Duas cidades, dois caminhos, um único planeta em jogo: qual futuro escolheremos?

Inspirados em romance de Charles Dickens, textos ‘Bleak House’ e ‘Great Expectations’ apresentam duas visões sobre o futuro a partir de escolhas pautadas na inclusão (ou não) do conceito de descarbonização

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, nada no rio Sena para demonstrar que o rio está limpo o suficiente para sediar eventos dos Jogos Olímpicos. Fonte: JOEL SAGET/EFE/EPA/POOL MAXPPP OUT

Ao ler os jornais da semana, deparo-me com a imagem da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, nadando no rio Sena e cumprindo sua promessa de despoluir as águas do rio antes dos Jogos Olímpicos de Paris-2024. Confesso que senti uma ponta de inveja da população francesa, que poderá desfrutar de suas margens e águas sem o odor pútrido que, aqui onde moro, é comum nos rios que atravessam não apenas a cidade, mas também o Estado de São Paulo. Gostaria de saber se o atual prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas teriam coragem de mergulhar nas águas dos Rios Tietê e Pinheiros, mostrando à população seus esforços para melhorar a qualidade de suas águas. Os esforços para despoluir o rio Sena começaram na década de 1990, com o “Plano Azul” de 1995 como marco importante, a partir da implementação de estações de tratamento de esgoto e regulamentações ambientais, melhorando significativamente a qualidade da água e permitindo, de certa forma, o cumprimento da promessa. Ações proativas vindas de governos são sempre bem-vindas. A existência de planos, por si só, é incapaz de garantir que os objetivos sejam alcançados sem a execução eficaz e o compromisso contínuo com a sustentabilidade. É a ação concreta e a monitorização constante que transformam as promessas em realidades tangíveis, como a melhoria visível do Sena e a possibilidade de eventos simbólicos como a natação da prefeita de Paris. A coluna de hoje apresenta dois contos que mostram como o futuro das cidades depende da qualidade das decisões governamentais a curto, longo e médio prazos.

Inspirados no romance “Um Conto de Duas Cidades” (1859), de Charles Dickens, os textos “Bleak House” e “Great Expectations“, extraídos da publicação “Cities, Towns & Renewable Energy: Yes In my front Yard” (2009), da Agência Internacional de Energia/Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (IEA/OECD), estabelecem uma analogia com a obra citada para evidenciar duas visões contrastantes sobre o futuro das cidades a partir de escolhas pautadas na inclusão (ou não) do conceito de descarbonização no processo de gestão urbana a longo prazo. Ao divergir sobre as políticas públicas adotadas por governos acerca da gestão da matriz energética vigente e seus impactos ambientais e econômicos sobre a vida do cidadão, os contos apontam cenários ficcionais sobre a importância das decisões políticas e tecnológicas na definição do futuro que se pretende alcançar. A escolha entre continuar com práticas de “business-as-usual” (mantem-se as rotinas) ou adotar uma abordagem inovadora e sustentável determinará a qualidade de vida, a prosperidade econômica e a resiliência das cidades nas próximas décadas.

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Os contos, adaptados para essa coluna, apresentam um breve resumo de cada cenário. Mobilidade sustentável, economia circular, infraestrutura verde, equidade espacial, resiliência e segurança, valorização das comunidades e grupos sociais, transparência em todos os setores da governança pública, acessibilidade universal são alguns dos temas centrais que definem as visões contrastantes apresentadas. Em “Bleak House,” o cenário é sombrio, refletindo uma realidade onde as cidades falham em adotar políticas inovadoras, resultando em ambientes degradados, desigualdade exacerbada e colapso econômico. Já em “Great Expectations,” a narrativa nos transporta para um futuro otimista, onde as cidades prosperam graças à implementação de tecnologias limpas, práticas de sustentabilidade e um forte compromisso com a justiça social.

Esses contos funcionam como um alerta e uma inspiração, destacando que o caminho que escolhermos hoje moldará profundamente as cidades de amanhã. Através de suas narrativas, eles nos convidam a refletir sobre a responsabilidade coletiva e a importância de decisões políticas e tecnológicas corajosas e bem informadas para construir um futuro urbano resiliente, justo e sustentável. O spoiler, desculpem leitores, pode ter antecipado parcialmente as narrativas. Tanto o documento técnico de 2009 quanto o romance valem a leitura.

Um conto de duas cidades

Em um futuro não tão distante, duas cidades se erguem como símbolos de destinos opostos. A primeira, Bleak House (Casa Sombria, ou talvez, numa tradução ‘ainda mais livre’, Cidade Desolada), sufocada pela fumaça dos combustíveis fósseis, agoniza sob um céu escurecido pela negligência climática. Seus habitantes, reféns de um passado que se recusa a morrer, enfrentam um futuro incerto e sombrio. Mas em outro canto do mundo, uma cidade radiante se destaca: Great Expectations (Grandes Esperanças, numa tradução livre), um farol de esperança alimentado por tecnologias limpas e mentes visionárias. Lá, o ar é puro, a energia abundante e o futuro, promissor. 

Cenário: Bleak House

No primeiro conto, a cidade de Bleak House é apresentada em diferentes épocas, destacando as implicações na qualidade de vida da população decorrentes das decisões políticas ao longo do tempo. Em 2012, decisões reacionárias às pesquisas sobre os impactos econômicos e climáticos futuros levaram à manutenção dos investimentos em fontes não renováveis como carvão, gás e petróleo. A visão imediatista proveniente de políticos eleitos pela população, associada à ganância de setores econômicos e empresariais, sobrepôs-se às questões ambientais e sociais de longo prazo.

Os impactos previstos pela ciência na década anterior, aconteceu. Em 2030, a cidade sofre sob um calor implacável. Jay, um engenheiro experiente, acostumou-se aos cortes de energia e ao calor sufocante em seu escritório. A energia insuficiente obriga a concessionária a desligar aparelhos periodicamente. O prédio moderno, outrora símbolo de progresso, tornou-se um forno no verão e um refrigerador no inverno, devido à falta de investimentos em eficiência energética. O trânsito caótico, agravado pela frota de carros movidos a combustíveis fósseis, dificulta a vida de todos. Enquanto isso, o governo mantém a política de “business as usual”, ignorando os alertas sobre mudanças climáticas e a necessidade de diversificar a matriz energética.

As consequências dessa inércia eram visíveis por toda parte. Temperaturas extremas e inundações frequentes forçavam a população a se adaptar. Impostos extras financiavam obras de contenção, enquanto áreas verdes desapareciam para dar lugar a diques e barreiras. As usinas termelétricas, principal fonte de energia da cidade, sofriam com a falta de água para resfriamento, agravando a crise energética. Em 2050, a cidade ainda carregava as marcas da negligência do passado. Edifícios antigos, como o de Jay, recebiam melhorias, como painéis solares, mas a um custo alto. As novas gerações, representadas pelos netos de Jay, cresciam em um ambiente marcado pela escassez e incerteza, mas também pela esperança de um futuro mais sustentável. A cidade lutava para se adaptar a um clima hostil e a um futuro incerto, resultado de décadas de decisões políticas equivocadas relacionadas à energia não renovável.

Cenário: Great Expectations

No segundo conto, a aprovação pelo Conselho Municipal do Plano Distrital em 2012 garantiu a transição energética futura. Todos os novos edifícios comerciais passaram a ser equipados com aquecedores solares de água, salvo exceções justificadas. Arquitetos integraram painéis solares nos telhados, seguindo diretrizes rigorosas para captar calor solar no inverno, proporcionar sombra no verão e beneficiar-se de ventilação e luz natural. Isso aumentou o custo inicial em cerca de 7%, mas os crescentes preços da energia rapidamente compensaram o investimento. Joy, recém-formada em energia sustentável e design de edifícios, explicava a outros proprietários os benefícios da eficiência energética, auditava edifícios para identificar economias potenciais e desenvolvia planos estratégicos. Os cidadãos utilizavam dispositivos que informavam os assentos disponíveis no próximo ônibus. Ao sair do trabalho, Joy acionava um botão de “dormir”, desligando todos os aparelhos do escritório, e observava as turbinas eólicas nas colinas a caminho de casa.

Em 2030, as ações que Joy possuía nas cooperativas eólicas locais pagavam dividendos suficientes para ela viajar ao exterior. Passagens aéreas haviam aumentado devido ao imposto internacional de carbono, mas eram parcialmente compensadas por biocombustíveis de segunda geração. Em 2050, sua sobrinha chegou dirigindo um carro elétrico com revestimento de coletores solares orgânicos, conectando-o ao sistema de energia da residência para uma recarga rápida. Joy sabia que o futuro da energia sustentável dependia de tecnologias avançadas e colaboração entre cidadãos e governos. Ela se orgulhava de fazer parte dessa transformação e estava otimista quanto ao futuro de sua família em um mundo mais limpo e eficiente.

Escolhendo entre dois futuros

Ao comparar os cenários Bleak House e Great Expectations, fica claro que as escolhas políticas que fazemos hoje, em especial no período de eleições, determinarão não apenas o futuro de nossas cidades e de nosso planeta, mas também nossas vidas em alguns anos. Os contos ressaltam a importância de decisões políticas e tecnológicas conscientes e inovadoras, destacando que um futuro sustentável e próspero é possível, mas exige ação imediata e colaboração entre todos os setores da sociedade. O documento técnico de 2009 é uma leitura valiosa que nos inspira a refletir e agir em prol do nosso futuro e de todos aqueles que virão depois de nos.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Cidadãos, empresas e governos são corresponsáveis pelas mortes e danos materiais ocorridos no Rio Grande do Sul

Voto consciente é fundamental para a mudança: os cidadãos ajudam a criar uma cultura ambiental mais forte, influenciando políticas públicas e práticas empresariais em direção a um futuro mais sustentável

Se a agenda ambiental fosse prioridade, pergunto: por que estas sinalizações de segurança ainda existem? Divulgação/Prefeitura de Taubaté

Por Helena Degreas29/05/2024 11h01 – Atualizado em 29/05/2024 11h02 para a Jovem Pan News

Recentemente, o governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, emitiu uma declaração que sobre a tragédia que ocorreu no Estado. “Estudos alertaram, mas o governo também vive outras agendas”, afirmou Leite sobre as previsões da “tragédia anunciada” no RS, ilustrando como os líderes políticos precisam equilibrar diferentes demandas e prioridades em sua gestão. Tem razão: uma agenda política não é apenas uma lista de compromissos assumidos em campanha eleitoral; é um roteiro que guia as decisões que moldam o funcionamento das cidades. Reflete as prioridades, planos e objetivos que governos e líderes políticos se comprometem a realizar durante seus mandatos para atender as necessidades daqueles que moram nas cidades, ou seja, nós, cidadãos. Portanto, ao elegê-los com nosso voto, somos corresponsáveis por escolher aqueles que definirão as políticas, prioridades locais e, portanto, as agendas municipais, estaduais e federais e a destinação de recursos orçamentários para as ações que podem, com os anos, evitar os impactos causados pelas mudanças do clima. Como bem lembrou o governador, estudos alertaram para o eventual impacto que as chuvas e ventos poderiam causar nas cidades atingidas incluindo os mapeamentos sobre as áreas de risco, mas, as agendas políticas traçadas por nossos representantes nas escalas federal, estadual e municipal, tratou como questão menor nas discussões políticas, refletindo nos orçamentos o descaso.

Opiniões divergentes sobre os mais diversos assuntos sempre existiram. Mas, quando a desinformação sobre pautas urbanas impera, especialmente sem base científica, as agendas urbanas e a destinação de orçamentos podem ser prejudicadas, levando à priorização de projetos ineficazes, ao desperdício de recursos públicos e à resistência a políticas essenciais, como aquelas que levam à descarbonização. E mais: pode incentivar políticas de curto prazo que não resolvem problemas estruturais, intensificar a polarização política, dificultando a cooperação entre partes interessadas, e erodir a confiança pública em instituições governamentais. Exemplos como evidenciado pela fala do vereador Sandro Fantinel, do PL de Caxias do Sul, que atribuiu a proteção do meio ambiente como a causa da tragédia no Rio Grande do Sul. Essa visão polarizada, ausente de lastro científico, ilustra a resistência de atores políticos, eleitos pelos cidadãos, em investir em infraestrutura resiliente aos extremos climáticos. A falta de conscientização e conhecimento sobre a importância da sustentabilidade e das práticas ecossistêmicas por atores políticos, empresas e cidadãos, contribui para a resistência em adotar políticas ambientais robustas e para a priorização inadequada de recursos e projetos que não levam em conta os impactos ambientais a longo prazo. Além disso, os eventos adversos, causados ou agravados por ações humanas que resultam em danos ao meio ambiente, podem ser considerados, de certa forma, como sinistros ambientais ao identificar o comprometimento das ações humanas nas questões que afetam a resiliência dos territórios frente aos extremos climáticos. Todos previstos por diversos profissionais qualificados, que “alertaram” para as consequências, perdas e danos, como ocorreu no Rio Grande do Sul.

Exigir a proatividade dos diversos atores políticos para a adoção da cultura ambiental em políticas urbanas, embora seja uma tarefa hercúlea, pode promover mudanças significativas nos processos de decisão de governos e empresas que levem à descarbonização. Escolhas de consumo conscientes, como optar por produtos e serviços de empresas sustentáveis, incentivam o mercado a valorizar a responsabilidade ambiental, levando à integração dos critérios ESG na tomada de decisões de investimento e na gestão empresarial. A participação em movimentos sociais, engajando-se em campanhas, petições e manifestações levam não apenas à conscientização das pessoas, mas também, aumentam a pressão pública levando políticos a priorizar as questões ambientais em sua agenda, resultando na criação de novas leis e políticas públicas que promovam a sustentabilidade e a proteção ambiental.
Portanto, o apelo aos governos, às empresas e aos cidadãos torna-se ainda mais urgente. Precisamos de uma mudança de paradigma que promova a colaboração, a inovação e o compromisso comum com um futuro sustentável incluindo uma reflexão profunda sobre nossos padrões de consumo, que muitas vezes estão intrinsecamente ligados à exploração excessiva dos recursos naturais e à geração de resíduos. A transição para modelos de consumo mais conscientes e sustentáveis é fundamental para reduzir nossa pegada ambiental e mitigar os impactos negativos sobre o meio ambiente. Somente assim poderemos enfrentar os desafios da crise climática e construir um mundo mais justo, equitativo e sustentável para todos. Por fim, o voto consciente é fundamental para a mudança. Ao tomar essas ações, os cidadãos ajudam a criar uma cultura ambiental mais forte, influenciando tanto as políticas públicas quanto as práticas empresariais em direção a um futuro mais sustentável.

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Repensar as áreas urbanas é fundamental para buscar um equilíbrio que beneficie a todos

o que estamos perdendo ao priorizar o armazenamento de veículos particulares no meio da cidade em detrimento do espaço que pode ser utilizado pelas pessoas?

  • Por Helena Degreas em 17/10/2023 14h55 – Atualizado em 17/10/2023 15h14
    Texto original aqui

John Matychuk/UnsplashVisão aérea de um estacionamento

Ao visitar shopping centers, supermercados ou prédios públicos construídos no século passado, invariavelmente notamos a vastidão dos estacionamentos, extensas áreas pavimentadas que se estendem por hectares

Aguardando no ponto, a chegada do “busão”. São oito paradas até o shopping center onde deixarei meu relógio “cuco” para conserto. Datado de 1940, herança do meu pai, vez ou outra o passarinho emperra, insistindo em não piar a hora certa. Ricota e Chanel não gostam dele. Observam ansiosas o momento em que acidentalmente o pássaro sem penas distraidamente cai ao chão para que, finalmente, possam destroçá-lo. Desço no canteiro central. Entre eu e o shopping, existem alguns obstáculos a vencer: subir pela escada rolante quebrada, percorrer uma ponte coberta, descer pelo elevador ou pela escada para assim, chegando na calçada, deparar-me com um portãozinho extremamente pequeno, que me leva à entrada triunfal do edifício, depois de atravessar uma pista dupla interna destinada à circulação de veículos de carga e descarga. Acesso meu destino. Por dentro, iluminação adequada, ar-condicionado, gente andando de lá para cá freneticamente. Templo de consumo com ausência de identidade. Todos iguais, caixotes de vidro ou concreto, não importa o ornamento externo, têm em comum o fato de armazenarem veículos estacionados em volta de suas instalações. “Para que tanto estacionamento? Não é mais fácil vir de ônibus ou pedir transporte por aplicativo?”, pergunto-me.

Ao visitar shopping centers, supermercados ou prédios públicos construídos no século passado, invariavelmente notamos a vastidão dos estacionamentos, extensas áreas pavimentadas que se estendem por hectares, consumindo terra que poderia ser utilizada para propósitos mais nobres. Essas extensões de concreto comprometem não apenas a paisagem urbana, mas também causam impactos ambientais significativos, pois absorvem calor durante o dia e liberam-no à noite, contribuindo para o fenômeno das “ilhas de calor”, que elevam a temperatura das cidades. Além disso, o escoamento da água da chuva sobre o asfalto também pode causar problemas de drenagem e a contaminação do solo por óleos e outros resíduos de veículos. No Brasil, os shopping centers têm uma forma que remonta aos modelos norte-americanos, frequentemente localizados em áreas suburbanas, uma herança das cidades modernistas. Após a Segunda Guerra Mundial, houve um rápido crescimento dos subúrbios nos Estados Unidos, impulsionado pela busca de residências próprias a preços acessíveis e pelo desenvolvimento de infraestrutura viária, tornando os locais ideais para empreendimentos com grandes estacionamentos.

O princípio subjacente a essa abordagem é fortemente influenciado pelo “zoning“, que exigia a construção de estacionamentos em novos empreendimentos comerciais e residenciais, refletindo a dependência do carro, uma característica marcante da cultura estadunidense. Para quem assiste filmes e seriados de TV que mostram o estilo de vida nos Estados Unidos, “Desperate Housewives” e “American Beauty” são exemplos que retratam as vidas cotidianas e famílias que moram em bairros onde as casas são construídas em lotes individuais, com quintais espaçosos, gramados imensos e, em alguns casos, garagens anexas. São comunidades planejadas que podem incluir áreas verdes, instalações comunitárias, escolas e shoppings centers para aqueles dependentes de carro. Em contraste com a cultura europeia, que valoriza a criação de galerias e espaços públicos de qualidade em áreas centrais adensadas, nossas cidades optaram por acolher, inexplicavelmente, um modelo de projeto inadequado para áreas urbanas com farta infraestrutura e equipamentos públicos implantados. Enquanto isso, automóveis permanecem estáticos nos vastos estacionamentos. Ao contrário de pessoas, os carros não frequentam escolas, postos de saúde, acessam transporte público, recorrem a delegacias, exploram bibliotecas ou aproveitam o acesso à água, esgoto e energia elétrica. Pedaços de cidade inteiros armazenam automóveis enquanto aqueles que residem nas regiões periféricas dos centros urbanos são excluídas do acesso aos serviços públicos essenciais e que deveriam estar ao alcance de todos.

Nos últimos anos, a visão do urbanismo vem destacando a importância dos espaços livres qualificados, ou ainda, projetados para o uso público urbano e ambiental, especialmente nas áreas centrais das cidades. Parques, praças e espaços de convívio construídos em propriedades privadas, promovem a atividade física, a interação social e colaboram na redução do estresse. Incontáveis, seus benefícios levam à promoção da saúde e do bem-estar até a construção de comunidades mais fortes e unidas como venho sistematicamente abordando em minhas colunas. São locais de encontro, celebração e diálogo. São os lugares onde a diversidade da cidade se encontra e se mistura, criando um senso de pertencimento e identidade compartilhada. No entanto, muitas vezes, essas áreas são relegadas a segundo plano pelos empreendedores do mercado imobiliário voltado à criação de shoppings, supermercados e até pelas prefeituras locais. Não raro é encontrar prédios de secretarias, assembleias, departamentos diversos voltados ao atendimento da burocracia pública cercados de estacionamentos e inseridos em ambientes urbanos onde o transporte público é capaz de atender com qualidade seus colaboradores. O poder público e seus agentes, que deveriam dar o exemplo, eximem-se da responsabilidade de dar destinação adequada aos espaços ociosos ou que servem exclusivamente aos proprietários de carros.

A requalificação de áreas urbanas em benefício do espaço público não significa o fim dos carros ou da conveniência. Pelo contrário, representa uma oportunidade de repensar a alocação dos espaços e buscar um equilíbrio entre mobilidade, meio ambiente e qualidade de vida. Os estacionamentos ainda têm seu papel, mas é fundamental que empresas, sociedade e governos priorizem a criação de espaços urbanos de qualidade e que beneficiem a todos. Faz-se necessária a revisão das regulamentações urbanas e a eventual taxação para áreas de estacionamento a céu aberto em locais intraurbanos, pois não tem sentido algum que todos paguem por uma infraestrutura pública ociosa. À medida que exploramos alternativas para o futuro, é essencial considerar o potencial das áreas atualmente dominadas por veículos. A redefinição do espaço urbano, priorizando as pessoas em detrimento dos veículos, é essencial para uma cidade mais sustentável e habitável. Além disso, exemplos inspiradores de transformações urbanas centradas nas pessoas, como Medellín, Copenhague, Paris e Singapura, mostram que é possível criar ambientes urbanos mais humanos, saudáveis e vibrantes utilizando investimentos voltados para a ampliação da mobilidade ativa, do transporte de qualidade e do adensamento urbano por meio de políticas habitacionais que incentivem a diversidade social, além da retirada do asfalto para fins de permeabilização urbana. O desafio do planejamento urbano contemporâneo reside na conciliação das duas visões: a modernista e a pós-moderna, em uma abordagem integrada que repense o uso de áreas urbanas.

Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan

Espaços verdes urbanos para crianças têm poder transformador no desenvolvimento infantil

Espaços verdes urbanos para crianças têm poder transformador no desenvolvimento infantilInvestir na expansão e densificação de áreas verdes nas cidades é promover o crescimento saudável, garantindo o desenvolvimento pleno das próximas gerações

Jovem Pan > Opinião Jovem Pan > Comentaristas > Helena Degreas > 

  • Por Helena Degreas
  • 04/02/2024 08h00
  • coluna originalmente publicada para a Jovem Pan News

Standret/Freepik

Espaço verde urbano para crianças fortalece o desenvolvimento, incluindo equilíbrio motor, redução do estresse, melhor desempenho acadêmico e até mesmo menor incidência de problemas de saúde mental e física

Desde os primeiros dias de vida até a adolescência, as crianças podem colher inúmeros benefícios dos espaços verdes urbanos. O relatório “A Necessidade de Espaços Verdes Urbanos para o Desenvolvimento Ideal das Crianças” (título original The Necessity of Urban Green Space for Children’s Optimal Development: a discussion paper), publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), destaca os inúmeros benefícios dos espaços verdes na saúde e desenvolvimento infantil, assim como ações para melhorar o acesso a esses locais. Dentre as intervenções recomendadas, o texto defende a mobilização de grupos comunitários para reivindicar e zelar pelos seus espaços verdes locais, buscando o apoio do governo para a criação e aprimoramento de áreas verdes nas ruas, nos bairros e em ambientes escolares.

A definição do termo “espaço verde” ainda não é universal e, até o momento, não existem critérios mínimos internacionalmente aceitos para tais áreas em ambientes urbanos. Em sua essência, um espaço verde refere-se a uma porção de terra vegetada, abrangendo desde parques públicos e privados, a gramados, jardins residenciais e condominiais, calçadas, sistemas viários, playgrounds, terras agrícolas, terrenos abandonados, árvores ao longo de ruas, áreas adjacentes a estradas e coberturas verdes. Citei apenas alguns exemplos. Não cheguei a propor os espaços de água que incluem lagos, represas e orlas diversas. Fica para uma próxima coluna.

Embora observar um espaço verde pela janela seja benéfico para o desenvolvimento infantil, os benefícios aumentam significativamente quando as crianças dedicam algum tempo do seu dia para explorar, brincar, criar, relaxar e refletir dentro de um ambiente verde seguro. A configuração específica de um novo espaço verde (ou já existente) dependerá do contexto local, levando em consideração fatores como restrições de espaço, condições climáticas, influências culturais, preferências da comunidade e disponibilidade orçamentária. Isso pode variar desde a incorporação de uma simples árvore na rua até a criação de extensos parques públicos. É crucial que as crianças e a comunidade local participem ativamente e tenham suas vozes ouvidas em todo o processo de design. Estratégias para envolver as crianças incluem a utilização de modelos, desenhos coletivos e grupos focais, entre outras abordagens.

Estudos em várias partes do mundo (226 papers publicados em periódicos científicos foram utilizados como referência na redação do relatório da Unicef) destacam a correlação entre o acesso a áreas verdes e o desenvolvimento das crianças incluindo equilíbrio motor, redução do estresse, melhor desempenho acadêmico e até mesmo menor incidência de problemas de saúde mental e física. A importância da integração efetiva dos espaços verdes em ambientes urbanos densos é inquestionável e vem sendo posta em prática em diversas prefeituras.
Exemplos globais inspiradores, como o modelo de Singapura, Londres (Inglaterra), Buenos Aires (Plano BA Cidade Verde), além de Bogotá (Colômbia), mostram como é possível integrar efetivamente espaços verdes em ambientes urbanos densos. Parques, jardins em sistemas viário, redução do número de áreas de estacionamento rotativo substituídos por corredores arborizados e até mesmo telhados verdes tornaram-se partes essenciais da paisagem urbana, proporcionando oportunidades valiosas para as crianças conectarem-se com a natureza.

O documento aponta ainda alguns desafios nas questões relacionadas à facilidade com que as pessoas podem acessar e utilizar os serviços ou espaços existentes nas áreas verdes considerando as necessidades de específicas das pessoas fazendo um apelo para que as autoridades municipais ajam em resposta a esses desafios. Em muitos casos, a acessibilidade permanece como um grande desafio: distância, barreiras físicas e a falta de conscientização de pessoas e de empresas e mesmo das prefeituras limitam a capacidade das crianças, especialmente nas comunidades de baixa renda, de desfrutarem desses ambientes saudáveis. Neste momento, a atuação municipal eficaz na eliminação dos problemas por meio da escuta às reivindicações das crianças, seus principais usuários, é crucial para a transformação do local num ambiente vibrante, cheio de vida.

Destaco aqui algumas recomendações que podem servir de inspiração aos senhores prefeitos das cidades brasileiras:

  • É imperativo que os municípios incorporem espaços vegetados em todos os projetos de desenvolvimento urbano, integrando áreas de lazer, praças e parques como componentes essenciais do planejamento urbano. A acessibilidade universal, obrigatória não apenas pelo atendimento das leis e regulamentações urbanas, mas também como respeito à dignidade do cidadão, devem ser promovidas por meio da redução das distâncias e implementação de trilhas e caminhos seguros, criando corredores verdes que conectam áreas urbanas, estabelecendo uma rede verde acessível a todas as crianças;
  • Prefeitos devem lembrar-se que, embora trabalhosos na execução, o envolvimento dos usuários locais é importantíssimo no sucesso da criação dos espaços verdes por meio da participação ativa da comunidade no planejamento e manutenção de espaços verdes pois fortalece o senso de pertencimento por meio de atividades como plantio de árvores e limpeza levando à garantia de sucesso na manutenção do local. Os usuários conhecem melhor do que qualquer burocrata e tecnólogo o que importa para a melhoria do local;
  • Oferecer incentivos fiscais a empresas que adotam práticas sustentáveis, como inclusão de áreas verdes em projetos, beneficia as crianças e contribui para a saúde geral da comunidade. A promoção de zonas livres de carros e de seus estacionamento em ruas melhora a segurança e cria ambientes propícios para atividades ao ar livre, especialmente essenciais para garantir espaços seguros para as brincadeiras das crianças.

Em síntese, o relatório destaca a ligação inseparável entre cidades sustentáveis e o bem-estar das crianças, sublinhando a importância do papel desempenhado pela ação municipal na criação de ambientes urbanos propícios à saúde e ao desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes. Assegurar acesso equitativo a espaços verdes em toda a extensão da cidade, abrangendo desde as áreas centrais até as periferias, é uma responsabilidade compartilhada entre poder público, cidadãos, associações e empresas. Ao incorporar a arborização e a vegetação urbana nas estratégias de planejamento, as cidades não apenas investem no presente, promovendo a saúde e a felicidade das crianças, mas também moldam um futuro sustentável para toda a cidade. 

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Como seriam as cidades projetadas pelas crianças? Uma reflexão sobre mobilidade urbana e cidadania ativa

Transformação do espaço público através da visão única e criativa dos pequenos é o desafio proposto pelo Instituto Corrida Amiga, que reimagina o tecido urbano e traz a perspectiva infantil para o centro do debate

Transformação do espaço público através da visão única e criativa dos pequenos é o desafio proposto pelo Instituto Corrida Amiga, que reimagina o tecido urbano e traz a perspectiva infantil para o centro do debate

Por Helena Degreas para a Jovem Pan News
20/01/2024 08h00

Espanha e Portugal já realizam experiências com a participação de crianças em projetos urbanos

As crianças possuem uma maneira especial de enxergar o mundo. Suas mentes curiosas não são limitadas por convenções, permitindo-lhes sonhar com possibilidades ilimitadas O Instituto Corrida Amiga propõe uma abordagem inovadora ao pensar nas cidades a partir da mobilidade urbana ativa, buscando alterar a forma como nos movemos e transformar nossa relação com o ambiente urbano. O relatório “Diagnóstico: A Cidade sob o Olhar das Crianças A Partir da Mobilidade Urbana” teve o apoio do programa CAU Educa (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil) e destaca o papel crucial de crianças e jovens como agentes de transformação, visando um futuro melhor para toda a sociedade. Ao focar na mobilidade ativa, as atividades envolveram reflexões sobre o papel do espaço público na promoção da saúde e bem-estar

A caminhabilidade e o ciclismo não são apenas formas de se locomoção, mas meios para a construção de uma comunidade mais conectada e consciente, pois estimulam a interação com as pessoas e tudo o que está à sua volta. É uma resposta aos princípios adotados pelo urbanismo modernista, que, consolidados no século XX, promoveram, pelo zoneamento funcional, a segmentação de espaços urbanos para atender a diferentes necessidades, resultando na criação de áreas específicas destinados a públicos específicos. É como se os locais destinados às crianças fossem apenas os parques, cabendo aos idosos, por sua vez, os bancos de jardins existentes em praças. Cada um no seu lugar, como se a vida urbana pudesse ser dividida em atividades definidas por tecnocratas. Apesar de visar à eficiência no funcionamento das cidades, essa especialização colaborou com a segregação social e limitou a interação intergeracional, fragmentando a cidade em um conjunto de espaços distintos para funções específicas. Atrelado a estes princípios, o urbanismo motorizado destruiu a fluidez do andar, do caminhar, do flanar como prazer estético, sem pressa, priorizando a fluidez e eficácia do trânsito automotivo, e redefiniu os espaços dos caminhantes em calçadas e faixas de pedestres, entupindo a paisagem urbana com sinalizações voltadas à segurança viária.

Se as crianças fossem urbanistas, priorizariam espaços públicos como elementos essenciais, promovendo interação social. A segurança emocional seria prioritária, com espaços inclusivos e acessíveis. A ideia de acesso à cidade seria ampliada, eliminando barreiras econômicas no transporte público. Educação para mobilidade ativa seria parte do currículo, preparando gerações futuras para cidadania comprometida. A segurança seria prioridade, não apenas em termos de tráfego, mas também no sentido emocional. Espaços públicos seriam projetados para serem inclusivos, acolhendo a diversidade de todas as crianças. A acessibilidade seria a norma, garantindo que todos, independentemente de suas habilidades físicas, pudessem desfrutar plenamente de todos os locais que hoje estão ocupadas por carros. 

A ideia de acesso e direito à cidade, muitas vezes negligenciada, ganha destaque nessa visão alternativa. Se as crianças fossem as planejadoras, o acesso à cidade não seria restrito, mas ampliado. As crianças, ao serem envolvidas nesse processo de transformação, tornando-se agentes ativos em suas comunidades, aprendendo, desde cedo, sobre a importância da mobilidade consciente e como suas escolhas impactam não apenas a si mesmas, mas toda a cidade. A educação para a mobilidade ativa se torna parte integrante do currículo escolar, preparando as gerações futuras para serem cidadãos comprometidos e participativos.

A participação infantil seria uma prática real, por meio de conselhos e projetos participativos, influenciando políticas públicas. Oficinas e consultas seriam processos contínuos. A participação em projetos urbanos seria um direito, reconhecendo a experiência única das crianças. Experiências como esta já existem em outros países como Portugal e Espanha. Nesse contexto, iniciativas bastante relevantes e promissoras envolvendo a participação das crianças e adolescentes — e suas experiências e vivências na cidade — já são realidades. O diagnóstico apresentou o projeto “A Cidade das Crianças”, onde em Valongo, Portugal (2022), foi realizada uma sessão do “Conselho das Crianças”, na qual o poder público português incluiu, em seu planejamento urbano, a visão das crianças.

Outro exemplo citado foi a criação de “Conselhos Infantis” em Rosário, na Argentina, que tem por objetivo, levar melhorias urbanas locais a partir da sugestão de seus principais usuários: as crianças. A maneira como elas experimentam a cidade exerce uma influência significativa em sua infância. Repensar a mobilidade urbana com base na visão infantil é uma provocação à imaginação e uma chamada à ação. Um lugar projetado por crianças investe no futuro, construindo cidadãos comprometidos, saudáveis e plenamente engajados na vida urbana.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

Quais são os desafios e oportunidades que nos aguardam em 2024 na busca por um desenvolvimento urbano sustentável?

Sustentabilidade, resiliência climática e inclusão social são alguns dos temas que ocuparão as manchetes dos principais meios de comunicação no ano recém-iniciado

Por Helena Degrea 06/01/2024 09h00 para a Jovem Pan News (texto original)

EDI SOUSA/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO – 03/01/2024Pedestres enfrentam a primeira chuva de verão do ano de 2024, no fim de tarde desta quarta-feira (3), na região central de São Paulo

Planejadores urbanos e gestores públicos devem preparar cidades para enfrentar e mitigar impactos dos extremos climáticos

As discussões previstas na Agenda Urbana Internacional para o ano de 2024 (e que se estenderão para a próxima década) apontam para cinco temas que ocuparão as manchetes dos principais meios de comunicação e que visam o planejamento de cidades mais sustentáveis, inclusivas e resilientes. Espera-se de gestores e técnicos públicos: 

Sustentabilidade urbana

O crescimento inevitável das áreas urbanas destaca a imperatividade dos governos investirem no desenvolvimento de políticas públicas e estratégias com ações que visam causar o menor dano possível aos ecossistemas, recursos naturais, biodiversidade e à qualidade do ar, água e solo. Ao promover políticas e práticas ecoeficientes, governos estimulam ambientes urbanos ecologicamente equilibrados e saudáveis. Investir em energias renováveis, desenvolver sistemas de transporte público integrado com a inclusão dos modais ativos e adotar políticas de gestão inteligente de resíduos são algumas das medidas concretas nesse caminho. Essas iniciativas não apenas respondem ao desafio ambiental, mas também contribuem para o desenvolvimento sustentável das áreas urbanas, garantindo uma qualidade de vida mais elevada para seus habitantes.

Resiliência climática e adaptação

Com as preocupações crescentes em relação aos impactos causados pelas mudanças climáticas que recaem sobre a população, as cidades (seus planejadores urbanos e gestores públicos) devem se preparar para enfrentar e mitigar impactos adversos. Embora afetem todos os cidadãos, os impactos recaem, sobremaneira, sobre a população mais pobre que reside em áreas distantes dos centros e cuja infraestrutura é, comumente, precária. Adaptação dos sistemas de drenagem e gestão de águas pluviais, infraestrutura de abastecimento de água e saneamento, transporte público e mobilidade urbana, parques e áreas verdes urbanas, estruturas costeiras e portuárias, redes elétricas e de energia deverá sofrer adaptações para sua eficiência e eficácia para fortalecer a resiliência das cidades diante dos desafios climáticos emergentes, garantindo a segurança e qualidade de vida dos habitantes urbanos.

Inovação tecnológica e cidades inteligentes

Avanços tecnológicos oferecem a oportunidade única de transformar as cidades em ecossistemas inteligentes a partir da integração de tecnologias emergentes, como a Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial, otimizando serviços urbanos e melhorando a qualidade de vida dos cidadãos. Aplicações como gestão inteligente de tráfego e transporte, monitoramento ambiental, e planejamento urbano baseado em dados, considerando padrões climáticos futuros, são algumas das diversas possibilidades que melhoram a qualidade de vida. O uso inteligente de água com integração de sensores para monitoramento do consumo em tempo real, sistemas de irrigação adaptáveis às condições climáticas, gestão inteligente de resíduos por meio da implementação de sistemas de coleta de lixo que otimizam rotas com base na demanda, reduzem a emissão de poluentes. A mobilidade sustentável e sistemas de transporte, quando conectados e interativos, oferecem informações por meio de aplicativos e plataformas em tempo real sobre transporte público, permitindo aos cidadãos planejar rotas eficientes e reduzir a dependência de veículos individuais, contribuindo para a redução das emissões de carbono. Outo exemplo é a gestão eficiente de redes de energia com a implementação de redes elétricas inteligentes que ajustam automaticamente a distribuição de energia com base nas demandas sazonais e das condições climáticas locais. E, por fim, sensores urbanos para monitoramento ambiental para identificar padrões de poluição e alertar sobre eventos climáticos extremos.

Inclusão social e equidade

Diante das desigualdades sociais evidentes em muitas áreas urbanas, os próximos anos exigirão um esforço conjunto entre gestores e técnicos públicos dos três entes federativos, empresas e população para garantir o acesso universal à moradia, à infraestrutura urbana, equipamentos e serviços públicos e o fortalecimentos dos instrumentos adequados para a participação de grupos sociais diversos na tomada de decisões sobre a gestão das intervenções necessárias à realidade local. O urbanismo local, que afeta o cotidiano das pessoas, precisa se integrar ao planejamento urbano generalista, que muitas vezes ignora as necessidades cotidianas. Planos de bairro e planos de rua precisar ingressar na prática de gestão urbana municipal. 

Governança urbana participativa

A participação cidadã na tomada de decisões urbanas é crucial para assegurar representação diversificada e transparente. O desafio é fortalecer instituições governamentais urbanas para garantir governança eficaz, transparente e responsável. Estimular a participação cidadã, fortalecer instituições de controle social e garantir a transparência governamental são passos fundamentais nesse percurso por meio do desenvolvimento de plataformas online e aplicativos que permitem aos cidadãos relatar problemas ambientais em tempo real, como pontos de alagamento ou áreas com poluição do ar, por exemplo.

Complexos e interligados, os temas voltados ao cumprimento das metas presentes na Agenda 2030 refletem a busca por soluções que permitam que as cidades prosperem diante de desafios globais. Ao adotar estratégias ambientais, fomentar inclusão social e garantir transparência e participação cidadã na governança pública, as cidades fortalecem a resiliência e constroem comunidades sustentáveis. A busca pela sustentabilidade urbana não apenas promove eficiência e resiliência, mas também compromete-se a distribuir equitativamente os benefícios, trilhando o caminho de um futuro mais justo e sustentável para todas as pessoas.

Tem alguma dúvida ou quer sugerir um tema? Escreva para mim no Twitter ou Instagram@helenadegreas.

Podcast: Praças e hortas nas alturas? Como as cidades estão criando novos usos para seus antigos telhados

Sou Helena Degreas e hoje vou comentar a coluna que escrevi nesta semana para a Jovem Pan News chamada de Praças e Hortas nas alturas ou ainda sobre como as cidades estão criando novos usos para seus antigos telhados. Ao transformar em espaços habitáveis para as populações, estas coberturas de edifícios permitem a incorporação de mais metros quadrados para recreação, lazer e até mesmo produção de hortas, pomares e miniflorestas urbanas. A coluna encontra-se neste link: bit.ly/3ndrJ0r

Como serão as cidades após a pandemia da Covid-19

Construir habitações e comércios distantes das áreas inundáveis e prover saneamento básico em regiões periféricas podem reduzir os riscos associados à transmissão de doenças contagiosas

Helena Degreas/Jovem PanA população mais afetada pela Covid-19 é justamente aquela que reside em locais mais distantes dos centros urbanos e utiliza o transporte público

Pestes, epidemia e pandemias foram responsáveis pelas mudanças na maneira como vivemos nas cidades. Fatores associados à saúde humana e ao urbanismo estão intimamente ligados ao planejamento de políticas públicas relacionadas à forma urbana e à implantação de infraestruturas sanitárias. Historicamente, aquedutos subterrâneos ou sobre a superfície foram construídos para conduzir água potável para as civilizações da antiguidade. Os romanos conseguiram desenvolver um sistema de abastecimento que envolvia 11 aquedutos tendo, o maior deles, cerca de 90 km de extensão. Ruas drenadas e pavimentadas, latrinas, cisternas, banheiras, instalações hidráulicas foram encontradas em ruínas civilizatórias que datam de mais de 3 mil anos antes de Cristo na Índia, Paquistão, Mesopotâmia e Egito

Hipócrates, conhecido como o patrono da medicina, descreve em seu tratado “Aeron Hidron Topon” as relações causais entre fatores relacionados ao meio físico e doenças  — ou ainda entre questões sanitárias e saúde da população  —, classificando as águas para uso humano e recomendando ao povo grego o afastamento da sujeira e a utilização de água pura para consumo. Vários outros exemplos sobre formulação de políticas públicas sanitárias adotadas ao longo dos séculos de constituição das cidades podem ser citados: desde a criação de espaços livres como praças e parques, para atender aspectos sociais e ambientais, até a definição de critérios técnicos como projeto, construção, licenciamento, fiscalização, manutenção, monitoramento e localização de cemitérios visando impedir a contaminação da qualidade do solo e das águas subterrâneas por eventual infiltração dos fluidos decorrentes do processo de decomposição dos corpos.

A peste bubônica levou ao planejamento de espaços públicos mais amplos, limpos e saudáveis. No renascimento, esboços de Leonardo da Vinci apresentam a Cidade Ideal formada por um conjunto de vias reticulares, edifícios com altura e densidade adequadas à dimensão das ruas para garantir boa luminosidade e ventilação, além de sistemas de esgotos e distribuição de água potável à população. A adoção de critérios sanitários para o planejamento de uma cidade com foco nas boas condições de insolação e ventilação (organização de espaços públicos projetados para acolher a circulação de pessoas e mercadorias), a definição da localização de habitações e comércios distantes das áreas inundáveis e a previsão de sistemas de esgoto e abastecimento de água potável criaram as condições sanitárias para a redução de riscos associados à transmissão de doenças contagiosas. Não é nenhuma novidade. 

De Leonardo da Vinci aos dias atuais, estas são algumas das práticas de planejamento e projeto que devem ser seguidas. Mas como ficam as regiões periféricas nos grandes centros urbanos? Se quisermos tratar nossa população e evitar as transmissões do novos vírus que ainda estão por vir, precisaremos implantar os conceitos de cidade ideal nestas regiões urgentemente. Melhorias e instalação de infraestrutura e equipamentos públicos em regiões centrais são recorrentes nos meios de comunicação: pistas cicláveis, alargamento de calçadas, parklets, jardins de chuva, muros verdes, entre outros programas e projetos “sustentáveis”, espalham-se em bairros nobres. Na cidade de São Paulo, é possível pesquisar informações como estas na plataforma GeoSampa.

No Brasil, as profundas desigualdades sociais materializam, na paisagem, extensas periferias que abrigam cidadãos precariamente. Muitos à margem das regulações urbanísticas e outros em aglomerações subnormais (favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, loteamentos irregulares, mocambos e palafitas) moram em assentamentos irregulares e são marcados pela carência de serviços públicos essenciais como o de abastecimento de água, coleta de esgoto, coleta de lixo e fornecimento de energia elétrica. A ausência de ações concretas para o pronto atendimento de demandas, muitas delas sanitárias, afeta negativamente a vida de 5,17 milhões de domicílios distribuídos em 13.151 aglomerações em todos o país. 

A distribuição desigual de serviços públicos e infraestruturas nas cidades são características marcantes das políticas públicas urbanas e, quando analisado critério de localização no território urbano, é possível constatar que a alta incidência de infecção e mortes ocorre de maneira desigual: a população mais afetada é justamente aquela que reside em locais mais distantes dos centros urbanos e utiliza o transporte público como meio de locomoção e, mais recentemente, de contaminação pela Covid-19. A arquiteta e urbanista Raquel Rolnik (professora da FAU-USP e do LabCidade) aponta a desigualdade como fator decisivo para determinar a população mais vulnerável ao contágio do coronavírus no Brasil. Destaca que são os trabalhadores de serviços essenciais, entre outros, que, ao viabilizar o isolamento social de parte da sociedade, são os primeiros a se contaminar graças às aglomerações que ocorrem nos vagões de trensmetrôsônibus e vans

A revisão do processo de planejamento urbano deverá atender e assegurar uma melhor distribuição de serviços, equipamentos públicos e infraestrutura de forma equitativa em território priorizando suas ações nas áreas periféricas e nos aglomerados subnormais. Planejar cidades resilientes a eventos extremos climáticos e sanitários, como este que estamos enfrentando agora, significa que prefeitosvereadores e técnicos públicos voltem suas ações para a promoção de moradias em áreas com infraestruturas e equipamentos públicos consolidados e conectados a um sistema de mobilidade urbana (modo ativo e motorizado público) eficiente, inclusivo e eficaz para a sociedade. 

Jardins verticais: do prazer estético à redução dos impactos ambientais urbanos

Quando inseridas em políticas públicas ambientais, essas estruturas têm poder de melhorar a qualidade do ar, diminuir a temperatura, gerar empregos e contribuir para economia circular de baixo carbono

  • Por Helena Degreas
  • 23/03/2021 09h00 – Atualizado em 23/03/2021 10h06

Helena Degreas/Jovem PanA parede verde é um dos recursos que podem ser utilizados como estratégia para a melhoria da qualidade de vida e saúde da população

Jardins verticais, paredes verdes ou paredes vivas são alguns dos diversos termos utilizados para designar sistemas de painéis de plantas cultivadas verticalmente em estruturas que podem ser independentes ou presas às paredes. As técnicas de plantio mais comuns são aquelas em que os elementos vegetais são plantados em floreiras que recebem composto orgânico. Inventor do Mur Végétal, o botânico e garden designer Patrick Blanc patenteou a técnica há 30 anos e, desde então, projetou e implantou inúmeras das suas criações em todo o mundo. Em parceria com o arquiteto francês Jean Nouvel, ele ajardinou a fachada do condomínio residencial One Central Park, na Austrália, alcançando 50 metros de altura e transformando-o num dos jardins mais altos do mundo. Foram utilizadas mais de 85 mil plantas nas fachadas distribuídas entre 23 paredes verdes com cerca de 350 espécies nativas e exóticas em 1.200 m² de área. Vale lembrar que os jardins verticais não são novidade, ao menos aqui em nossas terras. No Brasil, Burle Marx (1909-1994) e Haruyoshi Ono (1944-2017) já realizavam painéis verticais ajardinados em muros belíssimos, verdadeiras obras de arte urbana há décadas, com inúmeros projetos mesclando água, grafismos e vegetação, como o mural do Banco Safra localizado na avenida Paulista

Embora para a maioria da população o uso dos elementos vegetais em fachadas de edifícios e muros tenha um valor predominantemente estético, para prefeitos de cidades compactas, densamente construídas e cujo espaço livre público é exíguo, o plantio vertical é um dos recursos que podem ser utilizados como estratégia para a melhoria da qualidade de vida e saúde. Se atualmente mais da metade da população vive em áreas urbanas, estima-se que, até 2050, 66% das pessoas morarão em cidades. No Brasil, este número já alcança 84.72%, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2015. Enfrentar e prevenir problemas ambientais, atuais e futuros, que causem não apenas riscos urbanos, mas também danos à saúde da população, fazem-se urgentes nas cidades.

Os benefícios na implantação dos ajardinamentos em paredes, fachadas e muros são diversos:

  • Ambientais: reduzem as temperaturas por meio da absorção da luz solar, absorvem os gases poluentes da atmosfera e filtram a poeira do ar externo, bloqueiam cerca de 40% dos sons de alta frequência externos e aumentam a biodiversidade, atraindo pássaros e insetos por causa dos frutos;
  • Econômicos: melhoram o comércio local  — as pessoas tendem a ficar mais tempo em áreas ajardinadas  —, fornecem isolamento térmico, reduzindo a demanda por energia, e geram empregos locais, pois, para a sua manutenção, são necessários profissionais diversos;
  • Saúde: reduzem o estresse provocado pelos ambientes urbanos e induzem a passeios e caminhadas ao ar livre.

Como exemplo de boas políticas ambientais vinculadas à gestão pública municipal, a Secretaría Distrital del Ambiente (Secretária do Meio Ambiente, em tradução livre) da cidade de Bogotá desenvolveu uma série de programas e projetos de cunho ambiental, com metas e indicadores que deverão ser cumpridos em prazos definidos e que buscam benefícios ambientais, econômicos e estéticos urbanos. Pretende-se, com todo esse aparato institucional, levar a cidade a ser cada vez mais resiliente às consequências resultantes dos extremos climáticos por meio da constituição de uma infraestrutura verde. Os jardins verticais constituem-se, portanto, em um dos elementos que promovem e ampliam a infraestrutura verde, desempenhando papel significativo para a mitigação das mudanças climáticas. Um dos manuais que orientam a implantação desta solução encontra-se disponível em seu site.

O prefeito de Londres, por sua vez, fez consulta pública perguntando à população quais as demandas para uma cidade com mais qualidade de vida. A partir do feedback, foi criada uma estratégia ambiental integrada, reunindo abordagens para aspectos urbanos que demandavam soluções urgentes, tais como melhoria na qualidade do ar, infraestrutura verde, mitigação da mudança climática, desperdício, adaptação às mudanças climáticas, ambiente barulhento e inclusão de incentivos ao desenvolvimento de uma economia circular de baixo carbono direcionado a empresas e prestadores de serviços. 

Já na cidade de São Paulo, ações pontuais realizadas pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA) foram realizadas para a instalação de jardins verticais em edifícios com “paredões sem janelas” por meio de chamamento público para edifícios vizinhos ao Elevado Costa e Silva (Minhocão) e previamente selecionados pela Câmara Técnica de Compensação Ambiental (CTCA). As empresas interessadas em adotar esses “paredões” poderiam se beneficiar com a conversão da compensação ambiental em obras e serviços, jardins verticais e coberturas verdes na capital e que constam do Decreto n° 55.994. Empresa ou munícipe que deseje realizar obras ou reformas envolvendo corte ou transplante de árvores pode se utilizar do Temo de Compromisso Ambiental para construir jardins verticais em qualquer lugar na capital. Em outras palavras, é possível derrubar várias árvores que estão no terreno em que você pretende construir e, em seu lugar, oferecer à cidade um jardim vertical. Como será que isso é calculado? O fato é que os moradores dos edifícios escolhidos pelas empresas e pela CTCA para a instalação dos jardins verticais entraram na Justiça para a sua remoção por falta de manutenção. Prefeitura e empresa alegaram que o desmonte estava previsto em contrato. Os gastos com foram arcados pela prefeitura da cidade. Entendo que o custo de todo esse processo deva ser da iniciativa privada que o instalou, nunca do poder público, especialmente se foram utilizados por meio de benefícios previstos pelo Termo de Compromisso Ambiental (TCA). 

Não coordenados adequadamente, este decreto e demais instrumentos legais previstos pela Prefeitura de São Paulo compõem apenas um conjunto de bons instrumentos legais que podem, eventualmente, ser de interesse de algum munícipe ou empresa interessada em mitigar danos ambientais. É nesse contexto que jardins verticais, muros verdes e demais tipos espaciais se realizam: sem metas, sem continuidade. Embora parte de uma série de medidas legais voltadas às questões ambientais para a ampliação de áreas verdes urbanas, observa-se que a ausência de metas e indicadores da eficácia na produção sistemática de novos tipos espaciais que compõem a infraestrutura verde municipal geram resultados pífios, que não correspondem à importância que exercem as ações ambientais na qualidade de vida e de saúde do cidadão. 

Pandemia muda a forma como os governos tratam os espaços públicos

Atualmente, a regra é caminhar com uma boa distância entre as pessoas, mas como fazer isso em cidades cujas calçadas são estreitas?

  • Por Helena Degreas
  • 14/12/2020 14h56 – Atualizado em 14/12/2020 16h030

Conceito de calçada deve ser repensado como um espaço de locomoção que precisa ser projetado pelo corpo de profissionais das prefeituras

Com o avanço da contaminação provocada pelo coronavírus, prefeitos do mundo todo adotaram planos para o distanciamento físico da população como ação necessária para proteger os cidadãos em espaços públicos. Cones, fita e tinta são alguns dos instrumentos utilizados para viabilizar o distanciamento social imposto pela Covid-19. Se no século passado bairros inteiros foram cortados por ruas e avenidas para expandir a malha de circulação do automóvel particular, reservando uma estreita faixa para a locomoção do pedestre, o século XXI é marcado por ideais de sustentabilidade que impactam a mobilidade dos centros urbanos. “Cidades pensadas para pessoas” deveria ser o lema dos gestores públicos brasileiros e, em especial, prefeitos. Mais do que “calçamento de pedras sobre via de terra”, o conceito de calçada deve ser repensado como um espaço de locomoção que precisa ser projetado pelo corpo de profissionais das prefeituras e mantido pelo poder público. Há cidades que não exigem projeto assinado por profissional engenheiro ou arquiteto para a realização de calçadas. O resultado é esse que vivemos em nosso dia a dia.

Não tem mais sentido que os proprietários dos lotes em frente a esse espaço escolham os pisos e mudas que irão “adornar” o caminho dos brasileiros. Trata-se de uma prática que transforma calçadas em locais sem nenhuma garantia de segurança. As prefeituras deveriam prover calçadas confortáveis para suprir as necessidades de todos os cidadãos, independentemente de suas habilidades físicas, pensadas e sinalizadas para garantir não apenas segurança, mas também possibilidades para desfrutar dos mais distintos trajetos de forma prazerosa. Caminhar é a forma mais natural, saudável e econômica de uma pessoa locomover-se. É ter assegurado o direito de acessar áreas de lazer, comércios, parques, restaurantes enfim, viver a sua vida urbana de forma plena, sem restrições.

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O ano de 2020 marcou uma mudança na forma como os governos estão tratando os espaços livres públicos. Atualmente, a regra é viabilizar o caminhar com uma boa distância entre as pessoas. É difícil, somos seres sociais: gostamos da proximidade física, de trocar ideias, tocar. Mas como um cidadão consegue distanciar-se cerca de cinco passos do outro em cidades cujas calçadas são estreitas? Como é possível em tão curto espaço de tempo modificar o sistema viário com o objetivo de garantir ao cidadão a distância necessária para evitar o contágio?

Prefeitos de cidades como Berlim, Milão, Dublin, New York e Lima criaram extensões ao longo das calçadas com o objetivo de ampliar os espaços disponíveis para a circulação segura de pedestres e ciclistas. Ao excluir áreas de estacionamento de automóveis ou ao eliminar uma das faixas do sistema viário, ampliaram as calçadas utilizando cones, tachões, fitas e tinta no chão, por exemplo. Trata-se do uso de alguns dos instrumentos utilizados pelo urbanismo tático: mudanças rápidas e de baixo custo. Em Paris, a prefeita Anne Hidalgo implementou 650 km de ciclorrotas, enquanto à época o vice-prefeito de Milão, Marco Granelli, iniciou o programa “Ruas Abertas” requalificando e expandindo calçadas e implantando uma malha ciclável e uma rede caminhável em toda a cidade. Em entrevista, ele afirmou que se todos continuassem a dirigir seus carros, não haveria espaço disponível para as pessoas e, por consequência, haveria pouco espaço para a existência de atividades comerciais previstas em ambientes externos, prejudicando o comércio e a economia local. A qualidade de vida do cidadão está diretamente relacionada à qualidade do espaço público que o cerca. Nossas vidas não acontecem apenas dentro dos edifícios. Passear pela cidade sem roteiro pré-determinado, experienciar o prazer de observar lugares e pessoas e sentir o gosto de descobrir novidades em cada esquina é parte da vida pública. Trata-se de civilidade, respeito e consideração para com as pessoas. A cidade é feita para as pessoas.

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