reflete em vielas e becos estreitos, muitas vezes sem planejamento formal, dificultando o acesso e a circulação dos moradores e configurando redes complexas de caminhos sinuosos. Frequentemente, essas áreas carecem de infraestrutura básica adequada, como pavimentação, iluminação e saneamento. A inexistência e a difícil implantação das calçadas é apenas um reflexo dessa realidade desafiadora.

No projeto #UmaRuaCadaDia, o Portal Mobilize especializado no conteúdo exclusivo sobre Mobilidade Urbana Sustentável vem publicando desde o primeiro dia do ano várias imagens que retratam as diferentes realidades das ruas e calçadas do território brasileiro. Rondon (PR), Hortolândia (SP), Caucaia (CE), Rio Formoso (PE) apresentam ruas com calçadinhas de pedra, ruas de terra, com mesinhas sobre o asfalto, estreitas e com carros estacionados sobre as calçadas, um mosaico das distintas realidades brasileiras dos locais por onde caminham os brasileiros. Questões de design/projeto frequentemente não são insolúveis; uma ênfase equivocada no tráfego automotivo ou medidas de segurança excessivamente rigorosas pode ser a linha que separa o fracasso do sucesso. A gestão eficiente e uma reorganização de prioridades podem transformar muitos lugares inadequados em excelentes espaços públicos.

A infraestrutura de mobilidade a pé, englobando calçadas, pistas e travessias, é importante para a eficiência da mobilidade urbana, seguindo diretrizes dos planos de mobilidade de implantação obrigatória nas cidades brasileiras. Infraestrutura de mobilidade a pé abrange espaços viários como calçadas, pistas, canteiros centrais e travessias, incluindo elementos como calçadões, faixas elevadas, passarelas, sinalizações específicas e mobiliário urbano. A rede de mobilidade a pé opera em conexão, seguindo uma hierarquia viária para integrar elementos e fluxos de pedestres, sendo essencial para planejar e operar a mobilidade a pé de maneira eficiente. Não é um lugar de passagem rápida de pessoas. É parte importante da vida urbana.

As calçadas, em particular, são medidas da civilidade de um lugar público, sendo elementos fundamentais para consolidar laços sociais e promover qualidade de vida urbana. O espaço público transcende definições jurídicas e normas urbanísticas. Primordialmente, é um resultado do uso social, influenciado pelas variadas formas como as pessoas o ocupam e dele se apropriam. A qualidade desse espaço encontra-se na construção social e política, levando em conta os modos de utilização, os significados atribuídos, a acessibilidade e as dinâmicas sociais que o envolvem. Desta forma, as calçadas como integrantes do espaço público, emergem como uma métrica da civilidade e qualidade urbana. Ao repensarmos nossos espaços públicos, considerando usos, acessibilidade e dinâmicas sociais, podemos transformar não apenas as calçadas, mas toda a experiência urbana. Tem alguma dúvida ou quer sugerir um tema? Escreva para mim no Twitter ou no Instagram: @helenadegreas

Espaços verdes urbanos para crianças têm poder transformador no desenvolvimento infantil

Espaços verdes urbanos para crianças têm poder transformador no desenvolvimento infantilInvestir na expansão e densificação de áreas verdes nas cidades é promover o crescimento saudável, garantindo o desenvolvimento pleno das próximas gerações

Jovem Pan > Opinião Jovem Pan > Comentaristas > Helena Degreas > 

  • Por Helena Degreas
  • 04/02/2024 08h00
  • coluna originalmente publicada para a Jovem Pan News

Standret/Freepik

Espaço verde urbano para crianças fortalece o desenvolvimento, incluindo equilíbrio motor, redução do estresse, melhor desempenho acadêmico e até mesmo menor incidência de problemas de saúde mental e física

Desde os primeiros dias de vida até a adolescência, as crianças podem colher inúmeros benefícios dos espaços verdes urbanos. O relatório “A Necessidade de Espaços Verdes Urbanos para o Desenvolvimento Ideal das Crianças” (título original The Necessity of Urban Green Space for Children’s Optimal Development: a discussion paper), publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), destaca os inúmeros benefícios dos espaços verdes na saúde e desenvolvimento infantil, assim como ações para melhorar o acesso a esses locais. Dentre as intervenções recomendadas, o texto defende a mobilização de grupos comunitários para reivindicar e zelar pelos seus espaços verdes locais, buscando o apoio do governo para a criação e aprimoramento de áreas verdes nas ruas, nos bairros e em ambientes escolares.

A definição do termo “espaço verde” ainda não é universal e, até o momento, não existem critérios mínimos internacionalmente aceitos para tais áreas em ambientes urbanos. Em sua essência, um espaço verde refere-se a uma porção de terra vegetada, abrangendo desde parques públicos e privados, a gramados, jardins residenciais e condominiais, calçadas, sistemas viários, playgrounds, terras agrícolas, terrenos abandonados, árvores ao longo de ruas, áreas adjacentes a estradas e coberturas verdes. Citei apenas alguns exemplos. Não cheguei a propor os espaços de água que incluem lagos, represas e orlas diversas. Fica para uma próxima coluna.

Embora observar um espaço verde pela janela seja benéfico para o desenvolvimento infantil, os benefícios aumentam significativamente quando as crianças dedicam algum tempo do seu dia para explorar, brincar, criar, relaxar e refletir dentro de um ambiente verde seguro. A configuração específica de um novo espaço verde (ou já existente) dependerá do contexto local, levando em consideração fatores como restrições de espaço, condições climáticas, influências culturais, preferências da comunidade e disponibilidade orçamentária. Isso pode variar desde a incorporação de uma simples árvore na rua até a criação de extensos parques públicos. É crucial que as crianças e a comunidade local participem ativamente e tenham suas vozes ouvidas em todo o processo de design. Estratégias para envolver as crianças incluem a utilização de modelos, desenhos coletivos e grupos focais, entre outras abordagens.

Estudos em várias partes do mundo (226 papers publicados em periódicos científicos foram utilizados como referência na redação do relatório da Unicef) destacam a correlação entre o acesso a áreas verdes e o desenvolvimento das crianças incluindo equilíbrio motor, redução do estresse, melhor desempenho acadêmico e até mesmo menor incidência de problemas de saúde mental e física. A importância da integração efetiva dos espaços verdes em ambientes urbanos densos é inquestionável e vem sendo posta em prática em diversas prefeituras.
Exemplos globais inspiradores, como o modelo de Singapura, Londres (Inglaterra), Buenos Aires (Plano BA Cidade Verde), além de Bogotá (Colômbia), mostram como é possível integrar efetivamente espaços verdes em ambientes urbanos densos. Parques, jardins em sistemas viário, redução do número de áreas de estacionamento rotativo substituídos por corredores arborizados e até mesmo telhados verdes tornaram-se partes essenciais da paisagem urbana, proporcionando oportunidades valiosas para as crianças conectarem-se com a natureza.

O documento aponta ainda alguns desafios nas questões relacionadas à facilidade com que as pessoas podem acessar e utilizar os serviços ou espaços existentes nas áreas verdes considerando as necessidades de específicas das pessoas fazendo um apelo para que as autoridades municipais ajam em resposta a esses desafios. Em muitos casos, a acessibilidade permanece como um grande desafio: distância, barreiras físicas e a falta de conscientização de pessoas e de empresas e mesmo das prefeituras limitam a capacidade das crianças, especialmente nas comunidades de baixa renda, de desfrutarem desses ambientes saudáveis. Neste momento, a atuação municipal eficaz na eliminação dos problemas por meio da escuta às reivindicações das crianças, seus principais usuários, é crucial para a transformação do local num ambiente vibrante, cheio de vida.

Destaco aqui algumas recomendações que podem servir de inspiração aos senhores prefeitos das cidades brasileiras:

  • É imperativo que os municípios incorporem espaços vegetados em todos os projetos de desenvolvimento urbano, integrando áreas de lazer, praças e parques como componentes essenciais do planejamento urbano. A acessibilidade universal, obrigatória não apenas pelo atendimento das leis e regulamentações urbanas, mas também como respeito à dignidade do cidadão, devem ser promovidas por meio da redução das distâncias e implementação de trilhas e caminhos seguros, criando corredores verdes que conectam áreas urbanas, estabelecendo uma rede verde acessível a todas as crianças;
  • Prefeitos devem lembrar-se que, embora trabalhosos na execução, o envolvimento dos usuários locais é importantíssimo no sucesso da criação dos espaços verdes por meio da participação ativa da comunidade no planejamento e manutenção de espaços verdes pois fortalece o senso de pertencimento por meio de atividades como plantio de árvores e limpeza levando à garantia de sucesso na manutenção do local. Os usuários conhecem melhor do que qualquer burocrata e tecnólogo o que importa para a melhoria do local;
  • Oferecer incentivos fiscais a empresas que adotam práticas sustentáveis, como inclusão de áreas verdes em projetos, beneficia as crianças e contribui para a saúde geral da comunidade. A promoção de zonas livres de carros e de seus estacionamento em ruas melhora a segurança e cria ambientes propícios para atividades ao ar livre, especialmente essenciais para garantir espaços seguros para as brincadeiras das crianças.

Em síntese, o relatório destaca a ligação inseparável entre cidades sustentáveis e o bem-estar das crianças, sublinhando a importância do papel desempenhado pela ação municipal na criação de ambientes urbanos propícios à saúde e ao desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes. Assegurar acesso equitativo a espaços verdes em toda a extensão da cidade, abrangendo desde as áreas centrais até as periferias, é uma responsabilidade compartilhada entre poder público, cidadãos, associações e empresas. Ao incorporar a arborização e a vegetação urbana nas estratégias de planejamento, as cidades não apenas investem no presente, promovendo a saúde e a felicidade das crianças, mas também moldam um futuro sustentável para toda a cidade. 

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Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Como seriam as cidades projetadas pelas crianças? Uma reflexão sobre mobilidade urbana e cidadania ativa

Transformação do espaço público através da visão única e criativa dos pequenos é o desafio proposto pelo Instituto Corrida Amiga, que reimagina o tecido urbano e traz a perspectiva infantil para o centro do debate

Transformação do espaço público através da visão única e criativa dos pequenos é o desafio proposto pelo Instituto Corrida Amiga, que reimagina o tecido urbano e traz a perspectiva infantil para o centro do debate

Por Helena Degreas para a Jovem Pan News
20/01/2024 08h00

Espanha e Portugal já realizam experiências com a participação de crianças em projetos urbanos

As crianças possuem uma maneira especial de enxergar o mundo. Suas mentes curiosas não são limitadas por convenções, permitindo-lhes sonhar com possibilidades ilimitadas O Instituto Corrida Amiga propõe uma abordagem inovadora ao pensar nas cidades a partir da mobilidade urbana ativa, buscando alterar a forma como nos movemos e transformar nossa relação com o ambiente urbano. O relatório “Diagnóstico: A Cidade sob o Olhar das Crianças A Partir da Mobilidade Urbana” teve o apoio do programa CAU Educa (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil) e destaca o papel crucial de crianças e jovens como agentes de transformação, visando um futuro melhor para toda a sociedade. Ao focar na mobilidade ativa, as atividades envolveram reflexões sobre o papel do espaço público na promoção da saúde e bem-estar

A caminhabilidade e o ciclismo não são apenas formas de se locomoção, mas meios para a construção de uma comunidade mais conectada e consciente, pois estimulam a interação com as pessoas e tudo o que está à sua volta. É uma resposta aos princípios adotados pelo urbanismo modernista, que, consolidados no século XX, promoveram, pelo zoneamento funcional, a segmentação de espaços urbanos para atender a diferentes necessidades, resultando na criação de áreas específicas destinados a públicos específicos. É como se os locais destinados às crianças fossem apenas os parques, cabendo aos idosos, por sua vez, os bancos de jardins existentes em praças. Cada um no seu lugar, como se a vida urbana pudesse ser dividida em atividades definidas por tecnocratas. Apesar de visar à eficiência no funcionamento das cidades, essa especialização colaborou com a segregação social e limitou a interação intergeracional, fragmentando a cidade em um conjunto de espaços distintos para funções específicas. Atrelado a estes princípios, o urbanismo motorizado destruiu a fluidez do andar, do caminhar, do flanar como prazer estético, sem pressa, priorizando a fluidez e eficácia do trânsito automotivo, e redefiniu os espaços dos caminhantes em calçadas e faixas de pedestres, entupindo a paisagem urbana com sinalizações voltadas à segurança viária.

Se as crianças fossem urbanistas, priorizariam espaços públicos como elementos essenciais, promovendo interação social. A segurança emocional seria prioritária, com espaços inclusivos e acessíveis. A ideia de acesso à cidade seria ampliada, eliminando barreiras econômicas no transporte público. Educação para mobilidade ativa seria parte do currículo, preparando gerações futuras para cidadania comprometida. A segurança seria prioridade, não apenas em termos de tráfego, mas também no sentido emocional. Espaços públicos seriam projetados para serem inclusivos, acolhendo a diversidade de todas as crianças. A acessibilidade seria a norma, garantindo que todos, independentemente de suas habilidades físicas, pudessem desfrutar plenamente de todos os locais que hoje estão ocupadas por carros. 

A ideia de acesso e direito à cidade, muitas vezes negligenciada, ganha destaque nessa visão alternativa. Se as crianças fossem as planejadoras, o acesso à cidade não seria restrito, mas ampliado. As crianças, ao serem envolvidas nesse processo de transformação, tornando-se agentes ativos em suas comunidades, aprendendo, desde cedo, sobre a importância da mobilidade consciente e como suas escolhas impactam não apenas a si mesmas, mas toda a cidade. A educação para a mobilidade ativa se torna parte integrante do currículo escolar, preparando as gerações futuras para serem cidadãos comprometidos e participativos.

A participação infantil seria uma prática real, por meio de conselhos e projetos participativos, influenciando políticas públicas. Oficinas e consultas seriam processos contínuos. A participação em projetos urbanos seria um direito, reconhecendo a experiência única das crianças. Experiências como esta já existem em outros países como Portugal e Espanha. Nesse contexto, iniciativas bastante relevantes e promissoras envolvendo a participação das crianças e adolescentes — e suas experiências e vivências na cidade — já são realidades. O diagnóstico apresentou o projeto “A Cidade das Crianças”, onde em Valongo, Portugal (2022), foi realizada uma sessão do “Conselho das Crianças”, na qual o poder público português incluiu, em seu planejamento urbano, a visão das crianças.

Outro exemplo citado foi a criação de “Conselhos Infantis” em Rosário, na Argentina, que tem por objetivo, levar melhorias urbanas locais a partir da sugestão de seus principais usuários: as crianças. A maneira como elas experimentam a cidade exerce uma influência significativa em sua infância. Repensar a mobilidade urbana com base na visão infantil é uma provocação à imaginação e uma chamada à ação. Um lugar projetado por crianças investe no futuro, construindo cidadãos comprometidos, saudáveis e plenamente engajados na vida urbana.

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Quais são os desafios e oportunidades que nos aguardam em 2024 na busca por um desenvolvimento urbano sustentável?

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Sustentabilidade, resiliência climática e inclusão social são alguns dos temas que ocuparão as manchetes dos principais meios de comunicação no ano recém-iniciado

Por Helena Degrea 06/01/2024 09h00 para a Jovem Pan News (texto original)

EDI SOUSA/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO – 03/01/2024Pedestres enfrentam a primeira chuva de verão do ano de 2024, no fim de tarde desta quarta-feira (3), na região central de São Paulo

Planejadores urbanos e gestores públicos devem preparar cidades para enfrentar e mitigar impactos dos extremos climáticos

As discussões previstas na Agenda Urbana Internacional para o ano de 2024 (e que se estenderão para a próxima década) apontam para cinco temas que ocuparão as manchetes dos principais meios de comunicação e que visam o planejamento de cidades mais sustentáveis, inclusivas e resilientes. Espera-se de gestores e técnicos públicos: 

Sustentabilidade urbana

O crescimento inevitável das áreas urbanas destaca a imperatividade dos governos investirem no desenvolvimento de políticas públicas e estratégias com ações que visam causar o menor dano possível aos ecossistemas, recursos naturais, biodiversidade e à qualidade do ar, água e solo. Ao promover políticas e práticas ecoeficientes, governos estimulam ambientes urbanos ecologicamente equilibrados e saudáveis. Investir em energias renováveis, desenvolver sistemas de transporte público integrado com a inclusão dos modais ativos e adotar políticas de gestão inteligente de resíduos são algumas das medidas concretas nesse caminho. Essas iniciativas não apenas respondem ao desafio ambiental, mas também contribuem para o desenvolvimento sustentável das áreas urbanas, garantindo uma qualidade de vida mais elevada para seus habitantes.

Resiliência climática e adaptação

Com as preocupações crescentes em relação aos impactos causados pelas mudanças climáticas que recaem sobre a população, as cidades (seus planejadores urbanos e gestores públicos) devem se preparar para enfrentar e mitigar impactos adversos. Embora afetem todos os cidadãos, os impactos recaem, sobremaneira, sobre a população mais pobre que reside em áreas distantes dos centros e cuja infraestrutura é, comumente, precária. Adaptação dos sistemas de drenagem e gestão de águas pluviais, infraestrutura de abastecimento de água e saneamento, transporte público e mobilidade urbana, parques e áreas verdes urbanas, estruturas costeiras e portuárias, redes elétricas e de energia deverá sofrer adaptações para sua eficiência e eficácia para fortalecer a resiliência das cidades diante dos desafios climáticos emergentes, garantindo a segurança e qualidade de vida dos habitantes urbanos.

Inovação tecnológica e cidades inteligentes

Avanços tecnológicos oferecem a oportunidade única de transformar as cidades em ecossistemas inteligentes a partir da integração de tecnologias emergentes, como a Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial, otimizando serviços urbanos e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos. Aplicações como gestão inteligente de tráfego e transporte, monitoramento ambiental, e planejamento urbano baseado em dados, considerando padrões climáticos futuros, são algumas das diversas possibilidades que melhoram a qualidade de vida. O uso inteligente de água com integração de sensores para monitoramento do consumo em tempo real, sistemas de irrigação adaptáveis às condições climáticas, gestão inteligente de resíduos por meio da implementação de sistemas de coleta de lixo que otimizam rotas com base na demanda, reduzem a emissão de poluentes. A mobilidade sustentável e sistemas de transporte, quando conectados e interativos, oferecem informações por meio de aplicativos e plataformas em tempo real sobre transporte público, permitindo aos cidadãos planejar rotas eficientes e reduzir a dependência de veículos individuais, contribuindo para a redução das emissões de carbono. Outo exemplo é a gestão eficiente de redes de energia com a implementação de redes elétricas inteligentes que ajustam automaticamente a distribuição de energia com base nas demandas sazonais e das condições climáticas locais. E, por fim, sensores urbanos para monitoramento ambiental para identificar padrões de poluição e alertar sobre eventos climáticos extremos.

Inclusão social e equidade

Diante das desigualdades sociais evidentes em muitas áreas urbanas, os próximos anos exigirão um esforço conjunto entre gestores e técnicos públicos dos três entes federativos, empresas e população para garantir o acesso universal à moradia, à infraestrutura urbana, equipamentos e serviços públicos e o fortalecimentos dos instrumentos adequados para a participação de grupos sociais diversos na tomada de decisões sobre a gestão das intervenções necessárias à realidade local. O urbanismo local, que afeta o cotidiano das pessoas, precisa se integrar ao planejamento urbano generalista, que muitas vezes ignora as necessidades cotidianas. Planos de bairro e planos de rua precisar ingressar na prática de gestão urbana municipal. 

Governança urbana participativa

A participação cidadã na tomada de decisões urbanas é crucial para assegurar representação diversificada e transparente. O desafio é fortalecer instituições governamentais urbanas para garantir governança eficaz, transparente e responsável. Estimular a participação cidadã, fortalecer instituições de controle social e garantir a transparência governamental são passos fundamentais nesse percurso por meio do desenvolvimento de plataformas online e aplicativos que permitem aos cidadãos relatar problemas ambientais em tempo real, como pontos de alagamento ou áreas com poluição do ar, por exemplo.

Complexos e interligados, os temas voltados ao cumprimento das metas presentes na Agenda 2030 refletem a busca por soluções que permitam que as cidades prosperem diante de desafios globais. Ao adotar estratégias ambientais, fomentar inclusão social e garantir transparência e participação cidadã na governança pública, as cidades fortalecem a resiliência e constroem comunidades sustentáveis. A busca pela sustentabilidade urbana não apenas promove eficiência e resiliência, mas também compromete-se a distribuir equitativamente os benefícios, trilhando o caminho de um futuro mais justo e sustentável para todas as pessoas.

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