Descubra como a inteligência artificial já impacta o futuro das nossas cidades

Londres, Copenhague e Nova York implementaram tecnologias avançadas para ajustar semáforos em tempo real e otimizar o transporte público; em Paris, a IA auxilia no planejamento de espaços verdes

FreepikCidade à noite com arquitetura e luzes vibrantesIA está transformando a maneira como nossas cidades são planejadas e gerenciadas

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Descubra como a inteligência artificial já impacta o futuro das nossas cidades

Londres, Copenhague e Nova York implementaram tecnologias avançadas para ajustar semáforos em tempo real e otimizar o transporte público; em Paris, a IA auxilia no planejamento de espaços verdes

  • Por Helena Degreas para a Jovem Pan News
  • 31/07/2024 11h37 – Atualizado em 31/07/2024 11h38

FreepikCidade à noite com arquitetura e luzes vibrantes

IA está transformando a maneira como nossas cidades são planejadas e gerenciadas

inteligência artificial (IA) já não é mais coisa de outro mundo ou de ficção científica. Se você observar, ela está presente em nossos smartphonescarros e até mesmo em nossos eletrodomésticos. Mas você sabia que a IA também está transformando a maneira como nossas cidades são planejadas e gerenciadas? Imagine cidades onde semáforos inteligentes ajustam o tempo de acordo com o fluxo de tráfego de pessoas e automóveis, reduzindo congestionamentos, facilitando a travessia de pedestres e melhorando a qualidade do ar em ruas e bairros onde os indicadores apontam para a necessidade de restrição da circulação de veículos. Ou prédios que otimizam o uso de energia, diminuindo o impacto ambiental e os custos para os moradores. Essa é a realidade que a IA está construindo em cidades que se destacam pelo relatório IESE Cities in Motion Index (CIMI) como inteligentes e encontram-se ranqueadas.

Recentemente, li uma coluna na newsletter Bloomberg intitulada “OpenAI Scale Ranks Progress Toward ‘Human-Level’ Problem Solving” (em tradução livre, “A Escala da OpenAI Avalia o Progresso em Direção à Solução de Problemas em Nível Humano”, que abordou o conceito de Inteligência Artificial Geral (AGI). A AGI refere-se a sistemas inteligentes com capacidade cognitiva equivalente ou superior à humana em diversas tarefas. Diferentemente da IA especializada, projetada para tarefas específicas, a AGI pode compreender, aprender e aplicar conhecimento de forma abrangente, adaptando-se a novos desafios e contextos sem necessidade de reprogramação. Imagine o impacto que a substituição de decisões humanas, muitas vezes baseadas em suposições ou dados incompletos, pode ter na qualidade de vida dos cidadãos.Playvolume

A AGI tem o potencial de transformar radicalmente o planejamento urbano e a gestão pública. Com sua capacidade de análise abrangente e em tempo real de dados complexos, a AGI pode melhorar significativamente a eficiência e eficácia das políticas públicas. Ela pode otimizar o tráfego, gerenciar a distribuição de recursos, prever e mitigar desastres naturais e aprimorar a prestação de serviços públicos. Além disso, a AGI pode analisar feedbacks da população para criar soluções mais inclusivas e democráticas, levando a cidades mais inteligentes, sustentáveis e equitativas.

Esses exemplos mostram como a inteligência pode transformar a gestão urbana a partir de cinco níveis de desenvolvimento previstos pela OpenAI. No nível básico, a automação simples realiza tarefas repetitivas, como a coleta de lixo ou o controle de tráfego. Assistentes virtuais podem ser utilizados em centros de atendimento ao cidadão, fornecendo informações e serviços de forma rápida e eficiente. Análises preditivas permitem aos gestores urbanos prever e mitigar problemas antes que eles ocorram, como congestionamentos ou falhas em infraestruturas. A autonomia parcial da IA pode ser utilizada para gerenciar sistemas complexos, como redes de transporte ou distribuição de energia, ajustando-se dinamicamente às mudanças nas condições. No nível mais avançado, sua autonomia completa pode permitir a operação de veículos autônomos e a gestão integrada de todas as infraestruturas urbanas, otimizando o uso de recursos e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos.

A gestão municipal hoje é baseada em dados. Esses dados são capazes de gerar um volume imenso de informações úteis, medidas em yottabytes, com o objetivo de levar conhecimento da realidade em todas as áreas relacionadas à prestação de serviços públicos. O relatório do IESE (CIMI) utiliza nove dimensões para avaliar o nível de inteligência de uma cidade e dados de mais de 100 indicadores para compor o ranking. A AGI tem o potencial de transformar radicalmente o planejamento urbano e a gestão pública. Com sua capacidade de análise abrangente e em tempo real de dados complexos, ela pode melhorar a eficiência e eficácia das políticas públicas, otimizando a resolução de problemas não previstos por agentes públicos.

Essas questões estão relacionadas a áreas como Capital Humano, Coesão Social, Economia, Governança, Meio Ambiente, Mobilidade e Transporte, Planejamento Urbano, Projeção Internacional e Tecnologia. Para quem se interessar pelo tema, o artigo “Artificial General Intelligence is Already Here”, de Aguera y Arcas e Norvig, publicado na Noema em outubro de 2023, oferece uma análise mais detalhada sobre o tema. Para implementar essas tecnologias, os gestores públicos precisam preparar e investir na infraestrutura urbana. Isso inclui a instalação de sensores e dispositivos de IoT (Internet das Coisas) para coletar dados em tempo real, além de garantir conectividade de alta velocidade e baixa latência, como redes 5G. É necessário também investir em servidores de alto desempenho e infraestrutura de nuvem para processar grandes volumes de dados. A segurança cibernética é outro aspecto a ser considerado, com a implementação de protocolos robustos para proteger os dados e sistemas contra ataques. Políticas públicas devem ser geradas com menos ideologia e mais precisão.

O IESE Cities in Motion Index (CIMI) destaca como cidades como LondresCopenhague e Nova York implementaram tecnologias avançadas para ajustar semáforos em tempo real, otimizar rotas de transporte público e planejar de forma mais eficiente. Em Paris, a IA auxilia no planejamento de espaços verdes e na otimização do uso de energia em edifícios, criando um ambiente urbano mais sustentável e agradável. Em Oslo, sensores inteligentes monitoram a qualidade do ar e da água, permitindo ações rápidas em caso de problemas ambientais. Em cidades como Estocolmo e Barcelona, a IA está sendo utilizada para facilitar a participação cidadã, onde plataformas digitais permitem que os moradores se envolvam ativamente no processo de tomada de decisão, contribuindo com ideias e feedbacks para o desenvolvimento urbano.

Ainda na mesma coluna, Elon Musk sugere que a IA poderia superar a inteligência dos seres humanos mais inteligentes até 2025 ou 2026, mencionando que a quantidade total de “computação senciente” superaria a de todos os humanos em cinco anos. Musk enfatizou a importância de desenvolvimento responsável de tecnologias artificiais que garantam que seu impacto seja benéfico para a sociedade como um todo. A computação senciente, ou a criação de sistemas capazes de percepção consciente (capacidade de perceber e responder ao ambiente), autoconsciência (reconhecer-se como uma entidade distinta de outras), sentimentos e emoções (reagir com profundidade emocional para além da programação) e tomada de decisões independentes (baseadas em um entendimento consciente das situações), ainda é uma perspectiva teórica, mas pode ter impactos profundos no planejamento urbano, pois poderia tomar decisões considerando não apenas dados objetivos, mas também o bem-estar emocional e social dos cidadãos. Isso poderia levar a um planejamento urbano mais justo e equitativo, onde as necessidades de todos os grupos sociais são atendidas de forma equilibrada.

Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas o planejamento das ações que visam rever rotinas e processos da gestão pública para a melhoria da qualidade das decisões de prefeitos, secretários, vereadores e demais agentes públicos depende do plano de gestão urbana. Cabe a nós, cidadãos, cobrar dos candidatos um planejamento eficaz voltado à melhoria da qualidade de vida de todos. O futuro se constrói agora.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Duas cidades, dois caminhos, um único planeta em jogo: qual futuro escolheremos?

Inspirados em romance de Charles Dickens, textos ‘Bleak House’ e ‘Great Expectations’ apresentam duas visões sobre o futuro a partir de escolhas pautadas na inclusão (ou não) do conceito de descarbonização

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, nada no rio Sena para demonstrar que o rio está limpo o suficiente para sediar eventos dos Jogos Olímpicos. Fonte: JOEL SAGET/EFE/EPA/POOL MAXPPP OUT

Ao ler os jornais da semana, deparo-me com a imagem da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, nadando no rio Sena e cumprindo sua promessa de despoluir as águas do rio antes dos Jogos Olímpicos de Paris-2024. Confesso que senti uma ponta de inveja da população francesa, que poderá desfrutar de suas margens e águas sem o odor pútrido que, aqui onde moro, é comum nos rios que atravessam não apenas a cidade, mas também o Estado de São Paulo. Gostaria de saber se o atual prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas teriam coragem de mergulhar nas águas dos Rios Tietê e Pinheiros, mostrando à população seus esforços para melhorar a qualidade de suas águas. Os esforços para despoluir o rio Sena começaram na década de 1990, com o “Plano Azul” de 1995 como marco importante, a partir da implementação de estações de tratamento de esgoto e regulamentações ambientais, melhorando significativamente a qualidade da água e permitindo, de certa forma, o cumprimento da promessa. Ações proativas vindas de governos são sempre bem-vindas. A existência de planos, por si só, é incapaz de garantir que os objetivos sejam alcançados sem a execução eficaz e o compromisso contínuo com a sustentabilidade. É a ação concreta e a monitorização constante que transformam as promessas em realidades tangíveis, como a melhoria visível do Sena e a possibilidade de eventos simbólicos como a natação da prefeita de Paris. A coluna de hoje apresenta dois contos que mostram como o futuro das cidades depende da qualidade das decisões governamentais a curto, longo e médio prazos.

Inspirados no romance “Um Conto de Duas Cidades” (1859), de Charles Dickens, os textos “Bleak House” e “Great Expectations“, extraídos da publicação “Cities, Towns & Renewable Energy: Yes In my front Yard” (2009), da Agência Internacional de Energia/Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (IEA/OECD), estabelecem uma analogia com a obra citada para evidenciar duas visões contrastantes sobre o futuro das cidades a partir de escolhas pautadas na inclusão (ou não) do conceito de descarbonização no processo de gestão urbana a longo prazo. Ao divergir sobre as políticas públicas adotadas por governos acerca da gestão da matriz energética vigente e seus impactos ambientais e econômicos sobre a vida do cidadão, os contos apontam cenários ficcionais sobre a importância das decisões políticas e tecnológicas na definição do futuro que se pretende alcançar. A escolha entre continuar com práticas de “business-as-usual” (mantem-se as rotinas) ou adotar uma abordagem inovadora e sustentável determinará a qualidade de vida, a prosperidade econômica e a resiliência das cidades nas próximas décadas.

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Os contos, adaptados para essa coluna, apresentam um breve resumo de cada cenário. Mobilidade sustentável, economia circular, infraestrutura verde, equidade espacial, resiliência e segurança, valorização das comunidades e grupos sociais, transparência em todos os setores da governança pública, acessibilidade universal são alguns dos temas centrais que definem as visões contrastantes apresentadas. Em “Bleak House,” o cenário é sombrio, refletindo uma realidade onde as cidades falham em adotar políticas inovadoras, resultando em ambientes degradados, desigualdade exacerbada e colapso econômico. Já em “Great Expectations,” a narrativa nos transporta para um futuro otimista, onde as cidades prosperam graças à implementação de tecnologias limpas, práticas de sustentabilidade e um forte compromisso com a justiça social.

Esses contos funcionam como um alerta e uma inspiração, destacando que o caminho que escolhermos hoje moldará profundamente as cidades de amanhã. Através de suas narrativas, eles nos convidam a refletir sobre a responsabilidade coletiva e a importância de decisões políticas e tecnológicas corajosas e bem informadas para construir um futuro urbano resiliente, justo e sustentável. O spoiler, desculpem leitores, pode ter antecipado parcialmente as narrativas. Tanto o documento técnico de 2009 quanto o romance valem a leitura.

Um conto de duas cidades

Em um futuro não tão distante, duas cidades se erguem como símbolos de destinos opostos. A primeira, Bleak House (Casa Sombria, ou talvez, numa tradução ‘ainda mais livre’, Cidade Desolada), sufocada pela fumaça dos combustíveis fósseis, agoniza sob um céu escurecido pela negligência climática. Seus habitantes, reféns de um passado que se recusa a morrer, enfrentam um futuro incerto e sombrio. Mas em outro canto do mundo, uma cidade radiante se destaca: Great Expectations (Grandes Esperanças, numa tradução livre), um farol de esperança alimentado por tecnologias limpas e mentes visionárias. Lá, o ar é puro, a energia abundante e o futuro, promissor. 

Cenário: Bleak House

No primeiro conto, a cidade de Bleak House é apresentada em diferentes épocas, destacando as implicações na qualidade de vida da população decorrentes das decisões políticas ao longo do tempo. Em 2012, decisões reacionárias às pesquisas sobre os impactos econômicos e climáticos futuros levaram à manutenção dos investimentos em fontes não renováveis como carvão, gás e petróleo. A visão imediatista proveniente de políticos eleitos pela população, associada à ganância de setores econômicos e empresariais, sobrepôs-se às questões ambientais e sociais de longo prazo.

Os impactos previstos pela ciência na década anterior, aconteceu. Em 2030, a cidade sofre sob um calor implacável. Jay, um engenheiro experiente, acostumou-se aos cortes de energia e ao calor sufocante em seu escritório. A energia insuficiente obriga a concessionária a desligar aparelhos periodicamente. O prédio moderno, outrora símbolo de progresso, tornou-se um forno no verão e um refrigerador no inverno, devido à falta de investimentos em eficiência energética. O trânsito caótico, agravado pela frota de carros movidos a combustíveis fósseis, dificulta a vida de todos. Enquanto isso, o governo mantém a política de “business as usual”, ignorando os alertas sobre mudanças climáticas e a necessidade de diversificar a matriz energética.

As consequências dessa inércia eram visíveis por toda parte. Temperaturas extremas e inundações frequentes forçavam a população a se adaptar. Impostos extras financiavam obras de contenção, enquanto áreas verdes desapareciam para dar lugar a diques e barreiras. As usinas termelétricas, principal fonte de energia da cidade, sofriam com a falta de água para resfriamento, agravando a crise energética. Em 2050, a cidade ainda carregava as marcas da negligência do passado. Edifícios antigos, como o de Jay, recebiam melhorias, como painéis solares, mas a um custo alto. As novas gerações, representadas pelos netos de Jay, cresciam em um ambiente marcado pela escassez e incerteza, mas também pela esperança de um futuro mais sustentável. A cidade lutava para se adaptar a um clima hostil e a um futuro incerto, resultado de décadas de decisões políticas equivocadas relacionadas à energia não renovável.

Cenário: Great Expectations

No segundo conto, a aprovação pelo Conselho Municipal do Plano Distrital em 2012 garantiu a transição energética futura. Todos os novos edifícios comerciais passaram a ser equipados com aquecedores solares de água, salvo exceções justificadas. Arquitetos integraram painéis solares nos telhados, seguindo diretrizes rigorosas para captar calor solar no inverno, proporcionar sombra no verão e beneficiar-se de ventilação e luz natural. Isso aumentou o custo inicial em cerca de 7%, mas os crescentes preços da energia rapidamente compensaram o investimento. Joy, recém-formada em energia sustentável e design de edifícios, explicava a outros proprietários os benefícios da eficiência energética, auditava edifícios para identificar economias potenciais e desenvolvia planos estratégicos. Os cidadãos utilizavam dispositivos que informavam os assentos disponíveis no próximo ônibus. Ao sair do trabalho, Joy acionava um botão de “dormir”, desligando todos os aparelhos do escritório, e observava as turbinas eólicas nas colinas a caminho de casa.

Em 2030, as ações que Joy possuía nas cooperativas eólicas locais pagavam dividendos suficientes para ela viajar ao exterior. Passagens aéreas haviam aumentado devido ao imposto internacional de carbono, mas eram parcialmente compensadas por biocombustíveis de segunda geração. Em 2050, sua sobrinha chegou dirigindo um carro elétrico com revestimento de coletores solares orgânicos, conectando-o ao sistema de energia da residência para uma recarga rápida. Joy sabia que o futuro da energia sustentável dependia de tecnologias avançadas e colaboração entre cidadãos e governos. Ela se orgulhava de fazer parte dessa transformação e estava otimista quanto ao futuro de sua família em um mundo mais limpo e eficiente.

Escolhendo entre dois futuros

Ao comparar os cenários Bleak House e Great Expectations, fica claro que as escolhas políticas que fazemos hoje, em especial no período de eleições, determinarão não apenas o futuro de nossas cidades e de nosso planeta, mas também nossas vidas em alguns anos. Os contos ressaltam a importância de decisões políticas e tecnológicas conscientes e inovadoras, destacando que um futuro sustentável e próspero é possível, mas exige ação imediata e colaboração entre todos os setores da sociedade. O documento técnico de 2009 é uma leitura valiosa que nos inspira a refletir e agir em prol do nosso futuro e de todos aqueles que virão depois de nos.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Nem toda cidade é um cartão postal

Se tem algo que me tira do sério são as imagens minuciosamente escolhidas por peças publicitárias para apresentar as maravilhas que as cidades brasileiras têm a oferecer aos turistas nas férias escolares

Por Helena Degreas
 09/07/2024 13h32 – Atualizado em 09/07/2024 13h35

Reproduçao Youtube @Visit OSLO

De forma irônica e de humor levemente ácido, a campanha parece questionar a relevância, a importância ou o potencial do local para agradar ao público

Se tem algo que me tira do sério são as imagens minuciosamente escolhidas por peças publicitárias para apresentar as maravilhas que as cidades brasileiras têm a oferecer aos turistas durante o período de férias escolares. Elas prometem a experiência da felicidade, do bem-estar e da aventura por meio de paisagens deslumbrantes com pessoas sorrindo de forma exagerada, quase falsa. Como uma marca registrada, as imagens são projetadas para lembrar emoções positivas e criar uma associação direta entre o destino e momentos felizes. Mas será que esse clichê ainda funciona? Todos nós já vimos esses anúncios. Tenho a impressão de que os criadores destes anúncios desistiram, há muito, de criar. Recentemente, assisti a uma anúncio de Visit Oslo, (NewsLab) destinado a alavancar a visitação de turistas para a cidade de Oslo, capital da Noruega, por meio de uma abordagem, no mínimo, peculiar. Atormentado pelo tédio, um morador apresenta a cidade a partir do seu olhar desanimado com as situações cotidianas que vivencia dia após dia. A certa altura, sentindo um pouco de nojo, observa pessoas animadas saltando nas águas do rio que atravessa a cidade e, pergunta-se algo como “Isso é mesmo uma cidade?” ou ainda, “não tem nada exclusivo, é tudo tão disponível…”. De forma irônica e de humor levemente ácido, a campanha parece questionar a relevância, a importância ou o potencial do local para agradar ao público.

É como se, nas palavras dos criadores da peça “anti-publicitária”, um guia turístico que, em vez de deslumbrado, mostra-se levemente entediado mostra os pontos turísticos com um suspiro, mencionando vez e outra, algumas frases como “essa é mais uma das famosas estátuas de Gustav Vigeland… se é que você se importa.” É uma abordagem que parece dizer: “Olha, sabemos que já viu milhares de fotos de lugares perfeitos. Venha ver algo real.” É uma estratégia que, “ao desafiar as expectativas, cria um contraste intrigante com as campanhas tradicionais, gerando curiosidade e interesse.” A cidade de Oslo decidiu que não queria mais esse tipo de associação para trazer turistas. Cansada de se perder na homogeneidade das campanhas tradicionais e, com uma pitada de humor, a resolveu inovar.

Fonte: newslab.no

Cidades são feitas pelas pessoas e para as pessoas ou, ainda, deveriam ser. As campanhas tradicionais tendem a ignorar a complexidade e a fragmentação das cidades, apresentando uma imagem idealizada, homogênea, parcial e, em alguns casos, chegam a vender estereótipos. Narrativas idealizadas, não necessariamente, cidades.
Campanhas turísticas tradicionais, como as do Rio de Janeiro e São Paulo, costumam destacar apenas os pontos turísticos mais conhecidos e glamourosos, como as praias cariocas, o Cristo Redentor, o Carnaval e a Avenida Paulista. Essa abordagem, embora eficaz para atrair turistas, cria uma imagem superficial e irrealista, ignorando a diversidade, as contradições e os desafios socioeconômicos presentes nessas cidades. No sentido contrário àsrepresentações idealizadas, abordagens mais autênticas, como a da campanha de Visit Oslo, buscam mostrar um retrato mais fiel e crítico da realidade urbana. Reconhecer as nuances e complexidades de uma cidade, incluindo seus problemas e desigualdades, pode gerar uma conexão mais profunda com o público e atrair visitantes que buscam experiências mais genuínas e significativas.


Afinal, as cidades são muito mais do que cartões postais e atrações turísticas. São espaços vivos e dinâmicos, marcados por contrastes e contradições. Ao abraçar essa complexidade, as campanhas turísticas podem oferecer uma visão mais completa e honesta, convidando os visitantes a explorar não apenas a beleza, mas também a alma e a identidade de cada lugar. Contar histórias envolventes que capturam a essência de um lugar e sua cultura pode ajudar a criar uma conexão emocional com os potenciais turistas. Narrativas complexas e personagens locais podem proporcionar uma visão mais profunda e interessante do destino. Apresentar um contraste entre o que é geralmente conhecido e o que é surpreendente ou desconhecido sobre um destino pode captar a atenção e desafiar preconceitos. Isso pode incluir revelar segredos locais, atrações menos conhecidas ou aspectos culturais únicos. Viajar é muito mais do que tirar fotos instagramáveis em pontos turísticos. É sobre vivenciar experiências únicas, conhecer novas culturas e se conectar com as pessoas e os lugares que visitamos. Isto é uma cidade. A imperfeição, o diferente, o inusitado não são apenas aceita e toda a experiência vivenciada, é celebrada.

Cada cidade, cada lugar tem uma história única para contar.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Precisamos de um novo design, um design para um mundo melhor

  • Por Helena Degreas
  • 09/05/2024 08h56 – Atualizado em 09/05/2024 09h36

PAULO PINTO/ESTADÃO CONTEÚDO12132727.145301

“Somos a primeira geração a saber que enfrentamos riscos ambientais globais sem precedentes, mas ao mesmo tempo somos a última geração com uma chance significativa de fazer alguma coisa com relação a isso.”

Está cada vez mais perto. O que os cientistas e ambientalistas alertavam há alguns anos está se tornando inegável à frente dos nossos olhos, atingindo nossos amigos e nossas famílias. O calor insuportável, a necessidade constante de ar-condicionado, as mortes de animais e as tragédias climáticas evidenciam o colapso pelo qual colocamos nosso Planeta. Johan Rockström, cientista sueco reconhecido internacionalmente por seu trabalho em questões de sustentabilidade global, afirma: “Somos a primeira geração a saber que enfrentamos riscos ambientais globais sem precedentes, mas ao mesmo tempo somos a última geração com uma chance significativa de fazer alguma coisa com relação a isso.” E o que estamos fazendo? As Nações Unidas se reúnem todos os anos há aproximadamente 30 anos para discutir sobre os impactos da ação humana no Planeta. O problema é que os 194 países buscam fazer acordos unânimes na tentativa de costurar compromissos que, apesar de firmados, não resistem às barreiras políticas e interesses econômicos internos dos próprios países. 

Os desafios que enfrentamos hoje não são tecnológicos. Nosso maior problema é o comportamento humano. A era da abundância, do luxo e da tecnologia também é a era do desperdício, do lixo, da ameaça. A forma como desenhamos nossa vida, o que consumimos, o que produzimos, como remuneramos… tudo precisa ser redesenhado.  Para Don Norman, renomado designer, autor e educador conhecido por seu trabalho de design centrado no usuário e pelo termo “experiência do usuário”, o UX tem se mobilizado a pensar em como todos nós podemos desenvolver uma mentalidade de designers e ajudar a projetar um mundo melhor. Para ele, o comportamento humano está no centro dos problemas que enfrentamos. Mesmo que criemos mais políticas ou tecnologias que visem mitigar as alterações climáticas, o sucesso de qualquer uma destas iniciativas dependerá da vontade e capacidade das pessoas para mudarem o seu comportamento e adotarem novos hábitos. No entanto, é muito difícil mudar. Do ponto de vista da ciência cognitiva sabemos que temos uma tendência natural à inércia. Ela é uma força poderosa em nossas vidas. É incrivelmente tentador e confortável permanecer imóvel, conservar nossa energia. Novas mudanças, por sua vez, ativam o sistema cerebral de resposta ao medo e às ameaças e liberam hormônios do estresse, como o cortisol, que nos deixam ansiosos e inseguros. Há uma tendência natural a procurar a estabilidade, a previsibilidade. Além disso, o cérebro prioriza as informações que recebe por meio dos sentidos. Questões que são difíceis de perceber diretamente, como os efeitos das alterações climáticas podem ser muito abstratas e até pouco confiáveis, tornando-as pouco compreensíveis, sem falar que não são imediatas o que as torna ainda mais intangíveis.Playvolume

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Isto faz com que a maioria das pessoas seja míope na sua tomada de decisões, especialmente sobre o futuro. Cultivamos um pensamento de curto prazo, o que tem comprometido o futuro das próximas gerações e colocado em risco a justiça intergeracional. A justiça intergeracional reconhece que as ações e decisões tomadas hoje têm um impacto significativo nas condições de vida e no bem-estar das gerações futuras. Implica em considerar os interesses e necessidades das gerações futuras ao tomar decisões políticas, econômicas, ambientais e sociais no momento presente. Nossa geração está hipotecando o futuroRoman Krznaric filósofo social e autor do livro: Como ser um bom ancestral, afirma que tratamos o futuro como um posto avançado colonial distante e que assim como os colonizadores europeus ignoraram a presença dos povos originários ao chegar nas Américas, classificando-as como “terra nullis” ou terra de ninguém, nós também estamos pilhando o futuro das próximas gerações e enxergando o futuro como “tempus nullis” ou tempo de ninguém. Precisamos urgentemente imaginar novos cenários, novas formas de viver não somente para nós, mas para todos os seres vivos. Desenhar experiências centradas na vida, na humanidade. Para isso, é fundamental resgatar o simbólico, a capacidade de sonhar e imaginar das novas gerações, combater o analfabetismo do imaginário. Desenhar novas experiências, um design melhor para o mundo, pressupõe imaginá-lo. Ao mesmo tempo que o comportamento humano é o problema, ele também é a solução, porque a solução tem de partir das pessoas. Esticar nossa visão de tempo, olhá-lo com mais profundidade, imaginar novos cenários futuros, considerar os saberes ancestrais, reconhecer a importância de cada ser vivo, tudo isso perpassa a capacidade de nos letrarmos em futuros, e reconhecer que caminhos alternativos podem ser pensados e criados. Este movimento precisa iniciar em organizações, escolas, governos, nos tornando protagonistas e empoderados no enfrentamento dos problemas, assegurando que todas as vozes sejam ouvidas, não somente para garantir o futuro, mas também para libertá-lo. Uma Pedagogia de Futuros, que ensine e transborde ações de esperança e nos ajude no desenho de um mundo melhor. 

A autora da coluna desta semana é a psicóloga e pedagoga Karina Nones Tomelin (@karina.tomelin). Além de mestre em educação, é autora de “Pedagogia de Futuros: guia teórico e prático de letramento de futuros para instituições educativas, empresas e governos”. O convite realizado se deve à urgência do tema relacionado ao design de cidades melhores. Venho reiteradamente escrevendo sobre a urgência na elaboração de políticas públicas urbanas proativas e eficazes relacionadas ao gerenciamento de riscos climáticos e à respectiva obrigatoriedade dos entes federativos em tratar de aspectos preditivos nas questões relacionadas aos extremos climáticos. Que seu texto inspire atores políticos, instituições públicas, empresas e sociedade na elaboração e financiamento de ações práticas para a construção de cidades melhores para milhões de famílias que, em seus lares, aguardam por uma vida digna, em segurança e sentindo-se, dentro do possível, bem.

Repensar as áreas urbanas é fundamental para buscar um equilíbrio que beneficie a todos

o que estamos perdendo ao priorizar o armazenamento de veículos particulares no meio da cidade em detrimento do espaço que pode ser utilizado pelas pessoas?

  • Por Helena Degreas em 17/10/2023 14h55 – Atualizado em 17/10/2023 15h14
    Texto original aqui

John Matychuk/UnsplashVisão aérea de um estacionamento

Ao visitar shopping centers, supermercados ou prédios públicos construídos no século passado, invariavelmente notamos a vastidão dos estacionamentos, extensas áreas pavimentadas que se estendem por hectares

Aguardando no ponto, a chegada do “busão”. São oito paradas até o shopping center onde deixarei meu relógio “cuco” para conserto. Datado de 1940, herança do meu pai, vez ou outra o passarinho emperra, insistindo em não piar a hora certa. Ricota e Chanel não gostam dele. Observam ansiosas o momento em que acidentalmente o pássaro sem penas distraidamente cai ao chão para que, finalmente, possam destroçá-lo. Desço no canteiro central. Entre eu e o shopping, existem alguns obstáculos a vencer: subir pela escada rolante quebrada, percorrer uma ponte coberta, descer pelo elevador ou pela escada para assim, chegando na calçada, deparar-me com um portãozinho extremamente pequeno, que me leva à entrada triunfal do edifício, depois de atravessar uma pista dupla interna destinada à circulação de veículos de carga e descarga. Acesso meu destino. Por dentro, iluminação adequada, ar-condicionado, gente andando de lá para cá freneticamente. Templo de consumo com ausência de identidade. Todos iguais, caixotes de vidro ou concreto, não importa o ornamento externo, têm em comum o fato de armazenarem veículos estacionados em volta de suas instalações. “Para que tanto estacionamento? Não é mais fácil vir de ônibus ou pedir transporte por aplicativo?”, pergunto-me.

Ao visitar shopping centers, supermercados ou prédios públicos construídos no século passado, invariavelmente notamos a vastidão dos estacionamentos, extensas áreas pavimentadas que se estendem por hectares, consumindo terra que poderia ser utilizada para propósitos mais nobres. Essas extensões de concreto comprometem não apenas a paisagem urbana, mas também causam impactos ambientais significativos, pois absorvem calor durante o dia e liberam-no à noite, contribuindo para o fenômeno das “ilhas de calor”, que elevam a temperatura das cidades. Além disso, o escoamento da água da chuva sobre o asfalto também pode causar problemas de drenagem e a contaminação do solo por óleos e outros resíduos de veículos. No Brasil, os shopping centers têm uma forma que remonta aos modelos norte-americanos, frequentemente localizados em áreas suburbanas, uma herança das cidades modernistas. Após a Segunda Guerra Mundial, houve um rápido crescimento dos subúrbios nos Estados Unidos, impulsionado pela busca de residências próprias a preços acessíveis e pelo desenvolvimento de infraestrutura viária, tornando os locais ideais para empreendimentos com grandes estacionamentos.

O princípio subjacente a essa abordagem é fortemente influenciado pelo “zoning“, que exigia a construção de estacionamentos em novos empreendimentos comerciais e residenciais, refletindo a dependência do carro, uma característica marcante da cultura estadunidense. Para quem assiste filmes e seriados de TV que mostram o estilo de vida nos Estados Unidos, “Desperate Housewives” e “American Beauty” são exemplos que retratam as vidas cotidianas e famílias que moram em bairros onde as casas são construídas em lotes individuais, com quintais espaçosos, gramados imensos e, em alguns casos, garagens anexas. São comunidades planejadas que podem incluir áreas verdes, instalações comunitárias, escolas e shoppings centers para aqueles dependentes de carro. Em contraste com a cultura europeia, que valoriza a criação de galerias e espaços públicos de qualidade em áreas centrais adensadas, nossas cidades optaram por acolher, inexplicavelmente, um modelo de projeto inadequado para áreas urbanas com farta infraestrutura e equipamentos públicos implantados. Enquanto isso, automóveis permanecem estáticos nos vastos estacionamentos. Ao contrário de pessoas, os carros não frequentam escolas, postos de saúde, acessam transporte público, recorrem a delegacias, exploram bibliotecas ou aproveitam o acesso à água, esgoto e energia elétrica. Pedaços de cidade inteiros armazenam automóveis enquanto aqueles que residem nas regiões periféricas dos centros urbanos são excluídas do acesso aos serviços públicos essenciais e que deveriam estar ao alcance de todos.

Nos últimos anos, a visão do urbanismo vem destacando a importância dos espaços livres qualificados, ou ainda, projetados para o uso público urbano e ambiental, especialmente nas áreas centrais das cidades. Parques, praças e espaços de convívio construídos em propriedades privadas, promovem a atividade física, a interação social e colaboram na redução do estresse. Incontáveis, seus benefícios levam à promoção da saúde e do bem-estar até a construção de comunidades mais fortes e unidas como venho sistematicamente abordando em minhas colunas. São locais de encontro, celebração e diálogo. São os lugares onde a diversidade da cidade se encontra e se mistura, criando um senso de pertencimento e identidade compartilhada. No entanto, muitas vezes, essas áreas são relegadas a segundo plano pelos empreendedores do mercado imobiliário voltado à criação de shoppings, supermercados e até pelas prefeituras locais. Não raro é encontrar prédios de secretarias, assembleias, departamentos diversos voltados ao atendimento da burocracia pública cercados de estacionamentos e inseridos em ambientes urbanos onde o transporte público é capaz de atender com qualidade seus colaboradores. O poder público e seus agentes, que deveriam dar o exemplo, eximem-se da responsabilidade de dar destinação adequada aos espaços ociosos ou que servem exclusivamente aos proprietários de carros.

A requalificação de áreas urbanas em benefício do espaço público não significa o fim dos carros ou da conveniência. Pelo contrário, representa uma oportunidade de repensar a alocação dos espaços e buscar um equilíbrio entre mobilidade, meio ambiente e qualidade de vida. Os estacionamentos ainda têm seu papel, mas é fundamental que empresas, sociedade e governos priorizem a criação de espaços urbanos de qualidade e que beneficiem a todos. Faz-se necessária a revisão das regulamentações urbanas e a eventual taxação para áreas de estacionamento a céu aberto em locais intraurbanos, pois não tem sentido algum que todos paguem por uma infraestrutura pública ociosa. À medida que exploramos alternativas para o futuro, é essencial considerar o potencial das áreas atualmente dominadas por veículos. A redefinição do espaço urbano, priorizando as pessoas em detrimento dos veículos, é essencial para uma cidade mais sustentável e habitável. Além disso, exemplos inspiradores de transformações urbanas centradas nas pessoas, como Medellín, Copenhague, Paris e Singapura, mostram que é possível criar ambientes urbanos mais humanos, saudáveis e vibrantes utilizando investimentos voltados para a ampliação da mobilidade ativa, do transporte de qualidade e do adensamento urbano por meio de políticas habitacionais que incentivem a diversidade social, além da retirada do asfalto para fins de permeabilização urbana. O desafio do planejamento urbano contemporâneo reside na conciliação das duas visões: a modernista e a pós-moderna, em uma abordagem integrada que repense o uso de áreas urbanas.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan

Veículos de grande porte devem pagar uma taxa adicional para estacionar em áreas centrais da cidade?

Coluna publicada na Jovem Pan News em 10.04.2024

Fonte: Jovem Pan News

Recentemente, em Oxford, na Inglaterra, uma medida polêmica foi implementada, propondo ajustar as taxas de estacionamento rotativo nas áreas centrais da cidade de acordo com o tamanho do veículo, afetando especialmente os proprietários de SUVs (Sport Utility Vehicle) e outros veículos de grande porte.

Essa iniciativa segue o exemplo de Paris, onde a maioria dos eleitores apoiou o aumento dos preços de estacionamento para veículos maiores nas Zonas de Emissões Baixas. Além das questões financeiras, a justificativa se estende ao fato de que veículos maiores ocupam mais espaço, contribuem para o congestionamento urbano, têm maior potencial de causar danos e mortes em colisões, geram mais desgaste nas ruas, poluem mais o ar (quando não elétricos) e aumentam o ruído, afetando a qualidade de vida de todos os cidadãos. Em Londres, por sua vez, foi implementada em 2019 a Ultra-Low Emission Zone (Ulez), estabelecida pela Autoridade de Transporte de Londres (TfL) para melhorar a qualidade do ar, reduzindo as emissões de poluentes dos veículos que circulam na área designada. Esta medida segue os critérios das normas EURO da União Europeia, que definem limites de emissão de poluentes para veículos novos, com o objetivo de promover a produção de veículos com o uso de tecnologias mais limpas. Desde os anos 90, essas normas têm se tornado cada vez mais rigorosas, abordando diversos tipos de poluentes, como óxidos de nitrogênio, partículas, hidrocarbonetos e monóxido de carbono. A Euro VI, introduzida em 2013 para veículos pesados e 2014 para veículos leves, estabelece limites ainda mais baixos, estimulando tecnologias avançadas de controle de emissões. Essas medidas não apenas contribuem para a redução da poluição, mas também impulsionam a inovação em direção a uma mobilidade mais sustentável, protegendo a saúde pública em toda a Europa. O importante é que

Diversos exemplos inspiradores ao redor do mundo ilustram o compromisso global de gestores públicos, empresas e populações em promover cidades mais limpas e saudáveis, alinhadas com as metas da AGENDA 2030. Em Madrid (Espanha), uma Área de Emissões Baixas foi estabelecida em 2018, proibindo a entrada de veículos mais poluentes nas áreas centrais. Na Cidade do México (México), uma Zona de Restrição Veicular foi implementada em 1989, restringindo a circulação de veículos em dias específicos com base no número da placa. Em Milão (Itália), a adoção de uma Zona de Tráfego Limitado em 2008 limitou a entrada de veículos em áreas históricas durante certos horários. Em Oslo, Noruega, uma área de restrição de emissões foi introduzida em 2017, proibindo a entrada de veículos a diesel mais antigos em algumas áreas. Estocolmo (Suécia), optou por uma taxa de congestionamento em 2007, cobrando dos motoristas para entrar na área central da cidade durante os horários de pico. Enquanto isso, Pequim (China), enfrenta a poluição do ar com zonas de restrição de emissões e rodízio de veículos, com medidas mais rigorosas em períodos de alta poluição.

Limitar o número de vagas de estacionamento disponíveis para SUVs e demais veículos de grande porte em áreas públicas pode ser uma medida eficaz para priorizar espaços para veículos menores e modos de transporte mais sustentáveis, como bicicletas e transporte público reduzindo as emissões de CO2 associadas ao transporte, mas também promove uma distribuição mais equitativa do espaço urbano, beneficiando toda a comunidade.

Os impactos positivos dessas políticas na melhoria climática e na redução de CO2 nas áreas urbanas são significativos. Num primeiro momento, a redução do consumo de combustíveis fósseis decorrente da menor circulação de SUVs nas ruas leva a uma diminuição das emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para conter as mudanças climáticas. Além disso, menos veículos de grande porte nas vias resultam em menos congestionamento, o que reduz o tempo que os carros ficam parados e emitindo poluentes. A transformação de vagas de estacionamento em áreas verdes e permeáveis como vem ocorrendo nos últimos 10 anos em Buenos Aires (Argentina), contribui não apenas para captar as águas pluviais, sombrear as calçadas, prover novos locais para descanso, reduzir a sensação térmica pela requalificação de áreas públicas, mas também para promover a biodiversidade urbana e alcançar as metas para descarbonização urbana ou, ainda, colaborar no processo de redução das emissões de carbono nas áreas urbanas, visando mitigar as mudanças climáticas.

Para que a proposta de taxação diferenciada de estacionamento e circulação de veículos grandes, como SUVs, obtenha sucesso, é essencial abordar a possível oposição da indústria automobilística. Diálogo e medidas para mitigar impactos na cadeia produtiva são cruciais, incluindo incentivos à produção de veículos mais eficientes, programas de reciclagem e criação de novas oportunidades de emprego como estratégias viáveis.

As iniciativas ao redor do mundo refletem um esforço global para criar cidades mais limpas e saudáveis para todos. A implementação de políticas que priorizam o espaço urbano de forma equitativa, como a taxação diferenciada de estacionamento para veículos grandes, como SUVs, e a intensificação da fiscalização visando o cumprimento das normas ambientais, são passos importantes nessa direção. Essas medidas não apenas contribuem para a redução das emissões de CO2, melhoria da qualidade do ar e colaboram no combate às mudanças climáticas, mas, também, geram receita para investimentos em infraestrutura urbana e transporte sustentável, promovendo uma distribuição mais justa do espaço urbano e beneficiando, portanto, toda a população.

Só com a participação comunitária é possível construir cidades mais justas, resilientes e prósperas

Presença pouco representativa da população é um fator, muitas vezes, causado pela falta de conhecimento de que se pode fazer a diferença

  • Por Helena Degreas
  • 27/02/2024 09h00
  • coluna publicada no site da Jovem Pan News

Divulgação/Neighborhood 360°Organização comunitária em Nova YorkPrograma Neighborhood 360° visa revitalizar áreas urbanas de Nova York por meio da colaboração com a comunidade

Os instrumentos de gestão democrática da cidade, regulamentados pelo Estatuto da Cidade (Brasil, 2001), buscaram ampliar a participação cidadã, aproximando o poder público da população na construção urbana. Contudo, essa efetiva participação exigiu a combinação de democracia representativa e direta, modelo brasileiro que apoia a participação pública, incluindo no planejamento urbano. Mesmo com o Estatuto da Cidade e os planos diretores, muitos documentos foram elaborados alheios à realidade, tecnocráticos e, em alguns casos, autoritários, menosprezando ou suprimindo a participação popular, suas vontades e desejos, portanto. Esses planos, em muitos casos, continuam sendo peças de ficção distantes da realidade urbana, vez que a complexidade dos materiais entregues à população para avaliação apresenta-se numa linguagem técnica, de difícil compreensão para aqueles que não compartilham a linguagem e os conhecimentos de burocratas públicos. Além disso, a presença pouco representativa da população é um fator, muitas vezes, causado pela falta de instrumentos e conhecimentos para participação nas discussões ou pela descrença de que sua participação possa desencadear mudanças. Limitações de recursos financeiros e de tempo também contribuem para esse cenário, conforme destacado por vários autores que pesquisam o tema em experiências pós-Estatuto da Cidade no Brasil.

A democracia participativa no urbanismo exige também o alinhamento com a vida cotidiana da gente para promover cidades justas, inclusivas, sustentáveis e democráticas, buscando eliminar as vergonhosas desigualdades no acesso aos direitos fundamentais previstos na Constituição e no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001). Audiências, plataformas digitais, fóruns de discussões, conselhos gestores, dentre outras ferramentas aplicadas pelo poder público municipal, objetivando alcançar uma cidadania plena, não têm sido suficiente para a percepção da eficácia no atendimento das demandas da população que vê suas necessidades não atendidas quer por secretarias de governo, quer por departamentos internos, técnicos ou guichês, por exemplo. Como membro de conselhos participativos municipais, coletivos e organizações não governamentais, venho observando a necessidade de reorganização das instituições públicas municipais para os diferentes níveis de envolvimento das pessoas.

Desde o direito à informação pública e atualizada de dados referentes à gestão, existência de protocolos e até a promoção da contratualização de soluções (processo de formalização e estabelecimento de acordos ou contratos entre diferentes partes interessadas, como a comunidade local, organizações não governamentais, setor privado e o governo), o processo de participação incorpora acordos que visam implementar e executar soluções específicas identificadas durante o processo participativo. Espécie de degraus de uma longa escada a subir, essas etapas são necessárias para que projetos e ações de âmbito local se legitimem publicamente por meio da codecisão (decisão compartilhada) entre os diversos atores urbanos envolvidos, incluindo, na compactuação, a definição de responsabilidades, prazos, orçamentos e outras condições para a implementação das propostas.

Cidades como Bogotá (Colômbia), Santander (Espanha), Estocolmo (Suécia) e Nova York (EUA) incluíram em suas políticas urbanas ações práticas de participação da população objetivando a cocriação, coprodução e placemaking em trechos urbanos específicos solicitados pelos cidadãos, visando a atualização espacial, retrofit, revitalização econômica de quadras e ruas. A estrutura institucional pública foi adaptada para que os diversos grupos sociais fossem incorporados nos processos de construção das cidades.

Para viabilizar a interação e integração, os governos criaram agentes institucionais para intermediar a coprodução em áreas urbanas, por meio da coordenação entre stakeholders urbanos (qualquer entidade ou grupo, como residentes, organizações, governos e empresas, que têm interesse ou são afetados pelas decisões e desenvolvimentos em contextos urbanos). Na lista de instituições criadas, encontram-se novos Departamentos de Planejamento Urbano para formular políticas, coordenar projetos e estratégias de coprodução de âmbito local; Agências de Desenvolvimento Urbano, responsáveis pela liderança em projetos de revitalização; Escritórios de Participação Cidadã para facilitar o envolvimento ativo da comunidade; e Comissões de Desenvolvimento Comunitário para representar os interesses das pessoas. Além disso, Agências de Habitação e Desenvolvimento Social concentram-se em habitação e desenvolvimento social; Escritórios de Parcerias Público-Privadas facilitam as colaborações entre os diversos setores envolvidos nos projetos; Agências de Sustentabilidade Urbana avaliam e têm por missão integrar, como tema transversal, a sustentabilidade dos projetos propostos. Há também Agências de Promoção do Turismo Urbano, que destacam a identidade local, promovendo o patrimônio histórico, ambiental e arquitetônico em parceria com a comunidade.

Existem diversos exemplos de programas e ações colaborativas entre entes federativos e cidadãos. Embora muitos gestores públicos brasileiros ainda os considerem novidade — e a maioria da população os veja como inovadores —, a aplicação dos três conceitos na produção do espaço urbano, ocorrem há décadas e resultam em melhorias significativas na qualidade de vida.  Em 2017, a cidade de Nova York incluiu em suas políticas urbanas o programa Neighborhood 360°, visando revitalizar áreas urbanas por meio da colaboração (trabalho conjunto, portanto) com a comunidade, onde fellows (profissionais qualificados selecionados por meio de concurso público são contratados por dez meses para atuar como intermediários entre a população e o poder público e pagos pelo NYC Department of Small Business Servic – SBS) desempenham um papel crucial, viabilizando acordos e desembaraçando, por assim dizer, entraves eventualmente criados pela burocracia. Eles participam ativamente da elaboração de planos estratégicos, incentivam a formação ou revitalização de associações de comerciantes e lideram a transformação de espaços públicos, tornando-os atrativos e alinhados com as características únicas da comunidade.

Paralelamente, organizações sociais cadastradas junto ao poder público e localizadas na região de intervenção (community-based organizations – CBO) têm um papel vital no desenvolvimento social, econômico e ambiental, mobilizando a comunidade para participar ativamente do placemaking ou, ainda, o processo participativo de transformar espaços urbanos, envolvendo a comunidade na criação de ambientes vibrantes, acolhedores e significativos que atendam às suas necessidades e aspirações — “mão na massa” que leva a ações tangíveis. Essas organizações capacitam os membros da comunidade para uma participação efetiva em projetos de placemaking, promovendo uma abordagem inclusiva e colaborativa para o desenvolvimento urbano. Os recursos financeiros para o programa Neighborhood 360° provêm de fontes diversas, como orçamentos municipais, fundações privadas e parcerias público-privadas, incluindo investimentos diretos das autoridades públicas locais, patrocínios empresariais, subsídios filantrópicos ou combinações variadas dessas fontes.

A implementação da cocriação, coprodução e placemaking exige reorganização das instituições públicascriação de novos agentes institucionais e mobilização da comunidade. Diversos programas e ações colaborativas já demonstram a efetividade dessas ferramentas na revitalização de áreas urbanas e na melhoria da qualidade de vida. Se a cidade é feita por pessoas e para pessoas, a melhoria dos canais de comunicação e interação entre o poder público para a solução dos problemas de âmbito local não passa apenas pelo planejamento em escala urbana e a regulamentação genérica distante da realidade das pessoas. Ouvi-las é obrigação dos entes federativos, criando os instrumentos necessários para que a participação se dê de maneira eficaz na solução de questões locais. Só com a participação comunitária, daqueles que não apenas habitam os mesmo locais geográficos, mas também têm interesses comuns na melhoria das ruas, das praças e tantos outros assuntos, será possível construir cidades mais justas, resilientes, sustentáveis e prósperas para todos.

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Como seriam as cidades projetadas pelas crianças? Uma reflexão sobre mobilidade urbana e cidadania ativa

Transformação do espaço público através da visão única e criativa dos pequenos é o desafio proposto pelo Instituto Corrida Amiga, que reimagina o tecido urbano e traz a perspectiva infantil para o centro do debate

Transformação do espaço público através da visão única e criativa dos pequenos é o desafio proposto pelo Instituto Corrida Amiga, que reimagina o tecido urbano e traz a perspectiva infantil para o centro do debate

Por Helena Degreas para a Jovem Pan News
20/01/2024 08h00

Espanha e Portugal já realizam experiências com a participação de crianças em projetos urbanos

As crianças possuem uma maneira especial de enxergar o mundo. Suas mentes curiosas não são limitadas por convenções, permitindo-lhes sonhar com possibilidades ilimitadas O Instituto Corrida Amiga propõe uma abordagem inovadora ao pensar nas cidades a partir da mobilidade urbana ativa, buscando alterar a forma como nos movemos e transformar nossa relação com o ambiente urbano. O relatório “Diagnóstico: A Cidade sob o Olhar das Crianças A Partir da Mobilidade Urbana” teve o apoio do programa CAU Educa (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil) e destaca o papel crucial de crianças e jovens como agentes de transformação, visando um futuro melhor para toda a sociedade. Ao focar na mobilidade ativa, as atividades envolveram reflexões sobre o papel do espaço público na promoção da saúde e bem-estar

A caminhabilidade e o ciclismo não são apenas formas de se locomoção, mas meios para a construção de uma comunidade mais conectada e consciente, pois estimulam a interação com as pessoas e tudo o que está à sua volta. É uma resposta aos princípios adotados pelo urbanismo modernista, que, consolidados no século XX, promoveram, pelo zoneamento funcional, a segmentação de espaços urbanos para atender a diferentes necessidades, resultando na criação de áreas específicas destinados a públicos específicos. É como se os locais destinados às crianças fossem apenas os parques, cabendo aos idosos, por sua vez, os bancos de jardins existentes em praças. Cada um no seu lugar, como se a vida urbana pudesse ser dividida em atividades definidas por tecnocratas. Apesar de visar à eficiência no funcionamento das cidades, essa especialização colaborou com a segregação social e limitou a interação intergeracional, fragmentando a cidade em um conjunto de espaços distintos para funções específicas. Atrelado a estes princípios, o urbanismo motorizado destruiu a fluidez do andar, do caminhar, do flanar como prazer estético, sem pressa, priorizando a fluidez e eficácia do trânsito automotivo, e redefiniu os espaços dos caminhantes em calçadas e faixas de pedestres, entupindo a paisagem urbana com sinalizações voltadas à segurança viária.

Se as crianças fossem urbanistas, priorizariam espaços públicos como elementos essenciais, promovendo interação social. A segurança emocional seria prioritária, com espaços inclusivos e acessíveis. A ideia de acesso à cidade seria ampliada, eliminando barreiras econômicas no transporte público. Educação para mobilidade ativa seria parte do currículo, preparando gerações futuras para cidadania comprometida. A segurança seria prioridade, não apenas em termos de tráfego, mas também no sentido emocional. Espaços públicos seriam projetados para serem inclusivos, acolhendo a diversidade de todas as crianças. A acessibilidade seria a norma, garantindo que todos, independentemente de suas habilidades físicas, pudessem desfrutar plenamente de todos os locais que hoje estão ocupadas por carros. 

A ideia de acesso e direito à cidade, muitas vezes negligenciada, ganha destaque nessa visão alternativa. Se as crianças fossem as planejadoras, o acesso à cidade não seria restrito, mas ampliado. As crianças, ao serem envolvidas nesse processo de transformação, tornando-se agentes ativos em suas comunidades, aprendendo, desde cedo, sobre a importância da mobilidade consciente e como suas escolhas impactam não apenas a si mesmas, mas toda a cidade. A educação para a mobilidade ativa se torna parte integrante do currículo escolar, preparando as gerações futuras para serem cidadãos comprometidos e participativos.

A participação infantil seria uma prática real, por meio de conselhos e projetos participativos, influenciando políticas públicas. Oficinas e consultas seriam processos contínuos. A participação em projetos urbanos seria um direito, reconhecendo a experiência única das crianças. Experiências como esta já existem em outros países como Portugal e Espanha. Nesse contexto, iniciativas bastante relevantes e promissoras envolvendo a participação das crianças e adolescentes — e suas experiências e vivências na cidade — já são realidades. O diagnóstico apresentou o projeto “A Cidade das Crianças”, onde em Valongo, Portugal (2022), foi realizada uma sessão do “Conselho das Crianças”, na qual o poder público português incluiu, em seu planejamento urbano, a visão das crianças.

Outro exemplo citado foi a criação de “Conselhos Infantis” em Rosário, na Argentina, que tem por objetivo, levar melhorias urbanas locais a partir da sugestão de seus principais usuários: as crianças. A maneira como elas experimentam a cidade exerce uma influência significativa em sua infância. Repensar a mobilidade urbana com base na visão infantil é uma provocação à imaginação e uma chamada à ação. Um lugar projetado por crianças investe no futuro, construindo cidadãos comprometidos, saudáveis e plenamente engajados na vida urbana.

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Quais são os desafios e oportunidades que nos aguardam em 2024 na busca por um desenvolvimento urbano sustentável?

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Quais são os desafios e oportunidades que nos aguardam em 2024 na busca por um desenvolvimento urbano sustentável?

Sustentabilidade, resiliência climática e inclusão social são alguns dos temas que ocuparão as manchetes dos principais meios de comunicação no ano recém-iniciado

Por Helena Degrea 06/01/2024 09h00 para a Jovem Pan News (texto original)

EDI SOUSA/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO – 03/01/2024Pedestres enfrentam a primeira chuva de verão do ano de 2024, no fim de tarde desta quarta-feira (3), na região central de São Paulo

Planejadores urbanos e gestores públicos devem preparar cidades para enfrentar e mitigar impactos dos extremos climáticos

As discussões previstas na Agenda Urbana Internacional para o ano de 2024 (e que se estenderão para a próxima década) apontam para cinco temas que ocuparão as manchetes dos principais meios de comunicação e que visam o planejamento de cidades mais sustentáveis, inclusivas e resilientes. Espera-se de gestores e técnicos públicos: 

Sustentabilidade urbana

O crescimento inevitável das áreas urbanas destaca a imperatividade dos governos investirem no desenvolvimento de políticas públicas e estratégias com ações que visam causar o menor dano possível aos ecossistemas, recursos naturais, biodiversidade e à qualidade do ar, água e solo. Ao promover políticas e práticas ecoeficientes, governos estimulam ambientes urbanos ecologicamente equilibrados e saudáveis. Investir em energias renováveis, desenvolver sistemas de transporte público integrado com a inclusão dos modais ativos e adotar políticas de gestão inteligente de resíduos são algumas das medidas concretas nesse caminho. Essas iniciativas não apenas respondem ao desafio ambiental, mas também contribuem para o desenvolvimento sustentável das áreas urbanas, garantindo uma qualidade de vida mais elevada para seus habitantes.

Resiliência climática e adaptação

Com as preocupações crescentes em relação aos impactos causados pelas mudanças climáticas que recaem sobre a população, as cidades (seus planejadores urbanos e gestores públicos) devem se preparar para enfrentar e mitigar impactos adversos. Embora afetem todos os cidadãos, os impactos recaem, sobremaneira, sobre a população mais pobre que reside em áreas distantes dos centros e cuja infraestrutura é, comumente, precária. Adaptação dos sistemas de drenagem e gestão de águas pluviais, infraestrutura de abastecimento de água e saneamento, transporte público e mobilidade urbana, parques e áreas verdes urbanas, estruturas costeiras e portuárias, redes elétricas e de energia deverá sofrer adaptações para sua eficiência e eficácia para fortalecer a resiliência das cidades diante dos desafios climáticos emergentes, garantindo a segurança e qualidade de vida dos habitantes urbanos.

Inovação tecnológica e cidades inteligentes

Avanços tecnológicos oferecem a oportunidade única de transformar as cidades em ecossistemas inteligentes a partir da integração de tecnologias emergentes, como a Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial, otimizando serviços urbanos e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos. Aplicações como gestão inteligente de tráfego e transporte, monitoramento ambiental, e planejamento urbano baseado em dados, considerando padrões climáticos futuros, são algumas das diversas possibilidades que melhoram a qualidade de vida. O uso inteligente de água com integração de sensores para monitoramento do consumo em tempo real, sistemas de irrigação adaptáveis às condições climáticas, gestão inteligente de resíduos por meio da implementação de sistemas de coleta de lixo que otimizam rotas com base na demanda, reduzem a emissão de poluentes. A mobilidade sustentável e sistemas de transporte, quando conectados e interativos, oferecem informações por meio de aplicativos e plataformas em tempo real sobre transporte público, permitindo aos cidadãos planejar rotas eficientes e reduzir a dependência de veículos individuais, contribuindo para a redução das emissões de carbono. Outo exemplo é a gestão eficiente de redes de energia com a implementação de redes elétricas inteligentes que ajustam automaticamente a distribuição de energia com base nas demandas sazonais e das condições climáticas locais. E, por fim, sensores urbanos para monitoramento ambiental para identificar padrões de poluição e alertar sobre eventos climáticos extremos.

Inclusão social e equidade

Diante das desigualdades sociais evidentes em muitas áreas urbanas, os próximos anos exigirão um esforço conjunto entre gestores e técnicos públicos dos três entes federativos, empresas e população para garantir o acesso universal à moradia, à infraestrutura urbana, equipamentos e serviços públicos e o fortalecimentos dos instrumentos adequados para a participação de grupos sociais diversos na tomada de decisões sobre a gestão das intervenções necessárias à realidade local. O urbanismo local, que afeta o cotidiano das pessoas, precisa se integrar ao planejamento urbano generalista, que muitas vezes ignora as necessidades cotidianas. Planos de bairro e planos de rua precisar ingressar na prática de gestão urbana municipal. 

Governança urbana participativa

A participação cidadã na tomada de decisões urbanas é crucial para assegurar representação diversificada e transparente. O desafio é fortalecer instituições governamentais urbanas para garantir governança eficaz, transparente e responsável. Estimular a participação cidadã, fortalecer instituições de controle social e garantir a transparência governamental são passos fundamentais nesse percurso por meio do desenvolvimento de plataformas online e aplicativos que permitem aos cidadãos relatar problemas ambientais em tempo real, como pontos de alagamento ou áreas com poluição do ar, por exemplo.

Complexos e interligados, os temas voltados ao cumprimento das metas presentes na Agenda 2030 refletem a busca por soluções que permitam que as cidades prosperem diante de desafios globais. Ao adotar estratégias ambientais, fomentar inclusão social e garantir transparência e participação cidadã na governança pública, as cidades fortalecem a resiliência e constroem comunidades sustentáveis. A busca pela sustentabilidade urbana não apenas promove eficiência e resiliência, mas também compromete-se a distribuir equitativamente os benefícios, trilhando o caminho de um futuro mais justo e sustentável para todas as pessoas.

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Cada rua, um capítulo, cada esquina, uma promessa, cada praça, um encontro: a cidade que eu quero para mim e para todos

Todo mundo deveria ter o direito de viver em uma urbe inclusiva, um abraço coletivo, reconfortante

Por Helena Degreas – 30/12/2023 10h00 – Atualizado em 30/12/2023 10h07 para a Jovem Pan News

EDI SOUSA/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Tomo o ônibus. Ao longo do trajeto, esbarro meu olhar no tanto de gente, gente e mais gente que se move sem rumo aparente. Atravessam ruas, entram e saem, nem sei bem para onde vão, nem de onde vêm. Penso que nem eles sabem o motivo. Encontram-se nas esquinas, olham o céu, repletos de esperanças, aguardando que o ano novinho em folha possa trazer as conquistas e os abraços tão desejados que 2023 não pôde entregar. Adultos, criançasidosos, pessoas, enfim, são todos feitos de sonhos e, como na poesia que ouço na forma de canção enquanto escrevo, sonhos não envelhecem (salve Milton Nascimento!). Envelhece o corpo, mas nossos sonhos permanecem intocados, resilientes à passagem do tempo, resistindo, latentes, aguardando sua realização.

Comecei o dia assim, pensando na cidade em que desejo morar, onde estão as pessoas que amo, meus amigos e que quero chamar de lar. É a cidade que “todes” deveriam ter o direito de viver. Uma urbe inclusiva, um abraço coletivo, reconfortante. Entre suas vielas, sentimentos e aspirações ganham vida e se materializam em paisagens inimagináveis, lindas, únicas, construídas a partir da participação e interação de toda a gente. Suas ruas, calçadas e caminhos pulsam as emoções de seus habitantes, cujas formas urbanas concretizam sonhos compartilhados. Cada rua, um capítulo; cada esquina, uma promessa de pertencimento; cada praça, um encontro público, sem restrições. Penso no aroma do café e no sabor do pão na chapa lá da padoca da esquina, no mercadinho que nem sempre tem o que quero, mas que tem a dona Yumi, que guarda Nira porque sabe que gosto, no som alegre das gargalhadas das crianças e adolescentes nas praças e parques verdinhos, que, distribuídos em todos os bairros, dão sombra fresca e acolhem, como lar, toda a bicharada e insetos que uma cidade grande pode acolher. Nas paredes, longe das galerias e museus, a arte das ruas expressa, com seus grafites, pinturas, intervenções e apresentações de artistas anônimos, as diversas vozes, nem sempre ouvidas pelos meios de comunicação e políticos, os discursos e falas que também deveriam compor o debate público.

É de gente que são construídas as cidades. E gente busca, em cada ação diária, do despertar ao adormecer, sentir-se feliz, ao menos por um instante. É nas pessoas, nas suas histórias entrelaçadas e nos sonhos compartilhados que as cidades se constroem. É o “rio de asfalto e gente”, quadro vivo da urbanidade que se desenrola pelas ladeiras e que entorna pelos meios-fios. Esquinas que abrigam milhões de histórias, lugar perfeito para que desejos, culturas, vidas e o inesperado misturem-se expondo a identidade e a riqueza que não se repetem em lugar algum. Desejo para 2024 uma cidade plural, que acolha histórias e sonhos, e que se torne um lar para todas as pessoas.

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