Para a coluna desta semana fiz uma enquete cujos resultados, apesar de esperados, levou a uma situação que deveria envergonhar prefeitos, vereadores e secretários. 86% das pessoas responderam que as nossas cidades não estão preparadas apara acolher as crianças, sendo inadequadas à socialização e ao desenvolvimento infantil saudável a partir da brincadeira. Está tudo errado. Em coluna anterior, comentei que as cidades são planejadas sob a ótica dos adultos e para atender as necessidades dos adultos do gênero masculino, jovens, sem deficiências e que se locomovem predominantemente por meio do automóvel particular. São motoristas que veem a cidade pela janela do carro preferencialmente com o vidro fechado e ar-condicionado ligado. E sempre com pressa, muita pressa. Parecem os comportamentos dos nossos políticos, não é? de dentro do carrão com ar-condicionado, sonham com Miami, com Disney, nem sei. Só não sonham com a cidade onde moram e deveriam transformar. Afinal, a vida em shoppings, clubes, restaurantes e condomínios não se mistura com a vida da gente comum. Crianças? só aquelas que estão ao meu redor… O resultado encontra-se nas cidades fragmentadas por quilômetros e mais quilômetros de vias de alta velocidade, calçadas estreitíssimas, semáforos cujo tempo de travessia despreza a velocidade daqueles que tem locomoção reduzida como crianças, estacionamentos em vias públicas e locais para onde as crianças estão autorizadas a brincar: playgrounds em pracinhas, parques e algumas instituições. Deu, né? que nossos votos, construam cidades melhores.
coluna Jovem Pan News: Governos espalhados pelo mundo estão investindo fortemente na construção de sistemas e dispositivos que simulem aspectos da realidade cotidiana da administração pública.
Na enquete da semana, perguntei às pessoas se elas aceitariam o atendimento para a prestação de um serviço público realizada por meio de um avatar. Um terço aproximadamente respondeu que sim, mostrando que a realidade do sistema Metaverso e suas vantagens ainda são desconhecidos pela maior parte dos cidadãos.
A ausência de familiarização com as potencialidades no uso dos recursos do Metaverso na gestão pública é compreensível pois no Brasil, o tema ainda não recebeu a devida importância pelos governos. Enquanto isso, países que vão da Coreia do Sul até Barbados, país insular caribenho, vem investindo maciçamente no desenvolvimento de ambientes propícios aos desenvolvimento de serviços e produtos públicos que melhorarão a qualidade devida dos cidadãos, das empresas ampliando a criação de novos negócios e empresas digitais nos mais diversos setores.
Da criação de tecnologias disruptivas que eliminam barreiras legais e administrativas no âmbito de vistos e barreiras alfandegárias para negócios e visitas de avatares por todo o mundo até incentivo a criação de guichês de atendimento público instâncias administrativas de governo, o Metaverso é uma realidade que se faz presente a partir do uso de recursos que mesclam realidade virtuais, aumentadas e inteligência artificial para melhorar as condições de vida, educação, lazer, compras, informação e trabalho daqueles que hoje já se utilizam dos recursos online para executar suas atividades cotidianas.
Na semana do bicentenário da independência, escrevi uma coluna que descreve histórias de crianças e jovens vivenciadas entre os anos de 1930 e 1950 no Parque da Independências mostrando a importância das instituições culturais no cotidiano do bairro do Ipiranga e da cidade de São Paulo. Com a coluna, fiz uma enquete em que era perguntada a frequência de visitação dos leitores em museus.
As respostas revelaram dados que assustariam até as mais conservadoras curadorias. Perguntados sobre a frequência, cerca de 3% declaram ser assíduos, 10% afirmar ir vez e outra e 87% informam raramente frequentá-los. Na interação, muitos me perguntaram por que eu não coloquei a opção nunca.
Medo das respostas, Só isso. Covardia, enfim. Talvez, eu ainda faça parte de uma bolha que imagina que os objetos que compõem o acervo seja mágicos e tragam com eles sentimentos de época, de pertencimento que eu gostaria de ter vivenciado. Nas pinceladas visíveis em pinturas, no trabalho do cinzel e do martelo que apesar da força bruta, expõe-se na leveza de uma escultura, da delicadeza dos entalhes da joias que adornaram imperadores, das trocas de conversas enquanto a gente comum realizava as refeições em louças singelas ou dos brasões e armas utilizados para vencer batalhas, o encanto de cada elemento me faz pensar sobre vidas, pessoas, histórias que me fazem ser, quem sou. É apaixonante.
O que pode estar ocorrendo para que história, arte e cultura encerrada em museus, galerias e demais espaços que acolhem elementos, para mim, tão caros, não sejam usufruídos da maneira e na quantidade que merecem? Acaso as pessoas não se interessam em conhecer de onde vieram ou por que são o que são? Interessam-se sim. Mas os tempos, são outros.
Tecnologias da informação e comunicação quando utilizada para agregar valor às experiências individuais e coletivas, podem gerar excelentes resultados e, quando agregadas pelos profissionais responsáveis pelas curadorias de eventos que se propõem a expandir o conhecimento, visualização e interação com pessoas e grupos “não iniciadas” (contem ironia), podem trazer ao cotidiano da gente comum, o prazer de experimentar um pouco do que sinto quando vou presencialmente ver exposições ou virtualmente conhecer acervos de todo o mundo.
Para além das exposições fixas, os museus e galerias tem experimentado práticas de curadoria que pretendem engajar cada vez mais pessoas interrompendo a narrativa das exposições que já vem prontas, estáveis e que não permitem interação ou questionamentos. A utilização de recursos oriundos das redes sociais, associados à interação digital por meio de visitas guiadas, podcasts, interações síncronas, utilização de games, imersões em realidades virtuais com experiências em realidade aumentada quando associados à Internet das Coisas e Inteligência Artificial ampliam as possibilidades de compreensão e interesses dos visitantes para muito além daquele vivenciado por meio da presencialidade proporcionada por uma visita.
A resposta à enquete, aponta para a necessidade de ampliação dos investimentos públicos e ampliação de incentivo fiscais às empresas para a constituição de acervos presenciais, digitais e ampliação dos recursos direcionados à interação e satisfação dos usuários para divulgação e disseminação dos elementos que compõem a riqueza cultural deste Brasil.
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Na hora de escolher o novo lar, é indispensável pensar no impacto daquele ambiente à saúde das pessoas; o Sol, por exemplo, estimula a produção de vitamina D, que é responsável pela absorção do cálcio, fortalecimento dos ossos e melhoria do humor
Há alguns dias, acompanhei um amigo na busca do apartamento perfeito. Anos economizando aqui, cortando gastos ali, horas extras e bicos de toda sorte permitiram-lhe juntar algum dinheirinho para dar de entrada em seu imóvel. Emprego garantido, salário em dia, pretendia financiar o saldo devedor pelos próximos anos. Feliz, veio logo me procurar. Dizia que com uma arquiteta ao seu lado, ele encontraria o lugar ideal sem correr o risco de cair em alguma cilada. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com cilada, mas, enfim, acompanhei-o de bom grado. Conversa em boa companhia é sempre muito bem-vinda em tempos sombrios. Chegamos juntos e nos encontramos na estação de metrô no horário combinado. Logo de cara, espantei-me com as ruínas de vários sobradinhos, do pó proveniente das obras e da terra avermelhada escorrendo, lamacenta, pela calçada e meio-fio abaixo. Bate estacas de um lado, marretadas e gritaria do outro, pensei: ok, Helena, nada de novo, são apenas obras, você está acostumada… é seu ofício. Mantive meu bom humor. Ele, por sua vez, permanecia radiante diante do lugar que em breve chamaria de seu.
Três obras novas em cerca de 120 metros: duas em um dos lados da rua e a terceira, imensa, que consumia, aos poucos, quase a metade da outra quadra. Como estas pessoas aguentam este monte de caminhões estacionando e descarregando dia e noite? Todos os ruídos intermitentes e a gritaria das obras? Por pouco não fui tirar satisfações aos berros com os engenheiros responsáveis pelos canteiros imundos e malcuidados que emporcalhavam as ruas e calçadas. Mas então, diante do olhar satisfeito do meu amigo, parei de pronto. Ele não merece que a urbanista apareça assim, do nada, naquele que era um momento feliz em sua vida. Entramos no estande de vendas. Sorridentes, corretores nos ofereceram bombons, café, sucos, biscoitos. Enquanto ele se deliciava com as explanações e guloseimas, eu declinava. Diante da insistência, aceitei um copo de água e deixei sobre a mesa, imaginando que se um gole fosse dado, eu seria capturada, de alguma forma, pelos argumentos daqueles que tinham, como trabalho, apresentar e vender o seu produto. E o faziam muito bem, pensei com todo o azedume que por vezes se apodera da urbanista.
Daí, aconteceu o que eu mais temia: a visita ao apartamento decorado passando antes pela maquete localizada no ponto central de uma sala especialmente criada para a sua visualização. Iluminada, encontrava-se cercada por uma série de telões pendurados nas paredes, com imagens dos ambientes em uso. Imponente, mais alta que todos à volta, ela se apresentava como a solução da vida de todos aqueles que procuram por um lar: janelões de canto a canto, com vistas para todos os lados, varandas, e uma série de serviços que me lembraram clubes recreativos. “Tudo bem”, resmunguei, “para que sair de casa? A cidade anda completamente largada pelo atual prefeito Ricardo Nunes… ainda teremos o alcaide por alguns anos pela frente… melhor não vivenciar o dia a dia das ruas. A realidade é bruta demais”. Chega o momento e ele me pergunta: “O que você acha? Gostou? Não é lindo?”
Mordi o canto inferior dos lábios, coração batendo forte como se quisesse sair da boca. Respirei fundo tentando manter a calma e a compostura, sorri um sorriso falso e perguntei ao corretor: “Cadê o Norte na maquete? Estou louca para você me contar onde fica… gostaria de saber se o sol da manhã entra na sala e nos quartos, me ajuda”? Olhos esbugalhados, o corretor responde de dentro da sala sem janelas que abriga a maquete esplendorosa, eu e meu amigo: “Aqui fica o Leste e aqui o Oeste. Como a senhora pode ver, pega sol o dia inteiro e em todos os ambientes!”. “Bacana”, resmunguei. “Mas…. e este vazio aqui na maquete, é o quê?”. Preocupado, ele responde: “é a segunda fase de lançamentos! Assim que esta torre for comercializada, serão iniciadas as vendas da outra torre.” Queria estar errada, juro que queria, mas não deu outra: “A nova torre é igual a esta, né? Da mesma altura? Então este lado nunca terá sol, afinal, fica a poucos metros da torre que você está mostrando e provavelmente uma fará sombra na outra, certo?”. “Mas tem espaço suficiente para a claridade entrar”, responde o corretor. Estava difícil manter a calma. “Vamos lá, deixa eu mostrar uma coisa para você…” saco da bolsa uma pequena e antiga trena. Mostro aos dois a altura, o movimento do sol, a distância e descrevo a razão, apresentando a impossibilidade da ocorrência de insolação direta nos janelões dos andares nas fachadas de vários andares das duas torres.
Tentando salvar a situação, “desembestei” a falar, tal qual a boneca Emília de Monteiro Lobato, sobre a importância do conforto ambiental na saúde dos lugares e, por consequência, das pessoas. “A luz do sol estimula a produção de vitamina D, que é responsável pela absorção do cálcio, fortalecimento dos ossos e melhoria do humor. Tem efeito profilático, ao impedir o desenvolvimento de germes patogênicos, tornando o ambiente limpo e saudável, situação importante para quem tem crianças e pessoas com idade mais avançada em casa”. Falei da “sensação térmica do piso térreo que, com sombra na maior parte do dia, lembraria as geleiras do Alasca ao longo do inverno”. Argumentei que “a ausência de elementos vegetais de grande porte no empreendimento manteriam o pó, resultante da localização junto à avenida que apresenta fluxo intenso de motores à combustão (ônibus, veículos particulares e caminhões), suspenso no ar e que, graças a esta situação, em nada o empreendimento colaboraria na absorção do CO², atual vilão causador da crise climática”. Quando percebi o desalento no olhar do amigo e do corretor, calei-me.
Os cerca de dois ou três segundos de silêncio que se seguiram pareceram uma eternidade. Me senti mal, mas, enfim, ou o protejo com a verdade dos fatos que a astronomia já nos mostra diariamente desde que a Terra existe, ou não cumpriria o meu papel de amiga que o quer bem. Com a voz trêmula e sem o sorriso que há pouco preenchia todo o seu rosto, ouço: “Mas tem o outro lado do prédio, Helena, a outra fachada…” Pedi para sairmos do “Hall da Maquete”. Já na rua, percebi a construção de um prédio logo na divisa ao lado, que se autoproclamava como o mais alto da rua. Perguntei ao corretor como seria a vista da paisagem a partir dos janelões das salas e varandas depois de finalizadas as obras do empreendimento vizinho. Sem graça, utilizou o termo até então impensável para mim: emparedada. Perguntei se o “emparedamento” poderia prejudicar o valor do imóvel no caso de uma futura venda. Naturalmente, os andares mais altos, sem vista emparedada, com a presença de luz solar direta, têm valores mais altos para a comercialização do que os apartamentos localizados em andares mais baixos.
Repentinamente, meu amigo biólogo encerra a visita agradecendo a disponibilidade e gentileza do corretor. Convidou-me para um café. Perguntei se ele ainda nutria algum sentimento de amizade por mim depois do ocorrido. “Mais do que nunca” afirma ele. “Da próxima vez, farei uma pesquisa um pouco mais aprofundada, nem que seja no Google Earth, para conhecer a localização, as transformações que estão ocorrendo próximas ao local para garantir as condições de habitabilidade e prestarei mais atenção na incidência solar e ventilação para garantir o conforto térmico e ambiental do meu futuro apê para não cair numa cilada. Por via das dúvidas, trarei doces para amansar a urbanista que habita em você.”
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
Embora o Recife tenha sido palco de uma manifestação pacífica no sábado, chamou-me a atenção a truculência adotada por policiais; quem irá se responsabilizar pelos cidadãos que hoje estão cegos?
Rodrigo Baltar/Agência Pixel/Estadão Conteúdo – 29/05/2021Protesto no Recife, no último sábado, registou conflito entre policiais e pessoas que se manifestavam contra o governo federal
As manifestações públicas nos espaços urbanos ocorrem desde sempre: ruas, praças, avenidas e áreas centrais são os locais que acolhem ações políticas que não se reduzem ou não cabem nos espaços privados de vida social. Transformados em palco para a realização de manifestação de matizes diversos, permitem que os atores sociais exponham suas reivindicações, evidenciando questões políticas e sociais. Em outras palavras, manifestem suas opiniões em “praça pública”. Quando associados à divulgação pelos meios de comunicação em massa, ganham importância e são capazes de influenciar a opinião de muitas pessoas. O sábado passado foi marcado por protestos organizados em redes sociais por meio da hashtag #29Mforabolsonaro, nos quais os manifestantes, enlutados com a perda de pessoas queridas (como bem escreveu o colunista Mathias Alencastro, da “Folha de S.Paulo”), gritavam contra a displicência criminosa adotada por autoridades públicas no combate a pandemia, que, até o dia de hoje, ceifou a vida de 462 mil brasileiros. Não é possível considerar esses dados como corriqueiros, normais.
Embora a manifestação tenha sido pacífica, chamou-me a atenção a truculência adotada por policiais militares na cidade do Recife. A partir das declarações de manifestantes feridos, lembrei-me da manchete de um jornal argentino de 2017 intitulada “Mirando na cabeça, polícia cega manifestantes com balas de borracha”. “Eles estavam atirando para cegar” disse um dos atingidos na Praça do Congresso, em Buenos Aires. Os argentinos expressavam desaprovação quanto às reformas previdenciárias que afetariam negativamente os trabalhadores. Era um ato político e legítimo. O cidadão tem o direito às cidades, à ocupação dos espaços públicos para expor suas opiniões ou suas indignações. É do jogo da democracia. A judicialização, na maior parte dos casos, demora décadas e não resolve as aflições do presente. Anos depois, em 2021, os brasileiros protestavam pela morte de amigos e familiares que poderiam estar vivos, não fosse a incapacidade do governo federal em tratar a questão à luz da ciência, como fizeram presidentes lúcidos de inúmeros países. São tratados da mesma forma truculenta por agentes públicos. Não imaginei ver ações de intimidação realizadas por grupos militares novamente contra grupos civis desarmados. Tais ações eram práticas corriqueiras durante o período em que vigorava a ditadura militar.
O direito à expressão de repúdio da população frente aos descaminhos governamentais expõe ações coletivas urbanas de sujeitos sociais que saíram da comodidade das redes sociais, preferindo enfrentar a morte pelo vírus a aguardar que os agentes públicos, em tese seus representantes, ajam em prol das demandas públicas (direito à vida e à saúde) de todo um país. Cidadãos ativos, provocaram reações inadmissíveis de grupos que preferem a tranquilidade da ordem vigente (construída por alguns em benefício de poucos) em territórios públicos de um país democrático, amedrontando, encurralando e ferindo cidadãos. Controlar grupos sociais com o uso da brutalidade para “restabelecer” a ordem vigente?
Quem definiu que manifestações pacíficas que defendem a aceleração do processo de imunização por parte das autoridades em espaços públicos fossem tratadas como atos terroristas pelos policiais militares da cidade do Recife? Quem deu a ordem? Por que deu a ordem? Quem irá se responsabilizar pelos cidadãos que hoje estão cegos? Que tipo de perigo oferece uma vereadora protestando para um conjunto de homens fardados (provavelmente armados), protegidos do lado de dentro de uma viatura policial, para que o gás de pimenta fosse utilizado contra ela? Não se trata de “balbúrdia” ou “baderna” para causar distúrbios no ambiente público. São cidadãos que exigem o restabelecimento da “ordem no ambiente público” pautada no direito à vida, à saúde, à educação e ao trabalho. Exigem também que sejam retomadas as discussões qualificadas dos temas que atendem às demandas sociais com ênfase em políticas públicas construídas para o bem-estar da população e do planeta.
Você considera violentas as ações tomadas pela Polícia Militar contra os manifestantes no Recife, no sábado passado?
Expoente da arquitetura brasileira morreu no domingo, aos 92 anos; sua partida deixa saudade, mas legado está espalhado pelas cidades, materializando uma vida profissional profícua
Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo – 21/10/2013O arquiteto Paulo Mendes da Rocha foi um dos mais importantes representantes do modernismo brasileiro
“Pedras no céu.” Foram com estas palavras que o engenheiro Mário Franco explicou o conceito estrutural do projeto realizado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha para o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE) em uma de suas aulas ministradas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). De maneira didática, o professor Mário explicava a importância da compatibilização do projeto arquitetônico com o projeto estrutural, enfatizando que os dois profissionais devem trabalhar juntos para que obras de arte, como aquela, pudessem se materializar nas cidades. A solução encontrada para colocar a “pedra do Paulo no ar”, no caso o MuBE, foi inspirada na estrutura dos pássaros que, se por um lado precisam ser muito leves para voar, por outro devem ter ossos com resistência adequada para não desmoronar, quebrar.
Semanas depois, o professor Paulo Mendes da Rocha explica, em uma das orientações nas aulas de ateliê de projeto na FAUUSP, que o vão de 60 metros era necessário para que o museu se abrisse em praça para a cidade, garantindo, desta forma, uma continuidade espacial por meio do grande plano horizontal. Falou sobre a liberdade. Projetou liberdade. Nunca mais esqueci. Para além dos atributos funcionais e estéticos, sua obra tinha um papel político, situação esta que lhe impôs um afastamento compulsório em 1969, juntamente com seu mestre, Vilanova Artigas, e outras dezenas de professores durante todo o regime de ditadura militar. Por ser um pensador de esquerda, não deve ter sido fácil ficar longe de seus alunos, tampouco projetar e construir suas obras. Voltou durante a redemocratização, dando prosseguimento às atividades acadêmicas, sendo responsável pela formação de várias gerações de arquitetos inspirados em sua obra e suas ideias políticas.
Representante da Escola Paulista de Arquitetura, Paulo pertenceu à primeira geração de arquitetos que realizou trabalhos marcadas pela ênfase na técnica construtiva, pela adoção do concreto armado aparente e valorização da estrutura. Sua obra era marcada pela busca da continuidade entre interior e exterior, pela construção de espaços únicos, contínuos, que permitiam a livre-circulação, entendida por ele como um ato de liberdade. Foi um dos mais importantes representantes do modernismo brasileiro, tendo recebido dois Pritzker, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza e o Prêmio Imperial do Japão, além da medalha de ouro do Riba, o Real Instituto de Arquitetos Britânicos. Mais recentemente, conquistou a medalha de ouro da União Internacional de Arquitetos (UIA).
Sua obra é reconhecida internacionalmente. Destacam-se, entre inúmeros trabalhos, o Museu Brasileiro de Escultura (1988), a reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo (1993), o Centro Cultural da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (1996), o Museu da Língua Portuguesa (2006) e o projeto das novas instalações do Museu Nacional dos Coches, na zona de Belém, em Lisboa. Existe a ausência física, a saudade que fica por conta das palavras e pensamentos que deixam de acontecer. Mas a morte? Essa, definitivamente, não. Seu legado está aí, espalhado nas cidades, materializando uma vida profissional profícua, cujos pensamentos e posições políticas ficaram expressos em todas as suas obras. Nós, seus ex-alunos e discípulos, continuaremos aplicando seus ensinamentos e trabalhos. Muito obrigada, mestre.
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Créditos: Estadão Conteúdo – 13/09/1961
Aos 30 anos, Paulo Mendes da Rocha já lecionava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo
The participation of people who live in regions with precarious infrastructure is necessary, that is, in the peripheries; citizens can submit proposals digitally by May 30
by Helena Degreas
11/05/2021 09h00 – Atualizado em 11/05/2021 15h46
Helena Degreas
Municipal Secretary of Urbanism and Licensing, César Azevedo, stated that he intends to transform São Paulo into a more inclusive city by improving the strategic master plan
In an interview with Jornal da Manhã, by Jovem Pan, this Monday, 10th, the municipal secretary of Urbanism and Licensing, César Azevedo, stated that he intends to transform São Paulo into a more inclusive city by improving the strategic master plan. To this end, a consultancy (non-profit institution whose name is still unknown) was hired without bidding, which will carry out studies and diagnosis of any changes that will guide the discussions to the new plan. The secretary also cited consultations with a group of university professors – I find the idea interesting, although I still do not know who the invited researchers are and their relevance in the scenario of discussions on urban public policies – and added comments on the importance of citizen participation in this whole process. The digital platform Plano Diretor SP was launched on April 10 and will remain open until May 30 to receive proposals on the revision of the Strategic Master Plan (PDE) in 2021.
I didn’t quite understand what the secretary meant by “including city”. It’s a very broad concept, but it sounded good. It is only necessary to evaluate how the inclusion will take place. I remembered my dear Professor Milton Santos, who never tired of repeating in his classes: “City is infrastructure”. And, adding the thoughts of contemporary urban planners, the city is made by people and for people. More even, impossible. Systematic reviews of Master Plans are necessary so that cities can be adapted to the needs of the population. And, for the demands to be met, public participation is essential. Cities materialize the social relations of different groups that live in them. At this point, representativeness in decisions on the proposals for revision on the issues dealing with employment and housing, mobility, environment and climate, urban sanitation, urban risks among many other issues, which are of fundamental importance, is extremely important, as they will guide the intervention guidelines in cities and the allocation of funds for their materialization.
Due to the health crisis caused by the Covid-19 pandemic, the face-to-face meetings of social groups that represent citizens who live in regions with precarious infrastructure, or even in the “quasi-city” will be, to a certain extent, impaired. I explain: the digital debate demands access to the internet, infrastructure (computers, for example) and, mainly, financial resources to reach all of this. A study carried out by the Seade Foundation (2019) shows that the inequalities between “city and quasi-city” or even, center and peripheries, are profound. In urban regions where a more vulnerable population prevails, access to the Internet is made with a low-speed connection (56%), with exclusive use of cell phones (67%) and more: 25% of this population has never surfed the net.
Secretary, with this framework, how will these citizens be able to participate in the digital consultation? With low participation, the inclusion proposal is not feasible.
I believe that it is the government that is responsible for embracing a guideline that generates changes in the telecommunications sector, especially in the peripheral areas, including thousands of people. In several European and North American cities, ordinary people have access to the internet in squares, parks, buses, trains, subways, school equipment, cultural centers and museums, that is, they can get information through a free and public network. I didn’t read anything about it in the main proposals. In the meantime, extending the deadlines for the review is a priority. Upon entering the platform that summarizes the main suggestions made so far, I read that the city intends to take “consideration of the real city” through “special attention” to areas distant from the central regions. The whole city is real. The text is confused. The problem is that a few groups, especially the real estate and construction sectors, are organized, actively participate in the review and decide which guidelines are a priority, thus defining where the city funds will be allocated.
Você pretende participar da revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo?
The secretaries and other participants in the PDE review must have realized that most of the urban territory (in addition to the Avenida Paulista and Faria Lima region) consists of neighborhoods and communities whose growth takes place outside the urban laws and, for this reason , have a disorganized appearance, are full of self-built houses and slums that spread along the streams, for example. In this case, I believe that the review should consider the “real city” (cited bay the secretary) where millions of citizens live, who are excluded from access to public facilities and urban infrastructure. If this is the proposal, it is excellent news, since thousands of people who occupy lots outside the law will have the real right of ownership by Usucapião (Immovable Property Not Susceptible to Acquisition Through Special Adverse Possession) , be it individual, be it collective. By this instrument, new owners will be entitled to install urban infrastructure such as public transport, schools, hospitals and health posts, security and green areas, for example.
For those who, like me, live and work in the “unreal city” (the one with public infrastructure) and who will not receive “special attention”, I suggest that they also participate in the review of the PDE. I’m already participating. My neighborhood has numerous problems which are by responsibility of the city of São Paulo. I need to know whether these issues will be a priority in the coming years and whether funds will be made available for their execution. Another theme mentioned in the secretary’s interview deals with the “reduction of distances” to reach the “inclusive city”. Mobility in the city of São Paulo is a subject that plagues everyone’s life. Several entities, such as the NGO Cidadeapé, which represent citizens in matters of active mobility, presented proposals demanding, among other actions, the elaboration of a diagnosis of the structure of the management of motorized dwarf mobility in the city. In other columns, I reiterated the fact that pedestrians walk all over the city, either on sidewalks or crossing streets, in inappropriate places, in addition to waiting for long traffic lights.
I also commented on the problems created by a fragmented and chaotic management structure, which occurs over spaces intended for pedestrian circulation, since the decisions on interventions are not unified. The creation of a body with management and deliberation power that manages the countless public spaces destined to everyone who walks on foot and circulates in a non-motorized way in the city is desirable and necessary. Walking, getting around by bicycle, skateboard, wheelchair, for example, even for a short journey, is something that every citizen does and should do it safely. Expecting dozens of departments to come together to create an action plan to ensure the well-being of those who walk on foot in cities is not feasible. The demands of these organizations will certainly transform São Paulo into an inclusive city, as the secretary wishes. As an urban planner and as a citizen, my dream is that mayors, secretaries, councilors and technicians work firmly in the purpose of extinguishing the visible inequalities between central (endowed with infrastructure) and peripheral areas (with precarious infrastructure), transforming, finally, São Paulo into a city indeed inclusive.
É necessária a participação das pessoas que moram nas regiões com infraestrutura precária, ou seja, nas periferias; cidadãos podem enviar propostas de forma digital até o dia 30 de maio
Por Helena Degreas
11/05/2021 09h00 – Atualizado em 11/05/2021 09h28
Helena DegreasSecretário municipal de Urbanismo e Licenciamento, César Azevedo, afirmou que pretende transformar São Paulo em uma cidade mais inclusiva por meio do aprimoramento do plano diretor estratégico
Em entrevista concedida ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, nesta segunda-feira, 10, o secretário municipal de Urbanismo e Licenciamento, César Azevedo, afirmou que pretende transformar São Paulo em uma cidade mais inclusiva por meio do aprimoramento do plano diretor estratégico. Para isso, foi contratada sem licitação uma consultoria (instituição sem fins lucrativos cujo nome ainda é desconhecido), que irá realizar estudos e diagnóstico sobre eventuais mudanças que nortearão as alterações do plano. O secretário citou também consultas a um grupo de professores universitários — considero a ideia interessante, embora ainda não saiba quem são os pesquisadores convidados e sua relevância no cenário das discussões sobre as políticas públicas urbanas — e acrescentou comentários sobre a importância da participação dos cidadãos em todo esse processo. A plataforma digital Plano Diretor SP foi lançada em 10 de abril e seguirá aberta até o dia 30 de maio para receber propostas sobre a revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE) em 2021.
Não entendi muito bem o que o secretário quis dizer com “cidade inclusiva”. É um conceito bem amplo, mas me pareceu bom. Só é preciso avaliar de que forma se dará a inclusão. Lembrei-me do meu querido Professor Milton Santos que não cansava de repetir em suas aulas: “Cidade é infraestrutura”. E, acrescentando pensamentos de urbanistas contemporâneos, a cidade é feita pelas pessoas e para as pessoas. Mais inclusivo, impossível. Revisões sistemáticas de Planos Diretores são necessárias para que as cidades possam adequar-se às necessidades das populações. E, para que as demandas possam ser atendidas, é fundamental a participação do público. As cidades materializam as relações sociais de diferentes grupos que nelas vivem. Neste ponto, é importantíssima a representatividade nas decisões sobre as propostas de revisão acerca das questões que tratam de emprego e moradia, mobilidade, ambiente e clima, saneamento urbano, riscos urbanos, atendimento a populações vulneráveis, entre tantos outros temas, que são de fundamental importância, pois nortearão as diretrizes de intervenção nas cidades e a alocação de verbas para a sua materialização.
Em função da crise sanitária provocada pela pandemia da Covid-19, as reuniões presenciais dos grupos sociais que representam os cidadãos que moram nas regiões com infraestrutura precária, ou ainda, na “quase-cidade” serão, de certa forma, prejudicadas. Explico: o debate digital demanda acesso à internet, infraestrutura (computadores, por exemplo) e, principalmente, recursos financeiros para ter alcance a tudo isso. Um estudo realizado pela Fundação Seade (2019) mostra que as desigualdades entre “cidade e quase-cidade” ou ainda, centro e periferias, são profundas. Nas regiões urbanas em que prevalece uma população mais vulnerável, o acesso à internet é realizado com conexão de baixa velocidade (56%), com uso exclusivo de celulares (67%) e mais: 25% desta população nunca navegou pela rede.
Secretário, com este quadro, como é que esses cidadãos conseguirão participar da consulta digital? Com baixa participação, a proposta de inclusão é irrealizável. Entendo que seja o poder público o responsável por abraçar uma diretriz que gere mudanças no setor de telecomunicações, em especial, nas áreas periféricas, incluindo milhares de pessoas. Em várias cidades europeias e norte-americanas o cidadão comum tem acesso à internet em praças, parques, ônibus, trens, metrôs, equipamentos escolares, centros culturais e museus, ou seja, consegue ter a informação por meio de uma rede gratuita e pública. Não li nada sobre o assunto nas principais propostas. Enquanto isso não acontece, ampliar os prazos para a revisão faz-se prioritário. Ao entrar na plataforma que faz um resumo das principais sugestões realizadas até agora, li que a prefeitura pretende levar em “consideração a cidade real” por meio da “atenção especial” para as áreas distantes das regiões centrais. Toda a cidade é real. O texto está confuso. O problema é que alguns poucos grupos, em especial o setor imobiliário e da construção civil, são organizados, participam ativamente da revisão e decidem quais diretrizes são prioritárias, definindo desta forma para onde serão destinadas as verbas da cidade.
Você pretende participar da revisão do Plano Diretor Estratégico de São Paulo?
Os secretários e demais participantes da revisão do PDE devem ter percebido que a maior parte do território urbano (para além da região da Avenida Paulista e Faria Lima) é constituída por bairros e comunidades cujo crescimento ocorre à margem das leis urbanas e, por esta razão, têm uma aparência desordenada, estão repletos de casas autoconstruídas e favelas que se espalham ao longo dos córregos, por exemplo. Neste caso, entendo que a revisão deva considerar a “cidade real” onde moram milhões de cidadãos que encontram-se excluídos do acesso aos equipamentos públicos e da infraestrutura urbana. Se for esta a proposta, é uma excelente notícia, pois milhares de pessoas que ocupam lotes à margem da lei terão o direito real de propriedade por usucapião seja ele individual, seja ele coletivo. Por este instrumento, os novos proprietários terão direito à instalação de infraestrutura urbana como transporte público, escolas, hospitais e postos de saúde, segurança e áreas verdes, por exemplo.
Para aqueles que, como eu, residem e trabalham na “cidade irreal” (aquela dotada de infraestrutura pública) e que não receberão uma “atenção especial”, sugiro que também participem da revisão do PDE. Eu já estou participando. Meu bairro tem inúmeros problemas que são de responsabilidade da prefeitura de São Paulo. Preciso saber se estas questões serão prioridade nos próximos anos e se terão verbas disponibilizadas para a sua execução. Outro tema citado na entrevista do secretário trata da “diminuição das distâncias” para se alcançar a “cidade inclusiva”. Mobilidade na cidade de São Paulo é um assunto que atormenta a vida de todos. Várias entidades que representam os cidadãos nas questões de mobilidade ativa apresentaram propostas reivindicando, dentre outras ações, a elaboração de diagnóstico da estrutura da gestão da mobilidade anão motorizada na cidade. Em outras colunas, reiterei o fato de que pedestres andam por toda a cidade, quer em calçadas, quer atravessando ruas, em locais inadequados, além de aguardar por tempos semafóricos longos.
Comentei também sobre os problemas criados por uma estrutura de gestão fragmentada e caótica, que ocorre sobre os espaços destinados à circulação dos pedestres, uma vez que as decisões sobre as intervenções não são unificadas. A criação de um órgão com poder de gestão e deliberação que administre os inúmeros espaços públicos destinados a toda a pessoa que caminha a pé e circula de modo não motorizado na cidade é desejável e necessário. Caminhar a pé, locomover-se de bicicleta, skate, cadeira de rodas, por exemplo, mesmo que por um trajeto curto, é algo que todo o cidadão faz e deveria realizá-lo de forma segura. Esperar que dezenas de órgãos se reúnam para criar um plano de ação para zelar pelo bem-estar daqueles que circulam a pé nas cidades é inviável. A reivindicação destas organizações certamente transformará São Paulo numa cidade inclusiva, como deseja o secretário. Como urbanista e como cidadã, meu sonho é que prefeitos, secretários, vereadores e técnicos trabalhem firmemente no propósito de extinguir as desigualdades visíveis entre áreas centrais (dotadas de infraestrutura) e periféricas (com infraestrutura precária) transformando, por fim, São Paulo numa cidade de fato inclusiva.
Townhouses, churches and even factories expose the identity of a place to the world; without preserving history, we lose our cultural identity and much of ourselves.
Abandoned townhouse in Vila Maria Zélia, north of São Paulo
The other day I saw on Twitter from a colleague some images of the facades of a building constructed in the early twentieth century and whose historical value, although evident, did not prevent total disfigurement, transforming it into a grotesque building, which looked more like a shoe box bumpy. The original facades, which were full of different ornaments, with tall, slender wooden windows, were replaced by a hideous floor tile. Some readers may be wondering why should we be concerned with old buildings? Preserving history for what? A townhouse, a church, a factory, a square, an entire neighborhood bear on the image and expose the history of people who lived in these places in the landscape. Their stories are all there, showing themselves in every detail, as if reminding current residents, the way they lived, worked, studied, and lived our predecessors, what their daily routines and social behaviours were. They remind us that much of what we are today we owe to all of them.
This is what we call memory. Each of these elements is a kind of link that connects us to the past, reminds us of who we are and where we came from. Each built space materializes the history of countless generations and brings, precisely for that reason, our history. Without the preservation of material (its artifacts) and immaterial (its stories and values) history, we lose our cultural identity and much of ourselves. But why is it that the de-characterization and demolition of Brazilian architectural, urban and landscape assets is so frequent? Any traveller loves to post photos in front of cathedrals, old buildings and squares of countries whose population and governments have public policies and financial incentives for the conservation and preservation of architectures and places built throughout an entire process of historical formation. My Greek ancestors, despite the economic difficulties that have plagued the country for decades, preserve their history through its monuments. Much of the country’s economy comes from tourism, which exposes its traditions and values through architecture, its museums – which keep old objects -, from villages built hundreds of years ago, from its happy songs and dances, food, olive oils, wine and cheese. They are proud of their history and what they are. History has shaped them as a society and as individuals.
Although there are still several difficulties in dealing with the preservation of historical and cultural assets, it is possible to make some considerations on the subject here in São Paulo. In 2006, the city’s mayor enacted Law No. 14,223 and Decree No. 47,950, known as the Clean City Law. From it, many facades, previously covered by panels and promotional signs of all kinds, were removed, revealing the beauty of several old buildings that no one knew about. If it was difficult for the owners to work with smaller ads and some adaptations, the city and the population gained identity, as entire streets, built at the same time and with similar facades and volumes, were in sight, presenting the history of the place to all citizens. Associations that deal with communication, and that have the habit of systematically enveloping buildings and facades, try to change the law by complaining that, without the signs, no one sees stores. How can this argument? The population must always keep an eye on these attacks.
Urban development and historical preservation go together and depend on the will of the population and their performance before the government to happen. The definition of the types of intervention that cultural heritage can receive occur at three institutional levels: at the municipal (in São Paulo, through Conpresp), state (Condephaat) or federal (Iphan) levels. One of the instruments of preservation is the Historical-Cultural Goods Protection called in Portuguese – Tombamento, feared by property owners with historical value. The fear has its raison d’être: the processes for preservation are long, dragging in some cases for decades, resembling the processes sent to the Brazilian Judiciary; there is also a lack of dialogue and interaction between the three institutional instances, a situation that generates more delays. Have you ever thought about having to wait ten years or more for the appraisal and finalization of a process without being able to do anything with your property? Another harmful factor that can be added is the lack of participation by the public involved in the decisions and the prioritization of technical and aesthetic elements, which make the listed property cease to be a participative and articulated element in the city, losing its symbolism and character urban heritage. Resolutions taken exclusively by technicians tend to dissociate themselves from the reality of the citizen.
Another important issue regarding the preservation of cultural assets concerns the incentive policies for property owners who are known to have cultural value. After all, if the building is listed because the interest is public, the city hall, the State and the Union must offer counterparts, as they are interested in preserving the country’s culture and history. In São Paulo, with the approval of the PDE (Strategic Master Plan) in 2014, the conservation of the listed property becomes a condition for the use of the TDC (Transfer of the Right to Build), one of the instruments that can be used as a tool for obtaining resources for the rehabilitation, restoration, retrofit, requalification, and other projects, depending on the level of preservation of the property. In other words, the entire property has a constructive potential associated with the urban regulations of each city. When a property is listed, it is not able to take advantage of all the construction potential provided for in the laws due to the restrictions imposed by the listing. With TDC, owners can sell the unused construction potential to other properties in the city and invest the resources exclusively in the recovery of their own, as this is money intended only for this purpose. With the resources, it is possible to hire qualified technical labour and suitable materials to restore the property.
Finally, the tipping instrument should be just one of the elements that make up cultural preservation policies, but that is not always the case. When going through the restoration process, the works must comply with the other legal provisions that guarantee the safety and habitability of the building. One example is the AVCB (Fire Department Inspection Auto), a document that certifies the fire safety conditions provided for in legislation whose direct application is not always possible for buildings built in other centuries… Another example addresses the necessary accessibility issues to all areas of buildings. Despite the existing rules and legislation, which must be applied, it is necessary to build adequate solutions for each building in a particular way because the direct application of the law can lead the owner to incur a crime due to the mischaracterization of the property. It is up to the public authorities to resolve this set of issues to collaborate with access to information on existing incentives, as well as collaborate with programs that unify actions and streamline administrative processes and routines in the name of preserving the Brazilian cultural heritage.
Do you consider that the old buildings and public monuments in your city are well preserved?
Find out more in the column @helenadegreas https://buff.ly/3h7DMLw
Você considera que os edifícios antigos e monumentos públicos da sua cidade estão bem preservados?
Sobrados, igrejas e até fábricas expõem ao mundo a identidade de um lugar; sem a preservação da história, perdemos nossa identidade cultural e muito de nós mesmos
Helena Degreas/Jovem PanSobrado abandonado na Vila Maria Zélia, zona norte de São Paulo
Outro dia vi no Twitter de um colega algumas imagens das fachadas de um edifício construído no início do século XX e cujo valor histórico, apesar de evidente, não impediu a descaracterização total, transformando-o num prédio grotesco, que mais parecia uma caixa de sapatos esburacada. As fachadas originais, que eram repletas de ornamentos diversos, com janelões de madeira altos e esguios, foram substituídas por uma cerâmica de piso medonha. Alguns leitores devem estar se perguntando por que devemos nos preocupar com edifícios antigos? Preservar a história para quê? Um sobrado, uma igreja, uma fábrica, uma praça, um bairro inteiro carregam na imagem e expõem na paisagem a história de pessoas que viveram nestes lugares. Suas histórias estão todas lá, evidenciando-se em cada detalhe, como que lembrando aos residentes atuais a forma como moravam, trabalhavam, estudavam e viviam nossos antecessores, quais eram suas rotinas cotidianas e comportamentos sociais. Nos fazem lembrar que muito do que somos hoje devemos a todos eles. https://e559759a5aafdabbd5995e3ed11c2810.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html
A isso tudo, chamamos de memória. Cada elemento desses é uma espécie de elo que nos conecta ao passado, nos lembra quem somos e de onde viemos. Cada espaço construído materializa a história de inúmeras gerações e traz, justamente por isso, a nossa história. Sem a preservação da história material (seus artefatos) e imaterial (suas histórias e valores), perdemos nossa identidade cultural e muito de nós mesmos. Mas por que então a descaracterização e demolição de bens arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos brasileiros é tão frequente? Qualquer viajante ama postar fotos em frente a catedrais, prédios antigos e praças de países cuja população e governos têm políticas e incentivos para a conservação e preservação de arquiteturas e lugares construídos ao longo de todo um processo de formação histórica. Meus antepassados gregos, apesar das dificuldades econômicas que assolam o país há décadas, preservam sua história por meio dos seus monumentos. Grande parte da economia do país vem do turismo, que expõe suas tradições e valores por meio da arquitetura, dos seus museus — que guardam objetos antigos —, de vilarejos construídos a centenas de anos, de suas músicas e danças alegres, comidas, azeites, queijos e vinhos. Eles têm orgulho de sua história e do que são. A história moldou-os como sociedade e como indivíduos.
Embora ainda existam dificuldades diversas para tratar a preservação de bens históricos e culturais, é possível tecer algumas considerações sobre o assunto aqui em São Paulo. Em 2006, o prefeito da cidade promulgou a Lei nº 14.223 e o Decreto nº 47.950, conhecidos como Lei da Cidade Limpa. A partir dela, muitas fachadas, antes encobertas por painéis e placas promocionais de todos os tipos, foram retiradas, revelando a beleza de vários edifícios antigos e que ninguém conhecia. Se para os proprietários foi difícil trabalhar com anúncios menores e algumas adaptações, a cidade e a população ganharam identidade, pois ruas inteiras, construídas na mesma época e com fachadas e volumes semelhantes, ficaram à vista, apresentando a todos os cidadãos a história do lugar. Associações que tratam de comunicação, e que têm por hábito envelopar prédios e fachadas sistematicamente, tentam alterar a lei reclamando que, sem as placas, ninguém vê lojas. Como pode esse argumento? A população precisa ficar sempre de olho nestas investidas.
Desenvolvimento urbano e preservação histórica andam juntos e dependem da vontade da população e de sua atuação frente ao poder público para acontecer. A definição dos tipos de intervenção que o patrimônio cultural pode receber ocorrem nos três níveis de poder: na esfera municipal (em São Paulo, por meio do Conpresp), estadual (Condephaat) ou federal (Iphan). Um dos instrumentos de preservação é otombamento, temido pelos proprietários de imóveis com valor histórico. O temor tem sua razão de ser: os processos para preservação são longos, arrastando-se em alguns casos por décadas, assemelhando-se aos processos enviados para o Judiciário brasileiro; ocorre também a falta de diálogo e interação entre as três instâncias, situação essa que gera mais atrasos. Já pensou ter que esperar dez anos ou mais pela apreciação e finalização de um processo sem poder fazer nada com o seu imóvel? Mais um fator prejudicial que se pode acrescentar é a falta de participação do público envolvido nas decisões e a priorização dos elementos técnicos e estéticos, que fazem com que o bem tombado deixe de ser um elemento participativo e articulado na cidade, perdendo seu simbolismo e caráter patrimonial urbano. Resoluções tomadas exclusivamente por técnicos tendem a se dissociar da realidade do cidadão.
Outra questão importante sobre a preservação de bens culturais trata das políticas de incentivos aos proprietários de imóveis que reconhecidamente têm valor cultural. Afinal, se a edificação é tombada porque o interesse é público, a prefeitura, o Estado e a União devem oferecer contrapartidas, pois interessa a eles preservar a cultura e história do país. Em São Paulo, com a aprovação do PDE (Plano Diretor Estratégico) em 2014, a conservação do imóvel tombado passa a ser uma condição para o uso do TDC (Transferência do Direito de Construir), um dos instrumentos que podem ser utilizados como ferramenta para a obtenção de recursos para as obras de reabilitação, restauro, retrofit, requalificação e demais projetos, a depender do nível de preservação do bem. Dito de outra forma, todo o imóvel possui um potencial construtivo associados às regulações urbanísticas de cada cidade. Um imóvel, quando é tombado, não consegue usufruir de todo o potencial construtivo previsto nas leis em função das restrições impostas pelo tombamento. Com a TDC, os proprietários podem vender o potencial construtivo não utilizado para outros imóveis na cidade e investir os recursos exclusivamente na recuperação do seu, pois trata-se de dinheiro destinado apenas para esta finalidade. Com os recursos, é possível contratar mão de obra técnica qualificada e materiais adequados para restaurar o bem.
Por fim, o instrumento de tombamento deveria ser apenas um dos elementos que compõem as políticas de preservação cultural, mas nem sempre é o que ocorre. Ao passar pelo processo de restauro, as obras precisam atender às demais disposições legais que garantem a segurança e a habitabilidade do edifício. Um exemplo é o AVCB (Auto de Vistoria de Corpo de Bombeiros), um documento que certifica as condições de segurança contra incêndio previstas numa legislação cuja aplicação direta nem sempre é possível para imóveis construídos em outros séculos… Outro exemplo trata das necessárias questões de acessibilidade a todas as áreas dos edifícios. A despeito das normas e legislações existentes, que devem ser aplicadas, é necessário construir soluções adequadas para cada edifício de maneira particular pois a aplicação direta da lei pode levar o proprietário a incorrer em crime por descaracterização do imóvel. Cabe ao poder público resolver esse conjunto de questões de forma a colaborar com o acesso a informações sobre os incentivos existentes, bem como colaborar com programas que unifiquem ações e agilizem processos e rotinas administrativas em nome da preservação do patrimônio cultural brasileiro.
Você considera que os edifícios antigos e monumentos públicos da sua cidade estão bem preservados?