Ploft: o tombo

Fonte: Portal Acesse
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de dois braços e mãos esticados, como numa sombra, refletida na calçada. Fim da descrição.

Por: Helena Degreas 

Acordo, abro a janela, sinto a brisa fria da manhã e vejo aquele céu azul profundo que só o outono pode nos propiciar. Coloco a coleira da Ricotinha (minha pitbull branca e rosa) e vou passear. Quero ver pessoas. Quero caminhar. Sinto falta. Depois de atravessar as inúmeras grades do prédio onde moro, alcanço enfim, a última gaiola de vidro que só abre com a autorização da criatura uniformizada em azul-marinho que aperta o botão. “Vai sair doutora?”, ele pergunta. Juro que pensei em responder com meia dúzia de desaforos, do tipo: “claro que não! Estou aqui porque sinto prazer em ver as pessoas livres lá fora”, mas, em nome da civilidade matinal, e, tentando não assustar a Ricotinha, rosnei um sim.

Soltas da gaiola de vidro, fomos explorar o mundo lá fora. Vejo o andamento das obras do metrô. Impressionante o ritmo dos negócios públicos. Minha filha estava no finalzinho do curso médio quando tudo começou. Hoje, já tem um mestrado finalizado nas costas. Lembro-me de todas as fases. A desapropriação dos imóveis. A demolição de cada uma daquelas histórias de vida encerradas em casas, lojas, prédios. O arquivamento forçado de minhas memórias. O sumiço da paisagem reconfortante.

Logo no começo, vieram os transtornos. No mais autêntico jeitinho brasileiro de construção civil e planejamento viário, ou ainda, ‘tentativa e erro’, os doutores do trânsito, dos engarrafamentos municipais e das obras eternas estaduais foram alterando o sentido das ruas autocraticamente para facilitar a vida do cidadão automóvel, é claro.

Os pedestres? Ora, os pedestres…. Os moradores? Ora, os moradores e suas necessidades…

Para quem não sabe o significado de calçadas, por favor perguntem ao São Google. Lá poderão encontrar desde ‘rua ou caminho revestido de pedras’ à ‘faixa destinada ao trânsito de pedestres e animais’. Taí. Gostei. Sou mais a última definição. Tem mais a minha cara: trânsito de pedestres (Ricotinha) e animais (eu) … E completando: automóveis (carro-cidadão contemporâneo com tratamento V.I.P) cuja locomoção livre de obstáculos por meio de pistas lisinhas e paradinhas breves em frente a obstáculos como faróis são, por princípio modernista, evitadas a qualquer custo. Conforto total para o motor cansado de tanto rodar por aí…

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A calçada quebrada em frente à obra do metrô Oscar Freire. Fim da descrição.

Afasto meus pensamentos cinzentos e retorno ao passeio. Caminho em direção à esquina do futuro metrô. Duas faixas de carro foram eliminadas para ampliação das calçadas. Por que ampliaram as calçadas? Bom-senso dos engenheiros, arquitetos, prefeito ou governador? Doce ilusão a minha. Avançaram com os tapumes da obra sobre ela. Desvio dos blocos de concreto que foram largados sobre o meio fio e engaiolam os pedestres no passeio estreito.

Desvio do carrinho de compras. Todos desviando de mim. Por que será? Lembrei-me…. Estou com minha petbullzinha. Mesmo na coleirinha de strass, todos me olham ressabiados. Ok, penso. Se a calçada resultante das obras tivesse ao menos a largura para duas pessoas andando lado a lado, eu poderia me afastar um pouco. Calma, Helena. Você não está em Londres. Não está em Paris. Não está em Montevideo, Buenos Aires, Berlin, Madrid, Santiago e um monte de outros lugares. Você está num dos metros quadrados mais caro da cidade de São Paulo. Lembre-se, Helena: calçada é o espaço destinado a animais e pedestres…. Mentira: Ricota não consegue andar livremente. Nem eu. Sossegue seus pensamentos, Helena. Retorne ao passeio.

Vejo dois carrinhos disputando o mesmo espaço que eu: o da nova inquilina do quarto andar com seu bebê e sua babá, além do mais tradicional, sóbrio, de feira cheio de flores coloridas e pequenas junto com a Dona Veridiana que, como toda manhã ensolarada, vai ao mercadinho. Uma bicicleta e vários funcionários do metrô depois, estamos todos empilhados sobre uma esquina ridícula que, só não nos deixa numa situação mais indigna, porque tem a tal ‘rampa de acesso’. Para onde? Certamente para o próximo obstáculo: o canteiro central da Avenida Rebouças. Vamos lá, Helena. Bom humor! Logo, logo, depois de exercitar a tolerância, virtude há muito esquecida por minha humanidade, no aguardo de dois faróis, você conseguirá atravessar as seis faixas destinadas ao cidadão automóvel e, logo depois, ao seu destino final: a outra calçada. Imbuída do mais sincero sentimento de empatia pela raça humana urbana, aguardei a passagem e a travessia de todos. Foram dois faróis. Três minutos cada um. Mais a movimentação daqueles corpos se ajeitando nas calçadas. Lentos… muito lentos… e eu querendo passear. Ricotinha já estressada em busca do matinho mais próximo. Pela cara dela, qualquer um serviria. Desconhecidos humanos continuavam chegando e se empilhando na esquina. E eu, em respeito, me afastando com meu pet para deixá-los passar.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. Esquina da rua Oscar Freire. Vemos a faixa de pedestres e os tapumes da obra. Fim da descrição.

Como que possuída por uma raiva, um sentimento intenso de sobrevivência, peguei Ricotinha no colo (20 kg) e decidi passar no meio daquele monte de gente, para alcançar ao menos o canteiro central. Já estava lá a uma eternidade. Como raposa, observei o farol. Saquei o celular, contei os segundos e, preparada para a maratona, esperei.

Sinal verde para o pedestre: com o cachorro no colo, corri como louca. Numa conversão proibida, fui surpreendida por um caminhão.

PLOFT!

Com o susto, caí rolando sobre a faixa de pedestres até o canteiro central. Interessante a reação das pessoas: os funcionários da CET riram de soslaio. O motorista transgressor, gritou impropérios. As pessoas que aguardavam no ponto de ônibus, incluindo o motorista, gargalhavam. Vi um jovem sacando o celular para fotografar: devo ter virado sucesso nas redes sociais. Os colaboradores do metrô: impassíveis. Meus vizinhos, nem aí. Tipo: sei lá quem é ela. Ricotinha, assustadíssima, havia se soltado da coleira para desespero dos passantes. Grudou em mim. O ônibus, apesar do farol livre, decidiu parar. Menos mal: não passou por cima de mim e nem da Ricotinha. Lembro-me do para-choque a alguns centímetros de distância do meu corpo. Arrastei-me até o canteiro central. Humilhada.

Admiro os gatos. Caem sempre de pé sobre as quatro patinhas. Não importa a situação. Eu? Me esborracho no chão nas malditas calçadas malcuidadas pela gestão do alcaide da cidade onde moro. Não é o primeiro hematoma. É uma situação eterna. Histórica.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. O gatinho Ozzy, está se espreguiçando. Ele é branco e tem detalhes rajados na cabeça. Fim da descrição.

Ozzy, o gatinho contorcionista do meu colega Cidomar Biancardi Filho responsável pela foto

Dizem que vivo no mundo da lua. Enganam-se. Vivo, por assim dizer, num mundo paralelo: espécie de realidade própria, construída em pensamentos profundos que me permitem compreender a outra realidade material, dura, intragável do nosso cotidiano como pedestres em São Paulo. Recorrer a quem? Ninguém. Nada. Vazio. Acessibilidade em ambiente urbano? Só se for em cidades fora do Brasil. Preciso viajar para caminhar. São inúmeras as autarquias, órgãos, departamentos, secretarias, empresas, concessionárias, permissionárias, leis, normas, interessados, curiosos… sei lá. Todo tipo de interferências e emaranhados administrativos e legais agindo sobre o espaço por onde caí. Preciso implorar. Gritar para ter o mesmo direito do carro. Sem saída. Desisto.

Em tempo: Ricotinha conseguiu passear. Correu como nunca no petground – novo espaço público urbano para a diversão canina. Próxima vida, pretende nascer cachorro.

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

Pelos passeios de São Paulo…

Falar de calçadas é também tratar de um tema que se tornou um dos principais desafios das metrópoles contemporâneas: trata-se da mobilidade urbana.

Você sabia que em São Paulo mais de 30% da população se locomove a pé?

Traduzindo em números, cerca de 14 milhões de pessoas utilizam as calçadas de São Paulo para deslocar-se todos os dias: Os motivos são os mais variados e as distâncias também.

O fato é que a locomoção e o deslocamento acontecem sobre um tipo de espaço livre peculiar: as calçadas. Mas, o que é uma calçada? Quais são os elementos que a compõe?

O Decreto Municipal 45.904 de 2005 define os elementos que compõem uma calçada e descreve as 5 faixas que descreveremos as seguir:

– a primeira é a sarjeta, ou ainda, o local por onde escorrem as águas das chuvas, por exemplo, e que fica entre o leito carroçável e a guia. A guia é a elemento que separa a sarjeta da calçada.

sarjeta 3
Fonte

 

– em seguida, vem a faixa de serviço que é aquele espaço de no mínimo 75 cm,  destinado à instalação de equipamentos e mobiliário urbano como vegetação, tampas de inspeção, grelhas de exaustão, de drenagem, lixeiras, postes de sinalização, iluminação pública e eletricidade, floreiras, caixas de correio, telefones públicos e mais dezenas de outras interferências colocadas por permissionárias e concessionárias públicas.

– Logo depois vem a faixa livre, ou seja, aquele lugar em que o pedestre anda livremente e que possui superfície regular, firme, contínua e antiderrapante com largura de, no mínimo, 1.20 m. Trata-se de espaço suficiente para duas pessoas andarem lado a lado. Este lugar tem inclinação transversal de até 2%, ou seja, quase imperceptível para quem está andando mas, que permite, que a água de chuva escorra para a sarjeta sem empoçar no meio do caminho. Quanto à inclinação, ela tem que se igual à da rua: nada daquilo de fazer degraus, escadinhas e várias outras soluções que a gente encontra todos os dias por aí e que nada mais são do que soluções criativas para facilitar a vida particular dos donos dos imóveis ou seja, facilitar a entrada do carro na garagem, servir de apoio para mesas de bares e restaurantes por exemplo.

– Depois temos a faixa de acesso que é a área destinada à acomodação das interferências que são resultantes da implantação, do uso e da ocupação das edificações existentes na via pública. Trata-se da colocação de jardins, floreiras, lixeiras e quaisquer outras necessidades do edifício que está em frente a ela. De qualquer forma, precisa de autorização da prefeitura e só é recomendável para calçadas com mais de 2 metros de largura.

– Por fim o decreto apresenta as esquinas incluindo a intervisibilidade. A esquina constitui o trecho do passeio formado pela área de confluência de 2 (duas) vias. 

boletim lei calcadas_menor_c (1)
Fonte

No evento Calçada-Cilada realizado aqui no FIAM-FAAM Centro Universitário em 01 de abril de 2016, algumas sugestões para a melhoria da vida das pedestres foram apontadas.

O evento contou com a participação de alguns convidados que tratam do assunto. São eles o jornalista Marcos de Souza (MOBILIZE), a arquiteta Meli Malatesta (Cidade a pé e também da ANTP), Andrew Oliveira (Corrida Amiga), Luiz Eduardo Bretas (SPUrbanismo) e Ramiro Levy (Cidade Ativa).

Destaquei algumas mas, se você quiser conhecer as demais, acesse o vídeo do evento aqui:

  • Ampliação das calçadas, passeios e espaços de convivência;
  • Redução de quedas e acidentes relacionados à circulação de pedestres corrigindo e readequando calçadas existentes ou seja, projetando e implantando as cinco faixas ou quando não houver espaço, ao menos as três primeiras – guia e sarjeta, faixa de serviços e faixa livre de 1.20 para o deslocamento;
  • Por fim, a padronização e readequação dos passeios públicos em rotas com maior trânsito de pedestres;

Mas tem uma ação que considero fundamental: por meio de campanhas educativas promovidas pela prefeitura e também por meio das ações criadas pelo ativismo civil organizado, conscientizar os cidadãos da importância das calçadas como um dos elementos que compõem o espaço público das cidades lembrando sempre que a qualidade dos espaços destinados aos cidadãos caracteriza o nível de civilidade de um país. Se quiser saber mais, acesse a Agenda 2030 e Project for Public Spaces.

Texto original: Blog da Paisagem

Bicicletas em São Paulo: pesquisa sobre a influência do traçado das ruas na implantação do sistema cicloviário

Helena Napoleon DEGREAS¹; Paula KATAKURA²; Maria Isabel
IMBRONITO³
¹Prof. Dra. Centro Universitário FIAMFAAM
Av. Lins de Vasconcelos, 3406 – São Paulo, SP, Brasil
helena.degreas@fiamfaam.br
²Prof. Dra. Centro Universitário FIAMFAAM
Av. Lins de Vasconcelos, 3406 – São Paulo, SP, Brasil
pkatakura@fmu.br
³Prof. Dra. Centro Universitário FIAMFAAM
Av. Lins de Vasconcelos, 3406 – São Paulo, SP, Brasil
imbronito@gmail.com

Palavras-chave: mobilidade urbana, forma urbana, São Paulo, sistema
cicloviário, transporte.

 Corte Via parque- estudo para a adequação Viária da marginal Tietê-Projeto de sinalização da ciclovia autora: Paula Katakura

Foto 1: Corte Via parque- estudo para a adequação Viária da marginal Tietê-Projeto de sinalização da ciclovia autora: Paula Katakura

Resumo

Este texto é parte integrante da linha de pesquisa Mobilidade Urbana e Infraestrutura do Mestrado Profissionalizante em Urbanismo vinculado ao programa de pós-graduação do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário FIAMFAAM.

Com o objetivo de contribuir para a discussão sobre o tema mobilidade urbana, alunos vinculados ao Escritório Modelo do Curso de Arquitetura e Urbanismo vem desenvolvendo pesquisas que consistem no levantamento da legislação, dados, estatísticas, estudos de caso para o planejamento cicloviário no município de São Paulo. Paralelamente, foram elaboradas fichas de avaliação das ciclovias (separação física isolando os ciclistas dos demais veículos), ciclorrotas (trechos (sinalizados ou não), que representam a rota recomendada aos ciclistas) e ciclofaixas (faixa pintada da rua/avenida reservada aos ciclistas), ciclofaixas operacionais de lazer (fechamento de faixas nas ruas e avenidas em caráter temporário para uso exclusivo de ciclistas) e bicicletários (local de estacionamento exclusivo de bicicletas), no que concerne aos aspectos espaciais (projetos implantados, inclinações, morfologia do terreno e declividades, qualidade do piso, barreiras construtivas, existência de equipamentos e mobiliários, contexto urbano entre outros), de inserção junto ao sistema estrutural viário e de transportes e também quanto à qualidade da sinalização implantada para a orientação e segurança do ciclista, do pedestre e do motorista.  Identificados e mapeados os espaços e rotas destinados aos usuários de bicicletas na cidade, os alunos iniciaram a aplicação das fichas e a redação dos relatórios de visitas técnicas. Este material vem subsidiando a elaboração de um diagnóstico pelos pesquisadores do programa de pós-graduação, gerando diretrizes para o planejamento cicloviário associado a um plano de mobilidade urbana do município.

 

texto original: ATAS PNUM2013